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5. SONUÇ VE ÖNERĠLER

5.2. Öneriler

Uma análise das práticas de clientela do caso investigado e do conteúdo dos depoimentos coletados, tanto pelos jornais citados como dos coletados por nós, permite traçar indícios da pauta de uma possível subcultura política do clientelismo, orientando as atividades políticas dos indivíduos dos setores populares ligados a vínculos clientelísticos, mantidos por Antonio Belinati, na cidade enfocada. Dá para observar a presença recorrente das seguintes representações e valores:

1) Partindo de uma crítica à impessoalidade burocrática e à inacessibilidade aos políticos, uma avaliação segundo a qual o “bom” político seria aquele que, quando em cargos executivos, por exemplo, realiza um atendimento direto ao eleitor-reclamante, driblando os diversos trâmites burocráticos. O “bom” político seria aquele que livra o eleitor da “frieza” da burocracia. Por inversão, o político ruim seria aquele anônimo, que nunca aparece no bairro, que não aparece para visitar o eleitor e que se esconde no anonimato da burocracia ou na segurança do gabinete;

2) Um julgamento que considera que o “bom” político seria aquele que trata o eleitor com “carinho” e “atenção” pessoais, individualizados;

3) A crença de que o “bom” político é aquele que se identifica com o eleitor, que se torna um igual: “Toma água na mesma caneca do dono da casa”. É aquele “humilde”, que se situa no “mesmo nível” do eleitor “pobre” e “carente”. Por outro lado, o político ruim seria aquele arrogante, exibido;

4) Crença num suposto hiper-poder/super-poder do chefe político (no caso o prefeito) em solucionar todo tipo de problema ligado a demandas de

caráter público. Vê-se, por parte do eleitor-cliente, uma investidura de força e capacidade de influência à figura do político. Uma moradora da periferia (Jd. Monte Cristo) disse, por exemplo, sintetizando essa crença: “Para os pobres, ele [Belinati] é um Deus”. A moradora de um outro assentamento afirmou que: “Sem o Belinati o pobre não é nada”;

Observando as solicitações e pedidos feitos por moradores e registrados pela imprensa, em “sessões de atendimento” que o prefeito organizava de madrugada em seu gabinete para atender pedidos da população (1998/1999), dá para ver que os moradores soperestimavam a capacidade de decisão e resolução do prefeito para atender suas demandas: estas iam de pedidos de empréstimos de dinheiro a pedidos de doações de casas;

5) Uma expectativa e até exigência de pessoalização na relação política. Uma forte necessidade de ”personalismo” nessa relação. Expectativa, até mesmo, de contato pessoal, de “reconhecimento” pessoal, por parte do eleitor- cliente. O político que “presta”, para este eleitor-cliente, é aquele que o cumprimenta, que “olha em seu olho”, que lembra seu nome. Um líder comunitário, que já foi presidente da Federação das Associações de Moradores de Londrina e que é ligado ao grupo político de Antonio Belinati, disse que parte do sucesso do prefeito estaria na abordagem direta que ele faz com o morador-eleito, promovendo o contato pessoal e físico. Segundo ele: “[O Belinati] é um político jeitoso, que vai na favela, pega no colo a criança suja, passa a mão na cabeça de um, abraça o outro, e conquista as pessoas (...)”;

6) A crença de que o político (líder político) seria a própria “fonte” dos benefícios públicos; por isso ele pode apresentar-se como “doador”, “ajudante”, “protetor”. Uma moradora, eleitora de Antonio Belinati e que participou de manifestações em sua defesa em 2000, por ocasião do processo de cassação, disse que: “[sua] família era grata ao prefeito por ele ter doado material de construção para erguer as casas no Bairro [Jd. João Turquino]. Eu não tinha casa, ele foi pessoalmente numa reunião e disse que era um presente para a gente”. (grifos nossos)

Outra liderança (do assentamento Jardim dos Campos), disse que “O povo tem gratidão pelo lote, pela água, pela luz e confia que o prefeito vai asfaltar e legalizar os documentos dos lotes. Sem ele na prefeitura acaba toda nossa esperança”. Um segundo líder comunitário observou: “Outros políticos só

lembram dos pobres quando chega a eleição, mas o Belinati não, sempre tem ajudado e socorrido as pessoas carentes”. (grifo nosso);

7) A crença de que a maneira de buscar benefícios ligados ao poder público passa pelo pedido feito diretamente -- ou via seu despachante (agentes/cabos eleitorais) --, ao chefe-político. Ou, de outra forma, o aceite de que o mecanismo da conquista das demandas é o pedido de “ajuda”, o pedido de “favor”. Ou ainda: procurar pessoalmente o prefeito seria a solução.

Conforme já demonstramos atrás, eram os eleitores-clientes de Belinati que enchiam as “sessões de atendimento à população”, realizadas de madrugada e lotavam também, diariamente, seu gabinete. Foram colhidos depoimentos de moradores que foram até o prefeito “para fazer pedidos”, para solicitar “ajuda”. Uma moradora disse que, certa vez, “(...) acordou às 5 horas (da madrugada) para pedir duas vagas na supercreche [creche municipal que leva o nome do pai do ex-prefeito] para seus filhos de 2 a 4 anos”. Outra relatou: “Fui pedir a legalização de um terreno onde moro no Jardim Santa Rita. Estou lá há 20 anos mas não tenho a posse. O terreno é da prefeitura. Quero ver se o prefeito legaliza (...)”. (grifo nosso);

8) Ligada imediatamente a esta última crença, está a representação que considera o político (no caso, Antonio Belinati) como “pai”, “protetor”. Por exemplo, uma liderança entrevistada, disse ser Antonio Belinati, “o nosso protetor”. Um outro morador se referiu a ele como “o pai” dos moradores dos assentamentos”. (grifo nosso)

Todas essas crenças e representações se ajuntam, conformando uma noção mais ampla e mais ou menos coerente sobre o que é o mundo da política, ou melhor, sobre o que é a relação política, que a entende como: a relação do “favor”, da “ajuda”, da “doação” e da “troca” entre o político e o eleitor.

Para se dimensionar as implicações dessa noção, pode-se contrapô-la a uma outra que vê o campo da política como ”o espaço da realização de direitos” ou “da disputa pela riqueza social”, onde se resolve, permanentemente, conflitos entre grupos e classes sociais que possuem interesses divergentes em relação ao uso do fundo público, à construção da legislação e à detenção do poder estatal.

Pode-se observar, portanto, a presença de uma subcultura política do clientelismo, como congregadora de práticas, concepções e noções sobre a

atividade política e que aparecem como comuns aos agentes envolvidos nos vínculos clientelistas que destacamos. Tal subcultura funcionaria como “o código que os une”, que aproxima e que permite o “diálogo” político entre seus membros, definindo parte dos roteiros do comportamento político destes agentes.

Encontramo-nos aqui, na esfera dos valores – que repercutem diretamente em interesses –, o que permite inferir que essas concepções e noções cumprem uma importante função ideológica, assimilando e unificando a ação política de parte dos agentes sociais das classes populares observados, inscrevendo-os como subordinados na esfera das relações políticas organizadas pelo vínculo clientelista. Baseados nos termos levantados, supomos estar dada uma subcultura do clientelismo local, com alguns traços já observados, também, em outros casos.123

CAPÍTULO 3

3 INTERPRETAÇÕES SOBRE OS MOTIVOS DA SOBREVIVÊNCIA DO CLIENTELISMO POLÍTICO NO BRASIL

Neste capítulo, nossa preocupação mais geral é levantar os elementos que explicam a permanência relevante de práticas de tipo clientelistas, compondo a organização política brasileira nos anos recentes. Faremos isso a partir da consideração de duas propostas de interpretação sobre o tema, que serão avaliadas criticamente, à luz das informações derivadas da investigação empírica anterior (capítulo 2) que realizamos, entre 2003 e 2005, sobre relações de clientela.

Para a tentativa de explicar tal permanência, estamos considerando que há, ao menos, duas ordens de motivos. Haveriam motivos relacionados à conjuntura: funcionalidade política do clientelismo ao modelo econômico em vigência no período, tratada no primeiro capítulo, e, b) motivos ligados a aspectos estruturais da organização social: referentes à desigualdade social, à pobreza e a aspectos culturais particulares derivados destas.

Selecionamos duas tentativas de explicação124 que expressam bem uma tendência recente nas análises sobre o fenômeno do clientelismo político na sociedade brasileira urbana e industrializada, que é a tentativa de ir além das teorizações que insistem ou na idéia de “herança cultural” ou na idéia da especificidade do “caráter e do comportamento do homem brasileiro”.

As duas tentativas de explicação centram-se na hipótese de que a prática do clientelismo na política atual encontraria sua racionalidade, referindo-se tanto à sua decadência como ao seu estímulo, na própria lógica da sociabilidade capitalista que, ao generalizar seu ethos próprio, em substituição aos valores

124 Elas podem ser ilustradas pelas reflexões de dois autores brasileiros. O primeiro deles é Francisco Pereira FARIAS, cujas reflexões estão sintetizadas no texto Clientelismo e democracia capitalista: elementos para uma abordagem alternativa (2000). Este, por sua vez, apóia-se, especialmente, nas indicações de Paul Singer, postas no texto A política das classes dominantes (1965); o segundo autor é Jessé SOUZA, com sua contribuição distribuída, principalmente, nos textos: Uma

interpretação alternativa do dilema brasileiro (2000), A construção social da sub-cidadania

tradicionais pré-capitalistas e mercantilizar toda a esfera das relações sociais, transforma também as relações políticas. Estas ganhariam, com isso, no primeiro caso, o da decadência, em impessoalidade (generalização dos procedimentos impessoais nas relações sociais) e, no segundo caso, o do estímulo, haveria a transformação do voto em mercadoria, em algo negociável.

Benzer Belgeler