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3. MATERYAL VE YÖNTEM

3.2. Yöntem

Outro trabalho de viés etnográfico é citado por Dahl e Flor (2008), sobre as imagens do alemão Heinz Forthman, que, entre 1942 e 1957, registrou aspectos do cotidiano indígena para o Serviço de Proteção ao Índio, acompanhando o Marechal Rondon e realizando trabalhos com o antropólogo Darcy Ribeiro e Orlando Vilas Boas. Nos anos 60, Forthman trabalhou como cinegrafista para produtoras nacionais e internacionais, registrando aspectos da vida brasileira. Entre seus filmes, Jornada

Kamayurá (1966) registra o cotidiano dos kamayurá no Alto Xingu. Em Funeral Bororo (1953) acompanha com Darcy Ribeiro o funeral de um líder da nação Bororo.

Em Rio das Mortes (1947), a fotografia é creditada também a Pedro Neves e Lincoln Costa que trabalharam com Forthman no Serviço de Proteção ao Índio. O filme é narrado por uma locução off, sugerindo certo tom de aventura sobre a difícil

aproximação aos “guerreiros Xavante” e sua “obstinada resistência” ao contato com o branco, fruto de invasões de território e “matança” de índios. Destaca-se o enorme trabalho do SPI na tentativa de pacificá-los. Nesse aspecto, a cena final organiza-se em torno da tensão da aproximação, destacada em tomadas nas quais observamos a presença pouco amistosa dos Xavante recebendo os brindes trazidos pelos “intrépidos pacificadores”, como é caracterizada a equipe do SPI. Enquanto vemos as imagens da tentativa de aproximação, a narração exalta o indígena pela coragem, sem deixar de ressaltar o trabalho de pacificação do SPI, acentuado ainda pela ambientação sonora da cena em tom apoteótico. Diz a narração final:

Antes de admirar a coragem do civilizado devemos admirar a coragem do índio que conhece o homem branco pela lenda como integrante de uma única tribo grande e poderosa, forte e cruel, que saqueou suas casas, queimou aldeias e matou seus antepassados. O Serviço de Proteção aos Índios, que se orgulha de já ter conseguido quatro encontros pacíficos com os Xavante, nunca se cansará de rebater a opinião daqueles que os consideram traiçoeiros, sanguinários e refratários da civilização. Sua aparente ferocidade não é um simples prazer de matar. Mas reflexo de males sofridos. Nunca se deve esquecer isso, pois sempre na diferença dessas opiniões estará a extinção ou existência de uma grande nação indígena.

Fig. 48 e 49: a cena do contato tomada como aventura e exaltando o trabalho do SPI. Fonte: fotogramas do filme Rio das Mortes.

O jornalista de O Cruzeiro, Jorge Ferreira, registrou em 16mm o segundo contato dos irmãos Villas Boas com os índios txucarramãe, em 1953. Do original de mais de uma hora resta hoje uma versão de 14 minutos, recuperando as imagens da época. O filme Primeiros contatos com os Txucarramãe: expedição irmãos Villas

Boas25 (1990) é narrado pelo próprio Jorge Ferreira com comentários de Orlando

Villas Boas. Os dois recontam em som off, sobre as imagens da época, como foi feito o segundo contato com os Txucarramãe. As imagens mostram a chegada ao

local, onde montaram acampamento às margens do Rio Xingu, e a espera pelos índios; as refeições feitas à base de peixe, aves e carne de macaco; o descanso na rede e a presença de índios Juruna na comitiva, estes que ajudaram os irmãos Villas Boas no contato. Sobre as imagens da aproximação dos Txucarramãe, ouvimos a narração de Orlando comentando sobre o simbolismo da chegada dos indígenas munidos de arco e flecha como sinal de confiança na aproximação do homem branco. Em seguida, continua Orlando em sua narração, a chegada das mulheres gera surpresa, já que geralmente, em situações de primeiro contato, as mulheres e as crianças mantêm-se na retaguarda. O filme registra, ainda, a entrega de presentes e a preocupação em cobrir os corpos femininos com tecidos e roupas.

As imagens sugerem tranquilidade no contato dos expedicionários com os indígenas, contrariando a narração de Orlando sobre os momentos tensos pelos quais passaram após o dia da chegada, quando estiveram aprisionados pelos mesmos índios que aparecem nas imagens. O motivo foi o sumiço das mulheres na selva e o entendimento dos Txucarramãe de que os brancos seriam os responsáveis. Orlando nos conta como foram aprisionados por aproximadamente 400 homens dentro da mata: “Queriam que nós chamássemos com toda força as mulheres que haviam fugido e nós gritávamos, então, a „mandado‟ deles „mulheres

venham cá, civilizado é bom‟ ”. Enquanto Orlando narra os episódios de tensão, as

imagens mostram seu irmão, Cláudio, sentado numa rede com outros índios numa conversa amistosa, seguida de cenas de mulheres cozinhando mandioca sobre as pedras. Closes de indígenas sorrindo e danças à beira do rio completam as sequencias do filme que se caracterizam pela dissociação entre imagens de hospitalidade indígena e a narrativa pontuada por momentos dramáticos vividos pela comitiva.

Fig. 50 e 51: Cláudio Villas Boas na rede e close de Txucarramãe, em contraste com a narração. Fonte: fotogramas do filme Primeiros contatos com os Txucarramãe.

Se nos atentarmos à mise-en-scène do filme, observaremos, nas primeiras imagens do contato, que a câmera mantém-se distante, deixando a aproximação por conta dos irmãos Villas Boas. É como se, agora, não se filmasse estritamente com a comitiva, mas a comitiva em seu trabalho de aproximação. Tem-se ainda a impressão de que são os indígenas que se aproximam da câmera e não o contrário, como se fossem eles a tomar a iniciativa do contato. O antecampo mantém-se oculto, mas deixa transparecer certa hesitação: quando próxima, a imagem tem a preocupação de descrever os corpos em contidos movimentos panorâmicos e alguns closes, como no destaque ao alargamento labial de um deles. Como se a situação de primeiro contato se inscrevesse nos enquadramentos, deixando neles alguns traços de hesitação, insegurança e desconhecimento.

Fig. 52 e 53: no encontro com os txucarramãe, a câmera se mantém distante à espera do contato. Fonte: fotogramas do filme Primeiros contatos com os Txucarramãe.