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No mesmo período dos registros da Comissão Rondon, o português radicado no Norte do Brasil, Silvino Santos (1886-1970), desenvolveu um importante trabalho sobre o ciclo da borracha. Entre os poucos filmes conhecidos de Silvino – dos quase cem títulos de sua carreira – está No Paiz das Amazonas (1922)24, relato de uma grande expedição pela região amazônica. O filme nasceu de um projeto encomendado por um poderoso empresário do ramo da borracha e do comércio em Manaus, o comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, que ambicionava mostrar a pujança econômica do estado do Amazonas, através de uma exibição na Exposição do Centenário da Independência brasileira em 1922, no Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, do relato de uma grande aventura pela região amazônica.

No Paiz das Amazonas segue uma divisão em blocos pelos quais o

espectador é convidado a participar da aventura pela região amazônica, destacando sua riqueza pluvial, a exuberância da natureza, a cidade de Manaus e sua arquitetura, a indústria, o trabalhador e também o indígena. Tudo organizado de forma a criar um vínculo harmonioso entre progresso e pujança natural. Segundo Labaki (2006), o filme é uma “enciclopédia audiovisual da vida amazônica”, dada a magnitude das imagens que incluem a vida urbana, as atividades da pesca, da castanha, do fumo, da borracha, do guaraná, entre outras, e por registrar ainda a vida dos índios do Norte brasileiro e da Amazônia peruana.

24 Na Cinemateca Brasileira encontramos registros também de outro trabalho de Silvino Santos, No Rastro do Eldorado (1924).

Sobre a presença indígena no filme, eles aparecem ora como trabalhadores civilizados que colaboram para o desenvolvimento da região, ora como bons selvagens, que mesmo vivendo na floresta mostram-se apaziguados. Assim, o espectador é conduzido pelos intertítulos que dão a tônica de um discurso ufanista em relação aos índios. Quando os registra na floresta, a câmera parece movida pela curiosidade em capturar e ressaltar o exotismo da experiência indígena.

Figs. 31 e 32: legenda e imagem destacam a integração do indígena à sociedade amazônica. Fonte: fotogramas do filme No Paiz das Amazonas.

Os Parintintins são descritos como “os mais fortes e guerreiros da amazônia”. A câmera se move pela curiosidade como procura enquadrá-los. Primeiro, eles vêm das matas em direção aos visitantes e, depois, aparecem em sequências que registram aspectos do seu cotidiano: homens pescando e mulheres deitadas na rede. A câmera passeia entre os corpos, destacando sua beleza e pujança. Eles são enquadrados de frente e de perfil, muitas vezes em situações posadas, quando, então, olham diretamente para a câmera. Em seguida, aparecem andando em círculo sem que letreiros situem o espectador sobre o ritual encenado, no qual adultos e crianças participam, tendo a câmera estática à sua frente (figuras 41 e 42).

Fig 33 e 34: os Parintintins apresentados por imagens que valorizam o corpo indígena.

Figs 35 e 36: os Parintintins descritos como “os mais fortes e guerreiros do Amazonas”.

Figs 37 e 38: Parintintins em cenas do cotidiano - homens pescando e mulheres nas redes. Fonte: fotogramas do filme No Paiz das Amazonas.

Figs. 39 e 40: a câmera passeia entre os corpos.

Figs. 41 e 42: os Parintins vistos de frente e perfil se preparam para um ritual.

Figs. 43 e 44: Os Parintins executam um ritual, tendo a câmera estática à sua frente. Fonte: fotogramas do filme No Paiz das Amazonas.

Sem que haja intertítulos explicativos, vemos outra etnia apresentada pelas imagens em que, mais uma vez, é possível observar tomadas em pose para a câmera entre outras em que os índios encontram-se indiferentes a ela. Mas permanece a ideia de um olhar curioso sobre o exotismo de um modo de vida registrado pioneiramente pelo cinema. Vemos ainda, nos letreiros, expressões de valorização do indígena como um patrimônio natural da região amazônica. Assim, eles são apresentados como “zelosos em seus costumes típicos” e como os índios que “não poupam esforços para realizarem os preparativos de suas festas dançantes”.

Fig 45 e 46: o índio enquadrado de frente vira-se e posta-se de perfil na mesma tomada de câmera. Fonte: fotograma do filme No Paiz das Amazonas.

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Mais adiante, sobre um grupo de indígenas na Amazônia peruana, o intertítulo chama a atenção do espectador para imagens de índias nuas. Diz o letreiro: “previne-se aos espectadores que nas restantes cenas desta parte as índias aparecem bastante decotadas”. Após as legendas de apresentação, uma única tomada mostra as mulheres em fila saindo de uma grande oca. Apanhadas em plano geral, elas caminham em direção à câmera, descrevendo um círculo para, em seguida, retornarem para a mesma oca. Logo após, outro intertítulo anuncia as mulheres “em trajes paradisíacos, as índias mais conservadoras das tradições ancestrais divertem-se aguardando o início da festa”. Em poses para a câmera, muitas vezes devolvem o olhar, o que explicita a relação entre quem filma e quem é filmado.

Fig. 47: enquadradas pela câmera, as mulheres devolvem o olhar àqueles que as filmam. Fonte: fotograma do filme No Paiz das Amazonas.

Nesses filmes, as particularidades étnicas são negligenciadas em detrimento da criação da imagem do “indígena”, figura de amplitude sociológica. Além ou aquém do enquadramento afinado com as expectativas da metrópole, restam os corpos, sua presença e opacidade, assim como os olhares que se devolvem à câmera. Por mais que o enquadramento queira forjar objetos de conhecimento, há ali sujeitos e modos de vida, que permanecem opacos, enigmáticos, incomensuráveis, diante da tentativa de constituição de uma imagem transparente.