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3. MATERYAL ve YÖNTEM

3.2. Yöntem

Até agora, enfatizei a questão da presença e da ausência das colunas policiais nos jornais, sua relação com dinâmicas políticas e as transformações institucionais da polícia. Mas o que se pode dizer sobre notícias de prisões publicadas nessas colunas? O levantamento das publicações de prisões de mulheres envolvidas com o meretrício, durante as décadas de 1920 e 1930, possibilitou elaborar um banco de dados, a partir do qual pude construir uma compreensão sobre diferentes situações dessas prisões. Apresento, a seguir, esse material, bem como os critérios de seleção e organização dos dados utilizados para sua elaboração. Os dados encontrados são datados entre 1920, que corresponde ao início da década de transformações importantes da cidade, como argumentei anteriormente, e 1931, momento de inflexão na publicação da coluna policial no “O Estado de Minas”.

205

O Estado de Minas, “O novo secretário da Segurança Pública”, 29/10/1929, p. 1.

206

MINAS GERAIS, Lei n. 1147, de 6 de setembro de 1930, art. 2º.

207

Ver “O novo secretário do Interior” em O Estado de Minas, 28/11/1931, p. 1.

208

A tese das transformações lentas vivenciadas pela polícia desmilitarizada também foi observada em FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO, 2008, p. 89-95. Um exemplo desse processo paulatino é a divisão, após alguns meses de funcionamento, da Delegacia de Segurança Pessoal e de Ordem Política e Social em duas, criando a Delegacia de Segurança Pessoal e a Delegacia de Ordem Pública. (Decreto 10030, de 24 de agosto de 1931). Além disso, a Delegacia de Costumes, como foi visto no capítulo anterior, passou por alterações das prioridades de atuação desde 1928. Houve investimentos que privilegiaram um ou outro ponto das suas responsabilidades, como a censura a espetáculos e diversões, o combate ao jogo, à vadiagem e ao comércio de entorpecentes. Em meados de 1930, por exemplo, acompanhado por campanhas publicadas nas páginas dos jornais, o jogo ganhou uma centralidade nas demandas das atividades desta delegacia e a prática do meretrício já não aparecia como um grande problema a ser combatido ou merecer aplicação de um projeto de transformação dos comportamentos nos discursos da Delegacia de Costumes, como visto no primeiro capítulo. Ver série de reportagens, do jornal O Estado de Minas, datada entre 16 e 27 de agosto de 1930, p. 8.

Utilizei como critério para elaboração da Tabela 1 a nomeação adotada pelos redatores ao narrar as ocorrências de prisões.209 Nela encontram-se detalhados os números referentes aos registros de prisões encontrados; o número total de mulheres discriminadas nos relatos de prisões; e os números de mulheres presas, considerando as reincidências. Esta tabela permite visualizar uma diferença no processo de nomeação das mulheres envolvidas com a prostituição. No caso da documentação policial, como visto no capítulo anterior, “meretriz” era o nome atribuído às mulheres que se ocupavam do amor venal. Já os redatores dos jornais lançaram mão de um arsenal de nomes, disponíveis naquele momento, para se referir às “meretrizes”, utilizando este termo uma única vez, como pode ser observado na Tabela1. Esse desencontro aponta para as diferentes formas sociais e culturais de entendimento da prostituição naquele período.

Os principais termos utilizados para designar uma meretriz, nos jornais consultados, foram “mundana” e “decaída”. Digo isso uma vez que “nacional” era um termo genérico, utilizado para homens e mulheres, não sendo, portanto, uma nomeação específica para mulheres que exerciam a prostituição. Além disso, cabe destacar que em um número significativo de registros nenhum termo foi utilizado para nomear a prática das mulheres presas. É curioso observar que as situações descritas nestes casos se deram em “pensões alegres”, “zona suspeita” e envolveram “escândalos”, infração das “ordens da polícia de costumes” e “atentado contra a moralidade pública”. Isso sugere que o reconhecimento do exercício do meretrício não se limitou à nomeação das mulheres, visto que foram utilizados outros símbolos culturais capazes de marcar e identificar essa prática.

209

Entendo por “nomeação”, baseado em Pierre Bourdieu (1982, p. 143), um processo de “classificação social”, elaborada por diversos campos de saber, bem como por diferentes grupos sociais, para compreensão e divisão do mundo. Já as “classificações sociais” são entendidas como “lutas pelo monopólio do poder de fazer ver e de fazer crer, de fazer conhecer e de fazer reconhecer, de impor a definição legítima das divisões do mundo social e, por essa via, de fazer e desfazer os grupos” (BOURDIEU, 1982, p. 137).

Tabela 1 – Registros de prisões de acordo com a nomeação Registros de prisões envolvendo meretrizes de acordo com a nomeação

Nomeação Registros encontrados Mulheres presas, no total Mulheres presas, considerando reincidências - 39 51 54 Alemã 1 1 1 Decaída 20 24 24 Distinta Senhorita 1 5 5 Diva 1 1 1 Doidivana 4 12 12 Doméstica 3 4 4 Dona de pensão 2 2 2 Eva 1 3 3 Filha de Eva 2 2 2 Horizontal 2 2 2 Mercadoria do amor 1 1 1 Meretriz 1 1 1 Mundana 43 75 83 Nacional 42 48 54 Preta 1 3 3 Senhorita 3 5 5 Vagabunda 1 8 8 Viúva 1 1 1 TOTAL 169 249 266

Observei durante a coleta desses dados várias nuanças que considero relevante destacar. Nos registros consultados, encontrei casos de mulheres designadas pelo mesmo nome que foram presas, teoricamente, mais de uma vez, sendo que nem sempre a nomeação utilizada foi a mesma. Digo teoricamente, pois nem sempre há como definir, mesmo em situações semelhantes, se as pessoas presas eram as mesmas, simplesmente pelo nome próprio. Os nomes próprios não devem ser considerados como o único fator de reconhecimento dos indivíduos, pelo menos no caso dos indícios fornecidos pelos jornais, que muitas vezes não passam desse dado.210 Essa ressalva se deve, também, aos costumes de se utilizar, de forma recorrente, determinados nomes que se configuram como homônimos, e de se grafar de diversas formas os nomes próprios nos suportes impressos.211

Por isso, é importante não tomar os números apresentados na Tabela 1 como absolutos, ou antes, como representativos de todas as notícias de prisões do período. Além das limitações apresentadas acima, é necessário considerar que esses dados dizem respeito aos casos em que as prisões estavam diretamente ou indiretamente relacionadas à prática do meretrício. O número total de meretrizes seria diferente, por exemplo, se os casos de furtos, ofensas físicas, assassinatos, ou mesmo se casos simples caso de embriaguez fossem considerados. Ou seja, não foram incorporados nesta análise os casos em que meretrizes foram presas em situações ordinárias. Tais ocorrências, como se vê na Tabela 2, só foram consideradas quando era indicada, de alguma forma, uma relação entre a prisão e a prática do meretrício, mesmo que indireta. Além disso, essa seleção, certamente, não esgotou todos os casos que envolveram o policiamento do meretrício, publicados nos jornais pesquisados.

210

As fontes mobilizadas neste estudo não permitem perseguir, como no debate sobre o “nome”, promovido por Carlo Ginzburg (1991), as trajetórias de cada uma dessas mulheres.

211

Um professor, descontente ao ler seu nome ligado a uma prisão anunciada na coluna policial, defendeu a ideia de que se tratava de um homônimo. Este caso foi publicado no “O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas – Desordens, etc.”, 13/03/1930, p. 6. O uso da expressão “de tal”, também era muito comum naquele momento. Há um caso, por exemplo, em que as mulheres foram identificadas apenas como “duas Marias”, Diário de Minas, 11/07/1927, p. 2. Além disso, encontrei casos em que os nomes das mulheres presas são semelhantes, mas registrados com algumas diferenças na grafia ou com inserção de um nome a mais. Essas ressalvas se fazem necessárias para indicar que os resultados encontrados foram frutos de escolhas, de seleções e não correspondem ao total de registros publicados pelos jornais.

Tabela 2 – Causas das prisões de meretrizes

Causas das prisões Ocorrência %

- 2 1,2

Atentado contra a moralidade pública 20 11,8

Atentado contra a moralidade pública, desordens 2

1,2

Atentado contra a moralidade pública, furto 1 0,6

Atos indecentes 12 7,1 Canoa 3 1,8 Desordens 15 8,9 Desordens e escândalos 1 0,6 Desordens, admoestada 1 0.6 Embriagada 3 1,8

Embriagada, atos imorais 1 0,6

Embriagada, desordens 7 4,1

Embriagada, escândalos 5 3,0

Embriagada, obscenidades 1 0,6

Embriaguez, desordens, insultos obscenos, modos

imorais, desrespeito à lei e aos bons costumes 1

0,6

Escândalos 20 11,8

Escândalos e desordens 7 4,1

Escândalos, atentado contra a moralidade 4 2,4

Escândalos, canoa 1 0,6

Escândalos, ofensas físicas 2 1,2

Estava em companhia de um homem em uma

carroça de lixo. 1

0,6

Infringia as ordens da polícia de costumes 25 14,8

Insultos e obscenidades 2 1,2

Manifestações de alegria 1 0,6

Obscenidade 2 1,2

Ofensas físicas 16 9,5

Ofensas físicas e insultos 1 0,6

Perseguida 1 0,6

Portou-se inconvenientemente 8 4,7

Vadiagem 3 1,8

Mas ainda é preciso explicitar melhor como esses dados foram selecionados. A triagem das ocorrências foi efetuada considerando a participação das mulheres em “escândalos”, “atos ofensivos à moralidade pública”, “atos indecentes”, “obscenidades”, “infração das ordens da polícia de costumes”, “ofensas físicas”, “vadiagem” e em situações em que elas teriam se portado “inconvenientemente”. Essas categorias, coletadas no conjunto das narrativas dos jornais, foram combinadas entre si, mas também com os locais das prisões ou das ocorrências, como uma “pensão alegre”, a “zona boêmia”, “suspeita” ou “alegre”, um “privado do Capitólio” ou “conventilho da rua Guaicurus”, o “alpendre” “janela” ou “balcão” de uma residência ou pensão, o “Cabaré Radium” ou o “Cabaré Capitólio”. Esses são os principais indicadores dos espaços da prostituição na cidade, junto com as ruas Guaicurus, São Paulo, Rio de Janeiro.212

Para deixar mais claro, apresento um exemplo de cruzamento dos critérios utilizados para compor a seleção dos dados produzidos para a Tabela 1.213 A nomeação “preta” foi encontrada somente em uma ocorrência e dirigida para três mulheres. Essa classificação só foi considerada pelo fato de as mulheres envolvidas já terem sido presas e nomeadas como “decaída”, “mundana” e por terem infringido “as ordens da polícia de costumes”.214 Assim, por muitas vezes, a seleção do registro de prisão deveu-se à observação de pelo menos um dos elementos enumerados no parágrafo acima, e quando possível, pela ocorrência de mais de uma dessas categorias.

Deste modo, entre 1920 e 1927, verifiquei que 26 mulheres foram presas e, entre 1928 e 1931, 240.215 O número total de ocorrências registradas até 1927 foi de 13, enquanto deste ano até 1931 foram registradas pelos jornais 156 ocorrências. Contudo, foram encontradas notícias duplicadas entre os anos de 1928 e 1929, momento em que “O Estado de Minas” e “Diário de Minas” dividiram espaço na capital. A partir dessa perspectiva, observa-se que o “Diário de Minas”, durante esse período, publicou 14 prisões em 13 ocorrências e “O Estado de Minas”, 147 prisões em 111 ocorrências. Juntos, registraram 161 prisões em 124

212

Como pode ser observado na Tabela 3.

213 O mesmo se deu com as tabelas seguintes, que são derivadas desta primeira tabela. 214

Maria da Conceição de Jesus foi presa como mundana em 22/11/1928, “O Estado de Minas”, p. 6. Maria Rita de Jesus, identificada como uma decaída, foi presa em 31/05/1928, “O Estado de Minas”, p. 4. Ephigenia de Oliveira foi presa por infringir as ordens da polícia de costumes em 23/06/1928, “O Estado de Minas”, p. 8.

215

Esses números dizem respeito ao número total de mulheres que foram presas, considerando as reincidências, ou seja, tomando a reincidência como uma prisão distinta.

ocorrências. Já no período de 1930 a 1931, “O Estado de Minas” publicou 32 ocorrências, nas quais 79 mulheres foram presas.

Numa leitura geral da Tabela 2, pode-se observar uma grande ocorrência de prisões cujos motivos englobam a questão da moralidade pública. O número de casos de “infração das ordens da polícia de costumes” somados aos de “atentados contra a moralidade” e aqueles que envolvem “obscenidades”, “atos imorais”, “inconveniências do comportamento”, “manifestações de alegria” e “escândalo” equivalem a 69% das ocorrências de prisões de meretrizes. Esse material permite sustentar a hipótese de que o policiamento do meretrício da capital foi informado, em grande medida, pelo problema da moralidade pública e da necessidade de consolidação de um projeto de moralização dos espaços urbanos.

Dividindo esses dados nos três períodos abordados, observa-se que das treze ocorrências publicadas entre 1920 a 1927 pelo “Diário de Minas”, nove relatam prisões decorrentes de comportamentos tidos como “inadequados” das mulheres. Entre as causas há três casos de “vadiagem”, quatro de “atentado contra a moralidade pública” e dois em que as mulheres “portaram-se inconvenientemente”. Entre 1930 e 1931, das 31 ocorrências noticiadas pelo “Estado de Minas”, treze envolveram escândalos, seis foram casos de “atentados contra a moralidade pública”, três de “atos indecentes”, um de “atos imorais”, quatro de “desordens”, três delas indicaram relação com consumo de álcool, três envolveram insultos e obscenidades, dois envolveram ofensas físicas e dois deveram-se à uma “canoa” feita pela polícia.216

Entre 1928 e 1929, período sobrerrepresentado pela circulação de dois jornais, os números são um pouco maiores, como já anunciei. No conjunto, o período registrou 25 casos em que mulheres “infringiram as ordens da polícia de Costumes”, 27 casos de “escândalos”, 21 casos de “desordem”, 17 casos de “atentado contra a moralidade pública”, 13 de “ofensas físicas”, 13 casos envolvendo “embriagues”, nove relacionados a “ato indecente”, seis em que as mulheres portaram-se “inconvenientemente”, três casos de obscenidades, um resultante de uma “canoa”, um caso de “insultos”, outro envolvendo “manifestação de alegria”, uma prisão por “insultos obscenos, desordem, modos imorais, desrespeito às leis e aos bons costumes”, uma mulher “perseguida” pela polícia, outra presa por estar em companhia de um homem “em uma carroça de lixo” de madrugada e dois casos sem especificações do fato.

216

Espécie de prisão coletiva, a canoa era anunciada como um grande feito de um delegado e, geralmente, tratava-se de uma diligência previamente organizada, atualmente, a “canoa” poderia ser traduzida como uma “batida policial”.

Tabela 3 – Número de ocorrências por localidades

Local das ocorrências Número de ocorrênciasº

- 23

Córrego do Leitão 1

Alpendre da residência 9

Av. Affonso Penna 1

Av. Contorno 2

Av. do Comércio 2

Av. Oiapoque 3

Av. Paraopeba 3

Av. São Francisco 1

Bar/Restaurante 17 Barro Preto 2 Barroca 1 Cabaré Capitólio 2 Cabaré Radio 2 Conventilho 2 Cinema América 1 Lagoinha 3 Pensão/Pensão Alegre 11 Praça da República 1 R. Barbacena 2 R. Bonfim 1 R. Curitiba 1 R. Goitacazes 1 R. Guaicurus 41 R. Mato Grosso 2 R. Oliveira 1 R. Resedá 1 R. Rio de Janeiro 6 R. São Paulo 7 R. Tamoios 5 Praça Sete 1 Santa Tereza 1 Via pública 5

Vila Novo Horizonte 1

Zona boêmia 6

Apesar da coexistência dos jornais consultados por dois anos, apenas 13 ocorrências, como já afirmei, correspondem ao “Diário de Minas”, sendo assim especificadas: cinco casos de infração às “ordens da polícia de costumes”, três “atentados contra a moralidade pública”, dois “atos indecentes”, um caso de “desordem”, um de “ofensas físicas” e o caso de uma mulher que se encontrava em uma “carroça de lixo”. Assim, apesar da possibilidade de inchaço dos dados dos anos 1928-1929, a análise dos registros por jornal indica uma recorrência, presente nos dois jornais, de prisões envolvendo descumprimento das prescrições da Delegacia de Costumes e questões relacionadas à moralidade e à decência pública.

Os dados dos dois jornais, portanto, indicam uma crescente preocupação com o policiamento da moralidade pública desde 1920, em especial com as questões levantadas pelo projeto de uma polícia de costumes. O ápice desse interesse, marcado pelas prisões em nome daqueles valores, situa-se entre os anos entre 1928 e 1929, período de instalação da Delegacia Especializada na Fiscalização de Costumes e Jogos. Após esse período, os dados indicam um decréscimo deste tipo de policiamento, o que sugere uma mudança na ação da Delegacia de Costumes, em relação aos seus primeiros anos de funcionamento, diante do problema da prostituição. Ainda assim, os principais casos de prisões, datados entre os anos de 1930 e 1931, envolveram questões pertinentes à delegacia, indicando certos resquícios de uma prática policial incitada desde o início da década de 1920 por autoridades diversas, como o próprio Edgard Franzen de Lima.

Nesse, sentido, o quadro apresentado na Tabela 2 reforça as hipóteses elaboradas no capítulo anterior, de que nos primeiros anos da década de 1930 ocorreu uma inflexão nas definições de prioridades de atuação da delegacia, no nível prescritivo. O que o trabalho de quantificação das prisões noticiadas pelos jornais trouxe de novo foi a percepção de que também na prática policial, ou mesmo nas políticas editoriais de publicação dessa prática, houve uma inflexão nas formas de lidar com a prostituição na cidade, chegando praticamente a desaparecer os relatos de prisões de meretrizes no período entre 1931 e 1934.

É preciso reforçar, no entanto, que a primeira seção urbana está sobrerrepresentada nestes dados, como se pode observar na Tabela 3. Enquanto outras regiões, das quais se tem notícia da prática da prostituição, mesmo que ocasional, como Barroca, Barro Preto, Lagoinha e Floresta, encontram-se sub-representadas.217 É preciso cogitar, também, que os dados

217

Como exemplo, conferir um caso envolvendo “prostíbulo” na rua Matto Grosso. “O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas – Distúrbios”, p. 8, 06/08/1930. Pedro Nava (1985, p. 90), também indica várias regiões das quais se tem notícias de locais de prostituição como “no Calafate, atrás do

representados no período de 1920 e 1927 podem estar sub-representados pela própria limitação do Diário de Minas e sua política editorial. Entretanto, a leitura dos jornais permite sustentar a hipótese de que ocorreu uma crescente preocupação, ao longo da década de 1920, com a questão do policiamento do meretrício e do seu registro jornalístico e, ainda, que essa preocupação voltou-se para regiões de maior incidência daquela prática. Além disso, é possível afirmar que a região central, por ser um espaço de convivência entre diferentes grupos sociais, bem como local de grande concentração de cabarés, cafés-concerto e restaurantes, teve importância nas práticas de policiamento naquele momento, como pode ser observado pelas principais ruas em que as prisões foram registradas.

Feita essa apresentação dos dados, creio ser possível dialogar com a historiografia e pensar hipóteses a respeito do policiamento do meretrício em outras cidades, para, então, observar mais de perto Belo Horizonte. Para Bretas, no caso do Rio de Janeiro, “a pressão da sociedade e a ação da polícia concentravam-se principalmente não na prostituta em si mas no mundo que gravitava à sua volta”.218 Sua leitura é baseada nas fontes primárias de delegacias da capital federal, evidenciando as práticas dos distritos policiais, com os quais ele trabalhou, ante as ocorrências envolvendo meretrizes. Apesar disso, o autor reconhece que houve, nos anos finais da década de 1920, uma preocupação direta do chefe de polícia Coroliano de Góes com a prostituição e com as prostitutas em geral.219

Já Cláudio Elmir, analisando os discursos do jornal “O Independente”, publicado na década de 1910, em Porto Alegre, entende que a prostituição “esteve no âmbito das preocupações do poder público no sentido de moralizar uma prática que fugia dos parâmetros da ordem que o capitalismo industrial impõe ao trabalhador neste momento”.220 Sua leitura, porém, ressalta a preocupação, por parte de diferentes sujeitos, com a transformação do comportamento feminino, resultando em discussões que apresentaram soluções para o problema da prostituição, como a necessidade de consolidação de uma “educação moral”, e da intervenção estatal para “regular os comportamentos”.221

Em São Paulo, o crescimento da prostituição no final da década do século XIX provocou “reações moralistas entre setores diversificados da população”, concomitante a uma

Doze, na Floresta, nos caminhos do Pipiripau; no Quartel, entre a rua Niquelina e o Raul Soares (...) no Bonfim, sobrepujando o Cemitério; no Carlos Prates, nas veredas da Gameleira, do Matadouro, do Acaba-Mundo, da Lagoa-Seca, da Lagoa-Santa, do Vira-Saia, do Quebra-Bunda.”

218 BRETAS, 1997a, p. 203. 219 BRETAS, 1997a, p. 77. 220 ELMIR, 1994, p. 96. 221

“obsessão em proteger a moralidade das jovens e em restringir a circulação das mulheres pelas ruas e praças”.222 Uma dessas reações foi o processo de organização da polícia de costumes, que intervinha diretamente na prática do meretrício, desde o início da República.223 Essas intervenções, segundo Margareth Rago, se deram de forma bem intensa nos comportamentos das prostitutas, bem como no funcionamento de casas de diversões e de “casas de tolerância”, consolidando o que ela chamou de uma “ampliação do controle estatal sobre o mundo do prazer”.224

Maria Ignês de Boni, analisando o policiamento em Curitiba nos anos de 1890 e 1920,

Benzer Belgeler