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4. BULGULAR

4.4. Bariyer Boşalması ve İndüksiyon bobinin CO2 gazının giderilmes

O pequeno número de prisões datadas entre 1920 e 1927, como visto na seção anterior, já indica um interessante investimento do policiamento nas formas como as meretrizes se portavam no espaço público. Essas prisões se deram em diferentes circunstâncias e, ao que tudo indica, não dizem respeito a uma política específica de policiamento contra a prostituição ou a um projeto para modificar o comportamento das meretrizes no espaço urbano. Além disso, foram apresentadas de forma seca e direta, com poucas explicações sobre o motivo da

228

Isso é evidenciado nas fontes e, em certa medida, nos trabalhos de ANDRADE, 1987, SILVA, 2009 e SIMÃO, 2008.

229

Ver, por exemplo, Relatório SSA, 1927, p. 116; Relatório SSA, 1928, p. 47.

230

prisão, indicando um caráter de obviedade, possivelmente disseminado naquele momento, das causas dessas prisões.

Contudo, é interessante destacar nessas ocorrências um indício de uma “prática educativa” promovida pela polícia, observado em um relato de prisão. A nota em questão narra que na Vila Novo Horizonte, atual região do bairro Pompeia, duas “decaídas” de nome Maria, além de Rita, “filha de uma delas”, entraram em luta corporal, sendo presas, “para acalmar os ânimos” com “algumas horas de reflexão dentro das grades de um xadrez”.231 Ora, essa iniciativa de buscar uma mudança no comportamento dos sujeitos, no caso as meretrizes, por meio de um determinado período de reclusão entre as grades de um xadrez, e desejando que eles tirem dessa experiência uma reflexão, é um dos maiores indícios de uma deliberada intenção formativa nas práticas de policiamento e prisão. Dessa maneira os jornais, não só no caso citado, mas também em outras notícias de prisões, acabam por anunciar práticas policiais, mesmo quando se propunham a simplesmente narrá-las. Analisando os demais registros de prisões de meretrizes, pude perceber como se deu essa tendência de associar prisão a um processo educativo, numa busca pela transformação dos comportamentos de meretrizes.

O número de prisões relacionadas ao comportamento de mulheres no espaço público é redimensionado após 1928 com a instalação da Delegacia de Costumes. A partir de então, há anúncios de prisões que indicam a circulação das prescrições dessa delegacia por meio de uma portaria, apontando para uma convergência entre o policiamento e o projeto do delegado Edgard Franzen de Lima. Adrelina da Silva, também conhecida como “Yayá Fruta do Conde”, por exemplo, foi presa às 16 horas “por ofensas verbais à moralidade pública”.232 As justificativas das prisões de meretrizes, ou de pessoas envolvidas com o meretrício, sustentaram-se mais corriqueiramente, durante esse período, no argumento da ameaça ou da ruptura com preceitos da moralidade pública.

Consequências do calor?

O guarda civil n [ilegível], prendeu e conduziu ontem à delegacia do 2o distrito às 0,25 horas a alemã [ilegível], por estar passeando no alpendre da casa que reside à rua Guaicurus, em trajes paradisíacos. A “inocente Eva”, depois de convenientemente admoestada, foi trancafiada em seguida, numa das “geladeiras” daquela circunscrição [policial], para criar um pouco mais de pudor.233

231

Diário de Minas “Pequeno arquivo policial”, Briga entre Marias, 11/10/1927, p.2.

232

Diário de Minas, “POLICIAIS”, 14/09/1928, p.3.

233

Essa notícia indica a permanência da prática policial de prisão celular por hora ou noite, recorrente nas colunas policiais dos jornais no período coberto pela pesquisa. Essas narrativas incutiram à prisão, ao “xadrez” e à “geladeira” um caráter de instrumento, ou melhor, de mecanismo de constrangimento, que assume um tom pedagógico e torna-se capaz de educar a moralidade e os comportamentos das meretrizes. É como se o limite dado aos corpos das mulheres, na cela da prisão, pudesse redimensioná-los. Numa ação que induz à reflexão, incidindo sobre os comportamentos corporais daquelas que se veriam impossibilitadas de se movimentar para além dos limites das grades. E, ao reforçar a ideia da prisão como lugar onde seria possível “criar pudor”, sugere-se que a prática prisional poderia ser reconhecida como um processo que corresponde a aprendizados. E, ainda, como uma das formas possíveis de levar a cabo os projetos antigos de transformação do comportamento das meretrizes, naquele momento transformados em uma instância policial especializada.234 Isso me leva a supor que, no período em questão, as prisões educativas235, ou antes, o desejo de que as prisões participassem na educação moral das meretrizes, fizeram parte, mesmo que informalmente, da ação policial diante do meretrício.

A narrativa acima, como várias que evocaram “desrespeito à polícia de costumes”, relaciona-se diretamente com a prescrição da Delegacia de Costumes, que resolveu “proibir que meretrizes em trajes menores permaneçam nos portões, janelas e alpendres e assim transitem pela rua”.236 A “desobediência” enfatizada nessas narrativas é um dos principais destaques no período entre 1928 e 1929, o que sugere uma intensidade das atividades da Delegacia de Costumes, ou pelo menos uma disseminação de seus preceitos entre os guardas- civis que efetuavam esse tipo de prisão, como sugere a nota abaixo.

UMA MULHER DE TRUZ -Descomposta, imunda, a Florisbella da Silva estava havia já algum tempo escandalizando os frequentadores de um botequim à rua S. Paulo, quando a chegada providencial do “mantenedor da ordem” n. 205, pôs termo à “fito”, levando a impudica mundana para a “gaiola” da 2º delegacia, onde deverá permanecer até que tome modos!

O pior é que as más línguas afirmam, não voltar Florisbella, com essa condição, nunca mais para casa...237

234

Vale lembrar que o projeto formativo das prisões estava em discussão no Conselho Penitenciário, desde 1927, o que culminou na Penitenciária Agrícola de Neves, que prezava pelo trabalho dos reclusos como forma de “regeneração”.

235

Aquelas que teriam um teor de moralização da punição como pano de fundo.

236

Relatório da SSA, 1929, vol. II, p. 89.

237

Talvez por se tratar de uma figura conhecida nos meios que frequentava, Forisbella foi descrita como alguém que não seria capaz de “cultivar modos” e de participar de um processo educativo, mesmo quando isso incluía reclusão. O jornal aborda o tema expressando certa familiaridade com o caso narrado, o que indica tanto a circulação de informações como a constituição de “boatos”. Essa estratégia literária dos redatores foi empregada na elaboração de várias notas e configura-se como um vestígio das redes de sociabilidade em que meretrizes, guardas-civis, repórteres e outros atores policiais estavam envolvidos. Essas redes são anunciadas em breves comentários sobre o passado desordeiro de uma mulher, sua “fama” na região do meretrício, ou suas experiências com prisões.

MAIS UMA VEZ...

Dentre as infelizes mulheres vítimas do vício, que vivem nos meios escusos da capital, a mais conhecida da polícia que tem o seu nome inúmeras vezes registrado nas crônicas policiais é a já célebre – pelas frequentes desordens e tumultos que promove – Maria dos Reis, vulgo “Bango-Bango”.

Ontem, a infeliz mulher estava, como é seu costume, alcoolizada e foi fazer desordens em uma pensão de mundanas situada perto do Café Lopes.

O guarda 229, para evitar maiores escândalos deu voz de prisão à desordeira, mas esta agrediu-o violentamente a socos e dentadas e, só com o auxílio de um outro guarda, o de n. 293, conseguiu fazer com que a “Bango- Bango” desse, mais uma vez, entrada no xadrez do 2º distrito.238

Notícias como essa indicam uma familiaridade de algumas mulheres com a repressão exercida pelos guardas-civis sobre seus comportamentos. As meretrizes estiveram sujeitas a várias formas de policiamento que resultavam em reclusões, desde uma “canoa” em um baile em que se encontravam “distintas senhoritas”,239 até prisões para averiguações240 ou prisões correcionais.241 As notícias veiculadas entre 1928 e 1931 evidenciam que as prisões e o tratamento dos guardas-civis também passaram a ser orientados pelo objetivo de alterar os comportamentos das meretrizes, de intervir nos costumes e no caráter moral das meretrizes. Havia, contudo, outras “informalidades” instituídas no cotidiano policial, que surgiam como possibilidades de ação, em concordância com o projeto da Delegacia de Costumes, como a admoestação.

Prisão por desobediência – Carmen de Tal proprietária de pensão, e Maria Pires desobedecendo à ordem que lhes foi dada para não se debruçarem

238

“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas”, 23/11/1928, p. 6, grifos meus.

239

“O Estado de Minas”, 14/08/1928, p. 6.

240

“O Estado de Minas”, 28/06/1928, p.6.

241

por muito tempo no alpendre e não ligando importância à admoestação do guarda n. 251 foram por este presas e conduzidas à delegacia.242

Recorrente nas notícias de prisões, em geral, o ato de “admoestar” também compõe um dos mecanismos pedagógicos da prática policial no processo de educação moral das meretrizes. Luciano Oliveira argumenta que a admoestação “refere-se a uma atitude marcadamente policial, caracterizada por palavras de descompostura dirigidas às partes”.243 É possível que ela tenha sido utilizada como meio de fazer circular os códigos da moralidade que se desejava atingir e, por isso, teria sido entendida naquele momento como uma prática educativa, formativa, como nos indica um dos sentidos possíveis do próprio verbo admoestar. A princípio, admoestar significa o ato de repreender de forma suave, explicitando os malefícios de uma determinada ação e recomendando uma “boa conduta”.244 Em outras palavras, é como chamar à atenção de atitudes desviantes, prejudiciais, aconselhando um caminho para correção dos males daí decorrentes. Admito ser necessária uma análise histórica mais do uso desse termo e de sua correspondente prática efetuada pela polícia, assim como dos significados simbólicos dessa ação. De todo modo, o material consultado indica que essa ação tenha se constituído, ao mesmo tempo, como um importante mecanismo nas relações sociais que foram travadas entre policiais e uma grande parte da população, como as meretrizes.

Das narrativas coletadas nos jornais, poucas envolvem admoestação dirigida às meretrizes. Há casos em que o guarda-civil admoestou as pessoas e as liberou; em outros a liberação aconteceu após uma admoestação seguida de um período de reclusão numa cela da prisão; e há situações em que a admoestação foi questionada pela meretriz, seguida por conflitos e de uma posterior manutenção da autoridade policial através da prisão. A função pedagógica da admoestação, tanto nestes casos como nos apresentados anteriormente, aparece como uma das etapas possíveis nas relações entre policiais e meretrizes, antecedendo, ou mesmo substituindo a prisão e o “recolhimento” ao xadrez. Apesar de poucos casos explicitarem a admoestação de meretrizes, há indícios de uma interação entre guardas-civis e as mulheres presas, antes da efetivação das prisões.

INFRIGIU O REGULAMENTO

242

Diário de Minas, 08/01/1928, p. 3, grifos meus.

243

OLIVEIRA, 2004, p. 42.

244

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2010,

A polícia há tempos, proibiu que todas as “mercadorias do amor” assomassem às janelas ou alpendres de suas respectivas residências. O fim colimado nessa ordem policial foi de certo morto [sic], moralizar, várias das vias públicas desta Capital, que, principalmente à noite, ficavam virtualmente intransitáveis, para as famílias, tal o alarido e algazarra, em termos obscenos, que faziam naqueles lugares, as infelizes criaturas. É claro, porém, que essa medida não deixou de prejudicar, e muito, o “comércio”; destas últimas, que, uma vez por outra, ainda ousam desobedecer os severos regulamentos policiais, pondo-se a dar “trela” aos seus efêmeros admiradores do modo exatamente proibido pela polícia.

Ontem, mais uma mulher, a Pequerrucha, tentou permanecer no balcão de sua casa.

Advertida do seu “crime”, pelo guarda n. 128, não obedeceu ao aviso do mantenedor da ordem, que por último acabou por recolhê-la solicitamente ao xadrez da 2º delegacia.245

Como já mencionei, as narrativas que apresentam como justificativa das prisões o “desrespeito às ordens da polícia de costumes” fazem referência à circulação da portaria prescrevia comportamentos para as meretrizes. Mas, além disso, esses casos evidenciam as diferentes maneiras como as prescrições foram observadas, compreendidas e mobilizadas. O que é observado, também, nas especificidades da relação interpessoal entre guardas-civis e as mulheres envolvidas com o meretrício, que podem ser inferidas nos relatos de prisões. Pode- se afirmar, assim, que as diferenças no tratamento e resoluções das situações narradas evidenciam a hipótese, levantada por Bretas,246 da imprevisibilidade da ação policial no cotidiano, como o caso que se segue.

OS “FREGES” DA DURVALINA

A decaída Maria Durvalina, constantemente perturba a avenida Paraopeba, onde reside, com as suas desordens e escândalos.

Ontem, pela madrugada, como estivesse juntamente com o soldado Lourival Machado do 12º R. I., agindo de maneira pouco descente, o guarda n. 480 chamou-lhe a atenção.

Como resposta a mulher ameaçou o mantenedor da ordem, dizendo-lhe que ia buscar uns 20 soldados para lhe “tosarem” a pele.

A Durvalina desta vez não foi para o “xilindró”, não sabemos por que motivo.247

Se, por um lado, houve casos de mulheres que não “obedeceram” às ordens dos guardas, ou que não “aceitaram” os “conselhos” dos policiais e, mesmo assim, foram

245

“O Estado de Minas”, “Na polícia e nas ruas”, 28/08/1928, p. 6, grifos meus.

246

Essa hipótese é desenvolvida em BRETAS, 1997b, p. 21-23.

247

presas,248 também pude encontrar o caso de Durvalina, em que uma admoestação não teve, em nenhum sentido, o efeito habitualmente desejado. A intervenção do guarda foi contestada com uma ameaça e, talvez porque “decaída” estivesse acompanhada, ou pelo receio da intimidação ser levada a cabo, a prisão não se efetivou. É plausível que isso se deva a uma complexa dinâmica de sociabilidade travada entre guardas-civis, meretrizes e soldados da Força Pública. Dinâmica esta que parece ser um dos principais mecanismos de composição do policiamento urbano na capital mineira. Ela informava aos sujeitos suas possibilidades de ação, ao mesmo tempo em que formava esses campos de inter-relação entre esses sujeitos, compondo uma espécie de conhecimento social.

Para Bourdieu, o “conhecimento social” se daria em primeiro lugar pelo conhecimento corporal, prático, pela incorporação de valores que permitem aos sujeitos agir numa dada realidade.249 Com a noção de “habitus”, os agentes sociais são percebidos como capazes de construir e classificar, produzir e associar, mas não como sujeitos transcendentais e, sim, como corpos socializados, investidos pelos princípios de organização social que foram adquiridos no curso de uma experiência social situada e datada.250

(...) os agentes sociais são dotados de um habitus, inscrito no corpo pelas experiências passadas: esses sistemas de esquemas de percepção, de apreciação e de ação permitem operar atos de conhecimento práticos, fundados no rastreamento e no reconhecimento dos estímulos condicionais e convencionais a que os agentes estão dispostos a reagir, e também engendrar, sem posição explícita dos fins nem cálculo racional dos meios, estratégias adaptadas e constantemente renovadas, mas situadas nos limites dos constrangimentos estruturais dos quais são o produto e que as definem.251

Essa postura epistemológica auxilia a leitura do problema proposto por este trabalho, pois permite observar o policiamento do meretrício sob a perspectiva das relações sociais travadas entre guardas-civis, meretrizes, soldados e os homens que frequentavam o meretrício, e, também, compreender como o processo de educação moral poderia se dar no

248

Ver “O Estado de Minas”, “Desrespeitou o guarda”, 10/02/1931, p. 8.

249

BOURDIEU, 1997, p. 163-170. Pierre Bourdieu, lançando mão da noção de “habitus”, faz uma releitura da tradição estruturalista e materialista, considerando as possibilidades de ações dos “agentes sociais” no interior de estruturas sociais.

250

BOURDIEU, 1997, p. 164.

251 BOURDIEU, 1997, p. 166. No original, lê-se “ (…) les agents sociaux sont dotés d’habitus, inscrits

dans les corps par les expériénces passés: ces systèmes de schèmes de perception, d’appréciation et d’action permettent d’opérer des actes de connaissance pratique, fondés sur le repérage et la reconnaissance des stimuli conditionnels et conventionnels auxquels ils sont disposés à réagir, et d’engendrer, sans position explicite de fins ni calcul rationnel des moyens, des stratégies adaptées et sans cesse renouvelées, mais dans les limites des contrante structurales dont ils sont le produit et qui les définnissent”.

nível prático. Se as autoridades policiais entenderam que era necessário transformar as meretrizes em um tipo específico de sujeito moral, isso se daria numa relação social conflituosa, uma vez que o conhecimento prático preexistente das meretrizes entraria em confronto com o conhecimento prático do “mantenedor da ordem”. Ambos passariam por transformações e ambos poderiam conduzir suas ações dentro de limites estruturais que os definiam, modificando, assim, as possibilidades dadas.

Os valores não são “pensados”, nem “chamados”; são vividos, e surgem dentro do mesmo vínculo com a vida material e as relações materiais em que surgem as nossas ideias. São as normas, regras, expectativas, etc. necessárias e aprendidas (e “aprendidas” no sentimento) no “habitus” de viver; e aprendidas, em primeiro lugar, na família, no trabalho e na comunidade imediata. Sem esse aprendizado a vida social não poderia ser mantida e toda produção cessaria.252

Nessa perspectiva, homens e mulheres são tidos tanto como sujeitos de “sua própria consciência afetiva e moral”, tanto como de “sua história geral”.253 A experiência na modernidade é marcada pelos choques que estimulam, excessivamente, os sujeitos em seu cotidiano.254 Dessa maneira a variedade de estímulos nos fenômenos da modernidade e a dificuldade dessas experiências serem “incorporadas” pelos sujeitos são um problema que permeia os habitantes de diferentes cidades ao redor do mundo. Pensando numa perspectiva histórica, essa reflexão remete aos conflitos de geração, às tensões postas nas mudanças dos costumes e nas ações dos sujeitos diante dos processos de transformação na modernidade. Os conflitos observados nas relações entre guardas e meretrizes em Belo Horizonte indicam essa dificuldade vivida nas alterações das formas de sociabilidade, marcada por mudanças e permanências.

A formação de Belo Horizonte é marcada por uma diversidade cultural, étnica, social e econômica. É possível que essa diversidade tenha contribuído para formação de sociabilidades interpessoais caracterizadas pela solidariedade, pela relação face-a-face, pela

252

THOMPSON, 1981, p. 194, grifos meus.

253

THOMPSON, 1981, p. 194. Edward Thompson, em sua obra epistemológica dedicada a desconstruir a obra de Althusser, faz um elogio à perspectiva de Bourdieu, uma página antes: “Mas se algum leitor na Inglaterra foi levado (ou foi “interpelado”) pelos altos chamados das várias agências britânicas de importação do “Marxismo Ocidental” (inclusive uma grande agência de importação que, infelizmente, ajudei a fundar há alguns anos) a supor que isso é o melhor que a tradição marxista na França consegue fazer em relação à sociologia, comunicações e teoria educacional, etc., então peço- lhe que deixe de acreditar nisso. Poderia começar sua reeducação com Pierre Bourdieu.” (1981, p. 193).

254

articulação entre o “novo” e o “antigo”,255 forjando, inclusive, a moralidade da população. Todavia, por meio dessa diversidade podemos perceber conflitos sociais diversos, como greves, perseguições políticas e religiosas, e até mesmo a difusão de conflitos materializados em violências físicas e simbólicas.256 Dessa forma, a experiência da modernidade em Belo Horizonte foi um processo marcado tanto pelos choques, quanto pela partilha de valores e sensibilidades no seio da comunidade e da família.

Nos processos de transformação da relação entre as esferas pública e privada “o redimensionamento da esfera social e a consequente definição de espaço público foram caracterizados pela substituição da ação em favor do comportamento, baseado em regras da sociedade que visavam abolir as ações espontâneas dos homens, ou a sua espontaneidade”.257 Essa hipótese pode ser corroborada pelas preocupações policiais com a moralização do espaço público, observadas neste capítulo. No entanto, compreendo que o mundo do privado teria invadido o mundo do público não de forma a destruir a ética, mas justamente por meio dela, possibilitando a permanência de diferentes modos de viver no espaço público e promovendo tensões diversas entre os sujeitos envolvidos. Por meio da defesa da moralidade, que de privada tornou-se pública, é que o espaço público, em Belo Horizonte, pôde ser invadido do mundo do privado.258

Assim, se o acolhimento das “ordens da polícia de costumes” não acontecia de prontidão ou de comum acordo, isso se dava não somente, ou não exatamente, por estratégias

Benzer Belgeler