Cultura, segundo Cuche (2002), é um termo advindo do latim que no século XIII, na França, descrevia uma parcela de terra cultivada. Somente no século XVI há remissões à cultura como uma ação e não como o anteriormente concebido, um estado de coisas, ou seja, a concepção transita do sentido de coisa cultivada, o estado, para o ato de cultivar, a ação.
No século XVIII, o termo cultura quase sempre era seguido de um complemento: cultura das artes, cultura das letras, cultura das ciências, porém progressivamente o termo libera-se de seus complementos e designa a formação e a educação. Ainda, no século XVIII, a cultura apresenta-se sempre no singular, refletindo o universalismo do conceito, pois a mesma servia a variados propósitos, independente das diferenças dos povos ou das classes sociais.
Na França do século XVIII, a cultura se aproxima à evolução e razão, aspectos centrais do iluminismo. Também se achega do campo semântico da terminologia ―civilização‖, pois ambas possuem e representam as mesmas concepções.
No mesmo século, surge uma palavra sinônima do termo cultura, ―kultur‖, uma crítica dos intelectuais alemães ao modo de vida da corte, pois valorizava e tentava copiar a maneira civilizada da corte francesa em detrimento das artes e da literatura alemã. Kultur, para os alemães, era o conjunto de conquistas artísticas, intelectuais e morais que unem uma nação. As concepções de cultura francesa e alemã do século XVIII são vertentes básicas para a definição de cultura, sendo que a primeira promove uma visão universalista e a outra particularista de cultura.
Nos séculos XIX e XX vários estudos desenvolveram concepções de cultura coligadas à vertente antropológica na tentativa de explicar a conformação cultural da sociedade, ora compreendia-se a cultura como construção histórica, ora como elemento que
inferia nos processos de organização social. Para Mello (2008), autor que concebe a cultura como elemento antropológico, a cultura no seu sentido macro é todo o conjunto da obra humana.
Na década de 1960, os Estudos Culturais emergem de forma organizada a partir da criação do Centre for Comtemporary Cultural Studies, na Universidade de Birgmingham, Inglaterra. Criação de Richard Hoggart, inspirado na sua pesquisa ―A Utilização da Cultura‖. O foco dos estudos seria as relações entre a cultura contemporânea e a sociedade, ou seja, as formas culturais, instituições e práticas culturais. (JONHSON ET. AL, 2006)
Sobre o início dos Estudos Culturais, Hall (2003, p. 2), em entrevista concedida à Heloisa Buarque de Hollanda e Liv Sovik, afirma o seguinte:
Quando criamos o Centro, os Estudos Culturais não existiam e não era nosso projeto criá-los. Procurávamos apenas abrir uma área de pesquisa e estudos críticos. Essencialmente como uma área transdisciplinar. Nunca pensamos em criar uma disciplina que substituísse as outras. É ainda assim que vejo hoje os Estudos Culturais. Necessariamente transdisciplinar. Necessariamente com posições críticas em relação ao que as outras disciplinas fazem ou não fazem ou não podem mais fazer. Acho que os Estudos Culturais são uma área polêmica porque está sempre atenta para o que está se fazendo nas outras disciplinas e que se pode retirar delas para a crítica da cultura e o que nelas deve ser deixado de lado. Não me vejo como o Pai dos Estudos Culturais, eu não criei o Centro. Nós trabalhamos com figuras como Edward P. Thompson, Richard Hoggart e Raymond Williams, mais velhos do que eu, mais Estudos Culturais do que eu… Aliás, até hoje, 20 anos depois, não sinto nenhuma vontade de dizer: ―Isto é o que os Estudos Culturais são‖. Não sou patriótico em relação aos Estudos Culturais, nem me sinto responsável por eles. Trabalho ruim se faz em todas as disciplinas. Sei dizer o que se faz nessa área de importante, o que está na ponta, o que está abrindo novos campos de reflexão. Os Estudos Culturais não começaram sozinhos. Surgiu relacionado a outros movimentos da época como as políticas de cultura, o feminismo, os estudos multiculturais, sobretudo aos estudos pós-coloniais, enfim, a uma enorme gama de novos trabalhos críticos nas ciências humanas. Vejo os Estudos Culturais como um poderoso fio nessa trama.
Hall (2003) caracteriza o período como um movimento de mudança compreendendo o feminismo, os estudos multiculturais e também os Estudos Culturais. O autor coloca em destaque os Estudos Culturais como um campo interdisciplinar que pode abarcar outras disciplinas, e ter em sua gama de estudos aqueles que demonstram como a cultura se constrói e se reconstrói, a partir das representações veiculadas pelos grupos envolvidos.
Para os teóricos dos Estudos Culturais, a cultura é um campo de produção de significados, produto dos grupos situados em posições distintas de poder que lutam pela imposição de seus significados à sociedade mais ampla. Os Estudos Culturais destacam o papel central desempenhado pela cultura também nas transformações da vida local e cotidiana, insistindo que as lutas pelo poder tendem a se desenrolar no campo simbólico e
discursivo, ou seja, no campo da cultura. Tais lutas derivam da divergência de interesses entre os grupos ao impor seus significados aos demais. Ou seja, na esfera cultural travam-se disputas em torno do processo de significação do mundo social. A cultura é, em resumo, um espaço no qual, em meio a relações de poder, são produzidas identidades e diferenças. (HALL, 2006).
A cultura, portanto, é um campo de luta pelas representações em que se imbricam relações de poder existentes a partir do contato entre uma ou mais culturas. A cultura é um campo de luta pela validação de determinadas representações e invalidações de outras. O presente estudo optará por essa concepção de cultura.
Diferentemente das versões da antropologia, para os teóricos dos Estudos Culturais as culturas atuais são híbridas, pois a emergência da sociedade globalizada conferiu uma formação societária proveniente do cruzamento cultural. Nesse aspecto, os Estudos Culturais compactuam com o ideário de hibridismo de Bhabha (1997). Para o autor, o hibridismo não é a simples apropriação ou adaptação, mas um processo por meio do qual se demanda das culturas uma revisão de seus próprios sistemas de referência, pelo distanciamento de suas regras habituais ou inerentes à transformação.
Nesta perspectiva, o ato de negociar com o diferente demonstra uma insuficiência dos nossos próprios sistemas de significação. Para o hibridismo, as dissonâncias a serem atravessadas, as disjunções de poder ou oposição a serem contestadas, os valores éticos e estéticos a serem traduzidos, são elementos que não permanecerão os mesmos no processo de transferência.
A evolução dos meios de comunicação, principalmente dos tecnológicos, propiciaram novas configurações dentro da estrutura da sociedade, evidenciando a expansão e inserção da cultura global dominante em todos os lugares do mundo e, contraditoriamente, a cultura local também se mostra reflexiva no mundo globalizado. Como exemplo, se veem atualmente práticas sociais como a culinária e a música divulgadas midiaticamente e assim disseminadas em contextos distintos de sua origem. Quando entram em contato com as culturas locais formam um hibridismo no modo de pensar e agir no cotidiano da sociedade.
Neste novo contexto social-global no qual o ―sistema nervoso‖ é dominado pela virtualidade que movimenta sociedades com estágios de desenvolvimento e modos de vida distintos, há conflitos e impactos do ponto de vista cultural quanto ao sentido que as pessoas dão à vida, sobre suas aspirações para o futuro - sobre a ―cultura‖ em um sentido mais local gerando uma mudança social do ponto de vista cultural. (HALL, 1997).
Para Hall (2003), a cultura não pode mais ser estudada de maneira secundária ou dependente em relação ao que faz o mundo mover-se; tem de ser vista como algo fundamental, constitutivo, determinando tanto a forma como o caráter deste movimento, bem como a sua vida interior.