Retomando a definição de História Visual, para Meneses340, o interesse do historiador em compreender a dimensão visual presente no todo social deve levar em consideração a
problemática da visão. Segundo diz, a visão compreende “os instrumentos e técnicas de
observação, o observador e seus papéis, os modelos e as modalidades do olhar (o olhar de relance, o olhar patriarcal, o olhar reificador, o olhar masculino, o olhar turístico, o olhar
erótico, o olhar casto, o olhar reprimido ou condicionado etc.)”. Trazendo para os nossos
interesses, trata-se, pois, do modo como o fotógrafo (profissional ou amador) olha quando ele fotografa, sendo que há uma série de intenções nesse seu ato, que vão desde o seu contexto social, cultural, econômico, ao seu entendimento da função da fotografia – como documento ou como expressão –, como procuramos pontuar.
Para o historiador, segundo Meneses341, é mais importante estar atento aos regimes de
visão, que são “construções históricas”, do que propriamente às práticas representacionais (os
estilos e técnicas artísticas). Modificações, inclusive, nessas práticas, nem sempre significam mudanças no regime de visão ou nos modos de ver – quanto a isso, se tomarmos o caso da fotografia, constataremos que a técnica é herdeira de algumas convenções do olhar renascentista, como o enquadramento retangular (que significa a existência de zonas áureas), a perspectiva albertiana e a ótica oferecida pelo dispositivo da câmera escura. Segundo Meneses, ao considerar antes a visão do que o suporte visual em si como domínio do historiador, é possível, passar de “uma história ainda marcadamente iconográfica para uma
história da visualidade” 342
, ou seja, uma história antes preocupada com os modos de ver e com os sistemas de circulação e consumo das imagens, do que simplesmente uma história preocupada com o conteúdo explícito dos “documentos” visuais.
O panoptismo, considerado sob a ótica de Foucault343, constitui-se em um fenômeno
bastante interessante para problematizarmos o olhar. Em seu clássico “Vigiar e punir”, o
filósofo e historiador francês demonstra as evoluções dos conjuntos de técnicas e de instituições e seus dispositivos disciplinares criados ao longo do tempo, especialmente na França, com a função de controlar e corrigir todos os tipos de abusos e infrações cometidos na sociedade. Entre eles, o Panóptico de Bentham, surgido no século XVII, tornou-se um
340 MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. Rumo a uma história visual. In: MARTINS, J. S.; ECKERT, C.;
NOVAES, S. C. (orgs.). O imaginário e o poético nas Ciências Sociais. Bauru, SP: EDUSC, 2005, p. 33-56.
341 Ibid., p. 39. 342 Ibid., p. 41. 343
modelo de construção e um dispositivo disciplinar a ser seguido.344 Além de prisões, o modelo, segundo o seu próprio criador difundia a ideia, também podia ser estendido a hospitais (hospícios), escolas (internatos) e fábricas, cuja aplicação, nestes locais, serviria para disciplinar o operário, evitando qualquer tipo de distração durante o trabalho, o que permitiria extrair dele a maior produção possível.345
O modelo disciplinar do Panóptico, ao posicionar o olhar de um vigia em uma localização estratégica, trata a visão como um elemento fundamental para o seu funcionamento, e, a sua principal função é ampliar o controle sobre os indivíduos. Segundo Foucault346, o modelo do Panóptico, de uma “vigilância generalizada”, torna o exercício do
poder mais “rápido, mais leve, mais eficaz”. Ao contrário dos modelos que o precederam,
como as prisões fechadas, com suas masmorras sombrias e seus espaços de invisibilidade, o
panoptismo é responsável por colocar o prisioneiro, o louco, o interno, o operário, em um
novo “campo de visibilidade”. Com isso, o poder do indivíduo é limitado, pois, ao saber que
está sendo visto/olhado, o mesmo assume maior responsabilidade em respeitar as condutas permitidas e reguladas pelas instituições em questão. Como coloca o autor347:
Quem está submetido a um campo de visibilidade, e sabe disso, retoma por sua conta as limitações do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo; inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papéis; torna-se o princípio de sua própria sujeição.
As observações de Foucault podem ser bastante úteis à análise de um conjunto de fotografias, na medida em que elas nos permitem pensar nos usos disciplinares da imagem fotográfica. O próprio autor sugere uma aproximação entre o modelo do panoptismo e a
fotografia ao assinalar que “a máquina de ver [o Panóptico] é uma espécie de câmara escura em que se espionam os indivíduos”348
. Sendo assim, medidas as devidas proporções, a fotografia assemelha-se ao dispositivo disciplinador do Panóptico, pois, ela também, é
responsável por produzir um “campo de visibilidade”. No caso da fábrica, nosso principal
interesse, a documentação visual dos operários praticada através desse instrumento de observação que é o dispositivo fotográfico (máquina de ver, afinal) pode ser utilizada com
344 Foucault (ibid., p. 190) resume assim a arquitetura do Panóptico: “na periferia uma construção em anel; no
centro, uma torre: esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar.”.
345 Ibid., p. 196 346 Ibid., p. 198. 347 Ibid., loc. cit. 348
fins de controle (como um inventário dos empregados e de suas funções nas seções de trabalho), assim como, pode servir para produzir uma imagem perfeita do trabalho, um exemplo a ser seguido, projetada pelo imaginário burguês: a do trabalho disciplinado, organizado e racional.349
Adiante, buscamos referências em estudos variados para compreender uma das principais funções da imagem fotográfica: a de servir à lembrança. Desse modo, discutimos a fotografia em relação à noção de memória.