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Certeau403, em seu célebre estudo onde apresenta os procedimentos metodológicos mais elementares para a escrita da história, afirma que

em história, tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em “documentos” certos objetos distribuídos de outra maneira. Essa nova distribuição cultural é o primeiro trabalho. Na realidade, ela consiste em produzir tais documentos, pelo simples fato de recopiar, transcrever ou fotografar esses objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e o seu estatuto. Esse gesto consiste em “isolar” um corpo, como se faz em física, e em “desfigurar” as coisas para constituí- las como peças que preencham lacunas de um conjunto proposto a priori. Ele forma a “coleção”.

Na pesquisa com imagens fotográficas, a construção de uma coleção ou série de fotos é um passo de fundamental importância. Não se pode querer analisar uma única imagem e pretender, com isso, chegar a conclusões seguras acerca da dimensão visual de uma sociedade, assim como não é possível analisar centenas ou milhares de imagens que não integraram uma mesma dinâmica de produção, circulação e consumo. Sobre isso – retomando

402 Ibid., p. 37, grifos do autor. 403

uma ideia que esboçamos no capítulo anterior –, Meneses404 aponta para a necessidade de circunscrever as imagens nos limites de uma “iconosfera”. A “iconosfera”, segundo diz o autor405, é o “conjunto de imagens-guia de um grupo social ou de uma sociedade num dado

momento e com o qual ela interage”. Segundo a ideia de Meneses, trata-se de identificar,

principalmente, as imagens “de referência, recorrentes, catalisadoras, identitárias” de uma comunidade social; são – exemplos nossos – as imagens que circulam com função pedagógica (a via crucis), ou função mercadológica (cartões postais), ou, ainda, função identitária (álbum de família, álbum de empresa).

No campo da pesquisa histórica com imagens fotográficas, a ideia da construção da série é sugerida por Ana Maria Mauad, autora pioneira na utilização desse tipo de documentação como evidência do passado no âmbito da historiografia nacional. Conforme Mauad406:

[...] a fotografia – para ser utilizada como fonte histórica, ultrapassando seu mero aspecto ilustrativo – deve compor uma série extensa e homogênea no sentido de dar conta das semelhanças e diferenças próprias ao conjunto de imagens que se escolheu analisar. Nesse sentido, o corpus fotográfico pode ser organizado em função de um tema, tais como a morte, a criança, o casamento etc., ou em função das diferentes agências de produção da imagem que competem nos processos de produção de sentido social, entre as quais a família, o Estado, a imprensa e a publicidade.

Diversos estudos podem ser citados como bons exemplos de trabalho com séries fotográficas. De forma geral, após a série ter sido construída ou definida, os autores partem para a quantificação do material empírico, visando identificar recorrências ou padrões visuais estéticos e temáticos nas imagens. Um estudo que nos parece bastante construtivo é o de Lorenzo Vilches, responsável por analisar imagens fotográficas produzidas por fotojornalistas e publicadas em páginas de periódicos espanhóis.

Em sua pesquisa, Vilches407 procede à análise de treze jornais publicados na Espanha durante o mês de março de 1983. O autor desenvolve um exaustivo levantamento quantitativo dos periódicos em questão, sistematizando as imagens em tabelas que mensuram o número de imagens publicadas nas páginas dos jornais e a superfície ocupada por estas nas folhas em relação ao texto escrito. Com os dados quantificados, o autor pôde lançar mão de um sem- número de conclusões acerca do fotojornalismo espanhol daquele período, demonstrando

404 MENESES, 2005.

405 Ibid., p. 35.

406 MAUAD, Ana Maria. Através da imagem: fotografia e história interfaces. Tempo, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2,

1996, p. 82.

407

como a imagem fotográfica passa, em alguns jornais (principalmente naqueles destinados às classes populares), a figurar como substituição ao texto escrito (que seria mais complexo de ser apreendido). Da mesma forma, foi possível ao autor caracterizar a geração de sentido que a imagem fotográfica produz ao relacioná-la com o conteúdo semântico (ou a deixis

fotoperiodística, como diz) de títulos e legendas das reportagens. Esse estudo de Vilches

influenciou outros bons trabalhos, como foi o caso de Carlos Alberto Sampaio Barbosa408, responsável pela análise de sete vultosos volumes de um livro-álbum, produzidos entre as décadas de 1900 a 1940, que retrata, com textos e fotos, a história da revolução mexicana.

Outra proposta de estudo que serve de exemplo à construção de uma série fotográfica provém da pesquisadora Miriam Moreira Leite, esta que também deve ser incluída entre os primeiros autores a utilizarem imagens fotográficas como fontes na pesquisa em história no Brasil. Leite409 propõe em seu estudo um olhar sobre a família na passagem do século XIX para o XX a partir da análise de retratos fotográficos de famílias imigrantes originárias de diversos países europeus – Itália, Alemanha, Portugal, Espanha, Rússia e Marrocos (judeus), Suécia, Líbano e Japão. A autora construiu a sua série utilizando-se de fotos constantes em álbuns fotográficos montados por membros dessas famílias, num período que compreende os anos de 1890 a 1930. A partir da interpretação e comparação do conjunto amplo de fotos, a autora verificou muitas semelhanças entre os retratos de família produzidos nesse período, entre as quais a presença constante de elementos que remetem ao progresso material conquistado no novo mundo. Dessa forma, a autora pôde concluir, entre outras coisas, que a fotografia tinha como função documentar a prosperidade alcançada no Brasil, sendo muito comum as famílias remeterem retratos para os membros que não emigraram.

Álbuns fotográficos sempre são exemplos de séries. Na realidade, um álbum fotográfico se apresenta como uma série já construída, e dificilmente se pode proceder a sua desmontagem. Melhor dizendo, a narrativa que o álbum constrói deve ser respeitada, pois fornece informações valiosas sobre o sentido que o seu produtor original quis dar às fotos, encadeando-as em uma sequência lógica (seja ela cronológica ou temática). Sobre isso, o estudo de grande fôlego empreendido por Solange Ferraz de Lima e Vânia Carneiro de Carvalho é exemplar.

408 BARBOSA, Carlos Alberto Sampaio. A fotografia a serviço de Clio: uma interpretação da história visual da

Revolução Mexicana (1900-1940). São Paulo: Editora Unesp, 2006.

409

Lima e Carvalho410 procederam à análise de dezenove álbuns fotográficos da cidade de São Paulo produzidos em dois períodos, entre os anos de 1887 a 1919 e 1951 a 1954. No total, as autoras trabalharam com um conjunto de 1.664 fotografias, responsáveis por documentar a evolução urbana da capital paulista. O trabalho se destaca principalmente pelos procedimentos metodológicos utilizados pelas pesquisadoras na quantificação da documentação fotográfica. As autoras procederam a um mapeamento exaustivo das características visuais dos álbuns através do tratamento individual de cada foto, analisando atributos formais e icônicos das mesmas. Em seguida, Lima e Carvalho fazem o cruzamento das informações, buscando identificar quais são os padrões visuais mais recorrentes nos álbuns. Principalmente, os resultados apontaram que a área central da cidade de São Paulo é a

que está mais presente nas cenas fotográficas, e o padrão “circulação urbana” é o que aparece

com maior frequência nas fotos. Esse padrão aglutina imagens que mostram vias pavimentadas, trilhos de trem ou de bonde e meios de transporte variados, elementos que são utilizados para o deslocamento urbano dos transeuntes. Com os dados quantificados, as autoras puderam constatar que o principal interesse dos álbuns fotográficos selecionados era mostrar a modernização urbana pela qual passava a capital São Paulo após várias obras de melhoramentos empreendidas pela administração municipal. Nesse sentido, segundo as autoras411, “as imagens serviram, com eficácia, aos mecanismos ideológicos de legitimação

das ações autorizadas pelo poder público na concretização dessas mudanças”.

Benzer Belgeler