Descritos os principais pressupostos teóricos da AJPE e do D&D, busca-se nesta seção identificar alguns pontos de contato entre as perspectivas que serão úteis no tratamento do tema objeto dessa dissertação. Com base no conjunto de ideias descritas, o jurista poderia ter dificuldade em visualizar os pontos de convergência entre as abordagens, de modo que cumpre desvelá-los.
É certo que a heterogeneidade das perspectivas abrangidas pela literatura do D&D prejudica a análise comparativa entre as ideias principais defendidas pelos diversos autores e a AJPE. Como visto, no D&D são vários autores com diversas matizes ideológicas que escreveram sobre a relação entre o direito e desenvolvimento num longo período histórico de quarenta anos, de modo que o contexto histórico influenciou nos trabalhos de seus contemporâneos. Já a perspectiva da AJPE se encontra mais homogeneizada, sendo sistematizada em um período bem mais recente. Nada obstante, há algumas convergências importantes.
As duas abordagens – a AJPE e o D&D -, embora com objetivos diferentes, buscam fornecer uma base teórica para dar sustentação a estudos empíricos, a primeira focada na efetividade da fruição dos direitos fundamentais e na promoção da justiça econômica e a segunda primordialmente centrada na promoção do desenvolvimento dos países em desenvolvimento. Como cediço, o direito é essencialmente uma ciência prática, e o seu estudo, permanecendo desvinculado da realidade socioeconômica, inexoravelmente não terá qualquer efetividade. E, pior, os estudos abstratos que se afastam da realidade social, se aplicados, podem acarretar distorções fáticas com consequências que podem aumentar a situação de desigualdade social e o sofrimento humano, notadamente nos países em desenvolvimento.
Assim, a AJPE e o D&D propõem uma crítica para além do formalismo jurídico que impera na dogmática do direito, mergulhando no contexto fático e social. A análise teórica, o
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refinamento conceitual e a construção de tipos ideais não são fins em si mesmos. Tratam-se de esforços que possibilitam ao observador ordenar e compreender dados empíricos e históricos241. Preenchendo o hiato entre teoria e prática, estudos empíricos assim orientados tornam as ideias e as construções jurídicas mais concretas e operacionais.
Por outro lado, a solução para resolver o paradoxo do etnocentrismo presente nos trabalhos em D&D pode ser a abordagem interdisciplinar proposta pela AJPE, com a apropriação, por exemplo, de métodos da antropologia econômica. Invariavelmente o analista se deixa levar por ideias preconcebidas de acordo com sua própria perspectiva que é plasmada por valores normativos que influenciam o pesquisador. De fato, todo conhecimento está associado a um sistema de referências, carregando uma bagagem ideológica preconcebida. A influência de critérios étnicos, sociais, culturais e interpretativos que incorporam sua experiência de vida como existência complexa deixam os pesquisadores cegos para fenômenos reais que desvirtuam suas construções, tornando-as conducentes a generalizações imprecisas. Assim, estudos científicos no campo do direito com enfoques oriundos de outras Ciências Sociais teriam a capacidade de se desviar dessa armadilha etnocêntrica na análise de qualquer realidade que esteja fora da sua comunidade principiológica.
Ambas as perspectivas (AJPE e D&D) traçam uma crítica contundente à cultura jurídica formalista, que considera um sistema jurídico como um conjunto de regras e princípios formais, permanecendo incapaz de interpretar e aplicar as normas jurídicas de acordo com o contexto social e os objetivos da política pública. Segundo Trubek, o formalismo jurídico apresenta debilidades como a) o cumprimento ineficaz da lei, pois as regras importadas eram ignoradas, em parte devido a deficiências administrativas e corrupção; b) a existência regras inapropriadas, porque copiadas de sistemas jurídicos dos países desenvolvidos desconsiderando contextos nacionais específicos e preocupações políticas reais; e c) a baixa legitimidade devido à impertinência com as necessidades do país242. Críticas semelhantes são feitas pela AJPE ao formalismo jurídico, em especial, no que tange às falhas inerentes da compreensão da realidade e dos fenômenos sociais, que traduzem em respostas impregnadas de subjetivismos do intérprete.
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TRUBEK, David, 2009, pp. 108-109. Em sentido semelhante, merece transcrição o argumento de Castro: “Essa abertura da AJPE para a interdisciplinaridade procura ampliar os canais de abordagem dos fatos sociais de maneira a reforçar e organizar a capacidade do jurista de proceder à apreciação crítica da realidade empírica” (Op. cit., 2009, p. 23).
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No plano da análise institucional, a classificação dada pela AJPE de agregados contratuais públicos e privados se aproxima bastante da concepção de contrato nas tipologias econômicas, conforme descrito por Trubek243. Com efeito, este último autor faz a distinção da estrutura jurídica do contrato na economia de mercado e na de comando. Enquanto que na primeira, as estipulações contratuais são estabelecidas livremente, cabendo ao Estado-juiz intervir apenas se houver descumprimento e se chamado a tanto pela parte que se achar prejudicada, na segunda, o contrato é visto como um instrumento da política pública e as partes não podem recusar a intervenção do Estado, pois devem se adequar às condições gerais do plano que estabelece a mudança nas condições econômicas. Embora reconheça o autor que não existem economias puramente de mercado e de comando, tais pressupostos possuem grande semelhança com a AJPE, que estabelece a separação analítica entre conteúdos de interesse privado e conteúdos de interesse público nos contratos ou agregados contratuais.
Todavia, ao menos para alguns autores do D&D, o modelo se distancia da AJPE no que tange à identificação da importância do papel do direito na construção da sociedade. Enquanto que parte dos autores em D&D, especialmente aqueles que propugnam a teoria da dependência, reconhecem a natureza apenas derivativa e secundária do direito no desenvolvimento econômico e no fornecimento de soluções aos problemas, a AJPE busca resgatar o direito como instância privilegiada e fundamental na compreensão e superação dos desafios postos às instituições econômicas que adquirem configuração jurídica. Ademais, a crítica recorrente dos adeptos do D&D, de que o jurista é apenas um técnico que executa as decisões tomadas por outros244 somente se justifica com uma visão estreitamente positivista e formal do direito.
O jurista, por si só, não pode resolver todos os problemas da sociedade, assim como os demais cientistas sociais também são impotentes para resolvê-las isoladamente. E, de fato, há metodologias jurídicas formais baseadas na análise fria da Constituição e da lei que não conseguem visualizar o imenso potencial do direito no tratamento da realidade social. Entretanto, não compartilham dessa visão metodologias que objetivam incorporar outros elementos e estabelecer outras abordagens à ciência jurídica, que integram perspectivas multidisciplinares. Por igual, a AJPE não se coaduna com essa concepção estreita (formalista) que ignora a íntima conexão do direito com a política, e que muitas vezes é acionado o sistema jurídico para resolver
243 Op. cit., 2009, pp. 96-99. 244
problemas que a política não conseguiu resolver por si só. A intensa judicialização da política que tem sido objeto das críticas mais diversificadas245 é apenas um retrato desse panorama, sendo muitas vezes o Poder Judiciário chamado a resolver problemas de política pública (econômica, social, etc).
Tamanaha, apesar de minimizar o direito, tratando-o como secundário na promoção do desenvolvimento, ressalta que a criação de instituições jurídicas que limitem as ações governamentais e estabeleça um corpo independente de julgadores é fundamental nessa seara246. Porém, olvida-se o autor que é o mesmo direito que proporciona a criação e a estabilização das instituições jurídicas que ele ressalta como importantes para o fim almejado. Assim, o seu argumento expressa um evidente paradoxo, pois minimiza o potencial daquilo que cria o que o autor efetivamente considera importante.
Além disso, apesar de renegar o direito, parte dos estudos em D&D está intensamente envolvida com a concretização dos direitos humanos nos países em desenvolvimento. A AJPE, por igual, pretende conciliar a funcionalidade da política econômica com a busca da justiça econômica na proteção dos direitos fundamentais. Assim, os modelos são convergentes nesse aspecto. A diferença é que, enquanto a AJPE foca num objetivo específico (fruição dos direitos fundamentais e promoção da justiça econômica), o D&D se concentra numa pesquisa instrumental destinada a definir as transformações jurídicas necessárias relacionadas ao desenvolvimento.
Ambas as perspectivas, contudo, possuem um escopo comum, pois tencionam propiciar ao estudo a recomendação de reformas jurídico-institucionais que seriam eficazes no atingimento de suas finalidades respectivas de transformação da sociedade. O ponto comum, portanto, é creditar ao direito o papel de promover as mudanças institucionais destinadas a produzir efeitos práticos concretos.
São poucos os estudiosos que se dedicaram a aplicar a AJPE e ainda não há estudos empíricos que aplicam os procedimentos analíticos recomendados. É preciso estimular um programa de pesquisas consistente em questões relevantes à luz dos pressupostos básicos da teoria. Assim, é necessário que se promovam estudos no campo da AJPE, como o de que é exemplo o presente trabalho.
245 Sobre o tema, ver CASTRO, Marcus Faro de. O Supremo Tribunal Federal e a judicialização da política. In:
Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo, v. 12, n. 34, 1997.
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Nada obstante, tais perspectivas devem se empenhar em descobrir construções jurídicas que sejam livres de apegos etnocêntricos e adaptadas às circunstâncias sociais locais, coexistindo com as diversas culturas jurídicas. O direito terá pouco a dizer sobre o desenvolvimento e a eficácia dos direitos fundamentais se ficar preso à análise meramente formal das normas. Daí a necessidade de se incorporar reflexões a respeito do ordenamento jurídico sob a ótica de estudos empíricos multidisciplinares que tragam ao debate o melhor desenho institucional apto à consecução dos objetivos almejados. O resultado disso, fazendo interagir as perspectivas, poderá ser a realização de mudanças efetivas bem-sucedidas no campo do direito que mantenham viva a esperança de um futuro melhor para as próximas gerações.
Ou seja, o direito pode fornecer respostas concretas e objetivas aos problemas econômicos como ciência de vanguarda, e não ficar a reboque das demais ciências sociais. O presente trabalho visa a contribuir para isso, problematizando e fornecendo respostas concretas, e não apenas expressar frustrações que resultariam de uma eventual percepção da impotência do trabalho do jurista frente a situações complexas e multifacetadas do mundo contemporâneo.