II. BÖLÜM
3.1. Su Kaynaklarının Yönetimine İlişkin Yaklaşımlar
3.1.11. Su Yönetimine İlişkin Yapılan Öneriler
O Diabo é surpreendido pela ação do personagem que, embora entre a fé e a fome, pois “a fome é muito mais forte que a fé nestas paragens”, subitamente eleva o pensamento e se aproxima de Deus – “Uma força de dentro ou de fora de repente relaxou todos os meus músculos e desfez num átimo o mais simples gesto. Aí meu pensamento foi rasgado pelo meio” –, resistindo à tentação que vinha do lago (a solução para a fome daquele dia): “Parei como a ave que morre voando bem alto. Olhei para o céu e gritei para o fundo, bem para o fundo do lago: – Vai-te, vai-te pro Inferno peixe do Diabo” (“O peixe”. p. 93).
Diferente do que ocorreu no encontro entre Eva e Satã – no poema de Milton –, em “O peixe”, o Diabo, que já se sentia quase senhor daquela alma, é desmascarado e expulso do lago pelo ser que imaginava tão insignificante. De onde o personagem retirou força para
enfrentar e resistir àquela situação, em que a fé venceu a fome? De certa maneira, durante “o tempo da narrativa”, o narrador vinha recuperando os fios da sua memória e, com eles, tecendo uma rede, malha de proteção na qual, aos poucos, ele mesmo vai se deixando enredar. Outrora, a tarrafa era sua defesa. A tarrafa, a canoa, a água e o céu – em círculo perfeito da lembrança, antes do peixe do Diabo surgir:
Quanta pescaria já não tinha feito ali. Ainda me lembrava da primeira vez que meu pai consentiu que eu sozinho jogasse a tarrafa. – Olha rapaz cuidado com o peso da bicha, não vai cair com ela embolado dentro d’água, j’ouviu? – Mas naquele tempo eu não me preocupava de ser arrastado até que fosse pro fundo do maior perau ... Já tinha mordido a chumbada nos dentes, arrumado as dobras das malhas no braço direito, e dava o balanço do corpo pra descrever um grande e perfeito círculo na água prateada. Todo o lago era meu naquela madrugada – o cardume de peixe fervilhando na proa, o vento dobrando a canarana de leve, e o clarão boiando de dentro d’água naquela manhã. Pois ainda era noite nas matas ao longe e já era manhã nas águas que luziam e tremeluziam sacudidas pelo vento. O pai e eu. A tarrafa, o cardume, a canoa, a água e o céu. O que importava era que a tarrafa caísse em cima do cardume em círculo perfeito. Depois, depois tudo podia acontecer, porque eu só concentrava toda a força, todo vigor, toda alegria, todo amor da minha maior dor naquele simples gesto. Mas agora eu estava só. Completamente só. Não tinha o pai no leme da canoa (“O peixe”. p. 89- 90).
A lembrança do pai, com seus conselhos nas pescarias – “- Olha rapaz cuidado com o peso da bicha, não vai cair com ela embolado dentro d’água, j’ouviu?” –, mergulhara o personagem num profundo solilóquio. A saudade daquele gesto é o sentimento que o leva a repetir tantas vezes, durante toda a narrativa, a falta que lhe faz a tarrafa: “levava tudo para pescar. [...] Só não levava a tarrafa porque era inverno e ela estava toda esburacada da safra do verão”. Agora, só com sua lembrança, “naquela imensidão, naquela hora, com aquele sol, com aquele vento”, sem a tarrafa, não tinha como repetir o rito no gesto aprendido com o pai. Não tinha como concentrar toda força, todo vigor, toda alegria, todo amor de suas memórias naquele simples gesto: arrumar as dobras das malhas no braço direito; balançar o corpo para descrever um grande e perfeito círculo, jogar a tarrafa e vê-la cair em cima daquele peixe. O círculo perfeito só pode se realizar na lembrança dos gestos, movimentos, sentimentos, impressões da natureza, e se completa na consagração dos saberes da tradição, em uma espécie de tratado de pesca que o narrador vem construindo, desde o início do conto, paralelamente à ação.
Sem poder executar aquele gesto habitual e perfeito de lançar a tarrafa, o pescador precisa do arpão. Faz mira no meio do peixe, entre a cabeça e o fio do espinhaço: “Ia arpoar: tiro-e-queda no bico de aço”. A falta da tarrafa, a ausência do pai, a forma do arpão, talvez, o
fazem refletir, e “uma força que veio de dentro ou de fora [...] desfez num átimo o mais simples gesto”. O arpão rasga seu pensamento, associa-se ao tridente do demônio. E ele pára no momento em que ia solucionar a fome dos seus filhos: “parei como a ave que morre bem alto (“O peixe”. p. 92-93).
Quanto a Eva, criada no paraíso de Milton, de onde tiraria forças para vencer a tentação? Não tinha maturidade para reconhecer os ardis do tentador. Não tinha um passado. Não sabia o que era ter fome, nem tampouco sabia o que era ter filhos chorando com fome. Quem, no paraíso, poderia ensinar à Eva, a força do “nos mostrai” da Salve Rainha? Eva não conhecia as necessidades dos homens. E nem podia, nasceu adulta. Mal conhecia o próprio pai. Não tinha passado. Tudo era presente. Presente e futuro. Eva não resistiu à tentação por falta de um passado de experiências. Tinha “fome” de conhecimento que acreditava morar na árvore proibida. A falta do conhecimento e o desejo de alcançá-lo, mudou o destino de Eva e agiu de modo decisivo sobre o futuro da humanidade.
Em situação paralela, o personagem de Benedicto Monteiro, ao contrário de Eva, resiste à fome real (que, no início do conto, o levou a enredar-se no desafio do lago), e se nutre de fé (irrupção do maravilhoso cristão no espaço do conto), sua fé, apreendida e aprendida em vivências e experiências. E, exatamente, por que sustentado pelo poder da fé, eleva o “olhar” para o alto e consegue expulsar o Diabo daquele ambiente. Ao vencer a tentação, o pescador se agiganta no contexto de sua própria história. E o conto, centrado na atmosfera mítica e sobrenatural que envolve o espaço – até então, o centro da narrativa –, amplia o grito do personagem que se espalha e chega aos ouvidos do leitor como um brado de liberdade. Nesse instante, o narrador/personagem é deslocado para o centro da narrativa. O espaço – o lago –, agora, testemunha a vitória da fé sobre a fome, quando o pescador desiste do almoço daquele dia – um dia difícil na vida de um pescador ribeirinho, pai de cinco filhos, durante o inverno amazônico –, a ação do narrador/personagem vai representar a salvação, a reabilitação da história da humanidade: a vitória da humanidade contra Satanás. Nesse sentido, os valores espirituais se sobrepõem às necessidades terrenas. O homem “esconjura” o Diabo, fazendo três vezes o gesto mais simbólico do indivíduo que tem fé, quando em situação de perigo – o sinal da cruz. O desfecho da narrativa quer provar, talvez, que não importa se o homem erra e se age confusamente, se percorre o caminho de Satanás e não o de Deus, uma vez que “na profundidade da alma, ele conhece inconscientemente o próprio caminho e no final de sua longa caminhada alcançará a meta que há tanto tempo Deus lhe preparou” (CITATI, 1996, p. 206).
Dessa forma, o estudo realizado em depoimentos e imagens literárias, neste capítulo, registra a importância do verão e inverno amazônicos e do rio, na vida ribeirinha, cujo imaginário simbólico atribui ao espaço uma correspondência mágico-mítico-espiritual, sob o ponto de vista de um autor/personagem/narrador. Benedicto Monteiro ao descrever a fome e a luta contra a tentação de um simples pescador, morador de uma região perdida na beira de um igarapé que se transforma em um lago descomunal no período das chuvas amazônicas, tangencia questões universais. Essa amplitude da sua escrita se deve às suas experiências e memórias, à maneira pela qual lê sua própria região: reconhecendo, como já foi dito, reações e sentimentos humanos pelo próprio olhar. O olhar da mulher – “só deu uma espiada pela ilharga do japá e viu logo que eu não tinha trazido nada [da caça] –, que o marido interpreta – “eu pude logo maginar que o tamanho da fome tinha crescido em casa por demais” (“O peixe”. p. 87). A fome dos filhos, que ele não pode apaziguar, remete à fome de uma parcela da humanidade. Desperta o leitor para um problema social e traz o ribeirinho à cruel realidade – e nos traz para o início do conto, como a um problema sem solução, cíclico, no gesto do pescador, que, depois de arrumar os materiais da pesca espinhel, caniço, arpão e zagaia (só não levava a tarrafa, porque ela estava toda esburacada do verão passado), tirava água da
canoa quando ouviu os gritos das crianças (os cinco filhos). Pôs as mãos em concha na boca e
gritou:
“ - Mulher, não bate nos pirralhos.
5 COBRA NORATO: LITERATURA E IMAGINÁRIO
Santo Antônio me salvava. Santo Antônio, que reinava com os pés em cima da cabeça da Cobra-Grande, me valia em hora amarga. Mas era em altar- mor, em alto-mar, em baixo da pedra negra da sacristia, que a boiúna sossegava. Se Santo Antônio se descuidasse e a boiúna ao menos se mexesse era possível que o mundo acabasse. Uma simples mexida da cobra grande era capaz de rachar toda terra. No lugar da igreja era capaz de virar um lago.
(Benedito Monteiro)