7. BULGULAR
7.3. Ek Bulgular
7.3.5. Yönetici Narsisizm Üstünlük ve Çalışan Narsisizm Ortalamalarının
O pecado original da literatura infantil: ter nascido comprometida com a educação, em detrimento da arte.
(Vera Teixeira de Aguiar, 2001)
O percurso histórico da literatura infantil não tem seu início definido com precisão. Não é exatamente marcado no tempo, mas é sabido que aquela que nos influenciou encontra seus primeiros registros na França, no século XVII, e que é consolidada como gênero somente no século XVIII. Eventos sociais como a ascensão da burguesia e a institucionalização da escola, somados à distinção e maior valorização da condição da criança propiciaram maiores investimentos nesse gênero, fortalecido pelo vínculo com a prática pedagógica.
De acordo com Ariès (1981), “a escola substituiu a aprendizagem como meio de educação. Isso quer dizer que a criança deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente, através do contato com eles”, saindo assim do anonimato e ganhando maior importância na família e na instância social.
A escola, com caráter facultativo até o século XVIII, passa a ser compulsória, pois deveria preparar a criança para se tornar o cidadão esperado pela sociedade burguesa, consolidando a ideologia e os anseios políticos desses tempos. Tal norma foi expandida, inclusive, até as camadas mais desfavorecidas da sociedade, incluindo a obrigatoriedade para todos (LAJOLO e ZILBERMAN,1984). Desde essa época, a literatura infantil se estabelece com ênfase no âmbito escolar, e o livro considerado infantil se confunde com as “cartilhas didáticas”, incluindo histórias com temáticas moralizantes, além de outros temas, como o da valorização dos acontecimentos pátrios e da natureza. Esse “discurso utilitário”, segundo Edmir Perroti (1986, p.117), caracteriza-se por “oferecer a crianças e jovens atitudes morais e padrões de conduta a serem seguidos, ordenando os elementos narrativos em função de tal finalidade exterior”.
Apesar de o livro de literatura infantil ter a sua história comprometida mais com a pedagogia do que com a arte literária, ainda no século XVIII, é possível perceber que, gradativamente, esse suporte de texto começa a ser mais valorizado, ainda que mantida, na maioria das publicações, a característica dominante dos conteúdos moralizantes. O livro, como bem cultural, é incentivado, nessa época, como o brinquedo, dado o novo papel da criança na sociedade burguesa (LAJOLO e ZILBERMAN,1984), o que faz com que esse investimento seja procedente, uma vez que as histórias infantis anteriormente eram comumente “ouvidas”: o adulto lia para a criança, numa época em que era comum o hábito da contação de histórias,
Tão remoto quanto a origem da humanidade, o hábito de ouvir e contar histórias não é apenas hábito que os homens foram desenvolvendo ao longo de sua existência. A mulher sempre teve um papel de destaque nas narrativas infantis, seja como personagem, como fada ou como bruxa, ou simplesmente, como mãe, avó, madrasta, tia ou ama, que embalava as narrativas populares transmitidas de gerações em gerações para as crianças, enquanto fiavam e teciam as lãs.” (LIMA, 2012, p 36)
Dava-se certo realce para o gênero contos de fadas, que exercia a função de entretenimento e de ensinamento, tanto para crianças como para adultos. Esse cenário e a importância desses eventos são bem descritos por um memorialista, de acordo com Ariés, na obra A História Social da Criança e da Família:
Em algumas cidades da província, a pequena burguesia algumas vezes ainda conservava esse passatempo. Um memorialista conta-nos que em Troyes, no fim do século XVIII, os homens se reuniam durante o inverno nos cabarés e durante o verão “nos jardins, onde, após tirar a peruca, colocavam seus gorros” [...]. O memorialista lembra-se de um desses contadores de histórias, um velho açougueiro. ” Dois dias que passei com ele (quando era criança) correram entre histórias e contos cujo encanto, cujo efeito e cuja ingenuidade mal poderiam ser - não digo expressos- mas sentidos pela raça atual” (a geração atual) (1991:122).
A obra intitulada A leitura de Contos em família (1862), uma gravura 3 do ilustrador francês
Gustave Doré (1832-1883), retrata bem um ambiente de narração das histórias, lidas e contadas por um adulto para um grupo de crianças.
Figura 4 – Aleitura das histórias em família (1862) - Gustave Doré
Essa ilustração evidencia uma representação da leitura do período considerado o marco de fundação de uma literatura infantil. Observa-se que, geralmente, era uma pessoa mais velha que assumia a função de ler e contar as histórias, representadas pelas avós, amas secas ou algum outro adulto. Nessa obra, especificamente, verifica-se que a leitora de histórias assume uma atitude de acolhimento que a aproxima das crianças ouvintes, já que
3 A gravura é um procedimento artístico e artesanal de impressão de cópias a partir de uma matriz. A
tiragem de cópias é ilimitada, mas a qualidade da gravação permite maior ou menor número de cópias desejadas. A matriz pode ser de vários materiais como madeira (xilogravura), pedra (litografia), tela (serigrafia ), metal e outros. Existem diversas técnicas de gravação, que variam de acordo com a natureza
sua condição de estar sentada em uma cadeira a deixa numa posição favorável para que todos se coloquem em volta dela. A outra figura feminina adulta, que se mantém de pé, ocupa uma posição privilegiada na composição visual, apesar de não se situar em primeiro plano. Ocupando exatamente o centro desse conjunto de pessoas e brinquedos, encontra- se o livro, aberto e bem acomodado no colo da leitora bem visível, sem nenhuma interferência de alguma imagem que possa encobri-lo, apesar de tantos elementos participarem da composição, incluindo as sete crianças ouvintes da cena, quase todas ao seu redor. Essa centralidade certamente o torna protagonista nesse cenário. É possível, inclusive, verificar que, em uma das páginas abertas, há uma ilustração em meio ao texto.
A figura feminina que está de pé parece mais acolher algumas das crianças ali representadas do que estar na condição de ouvinte também. Nem mesmo podemos ver sua face completamente, pois ela não assume exatamente uma posição de ouvinte da história narrada, mas parece mais cumprir o papel de criar condições favoráveis para a leitura de história representada na composição. O ambiente por si só parece acolhedor, propício para esse tipo de evento. Apesar disso e da quantidade de ouvintes, percebe-se que apenas duas das sete crianças, dispostas em posições opostas, dirigem o olhar para o livro. Provavelmente todos reconhecem de onde vem a história: do livro, mas não dirigem o olhar diretamente para ele, talvez por compreenderem que a história já saiu dele, por meio da voz da senhora. Não se pode generalizar, mas entre os século XVI a XIX, quando os livros infantis apresentavam ilustrações, muitas das vezes elas ocupavam espaço reduzido na página, além de serem ainda em preto e branco, devido aos poucos recursos de reprodução naquela época. Nesse evento, porém, a diagramação de uma das páginas abertas do livro sugere a presença uma ilustração. Seria ela pouco interessante a ponto de não chamar a atenção desse público infantil?
Pode-se supor, ainda, que as crianças da gravura sejam de várias idades. A criança que está no colo da senhora que conta a história, numa posição privilegiada, mais favorável para “ler” as páginas, não realiza esse ato e se acomoda no peito da senhora de forma aconchegante, muito atenta à história. Provavelmente, se deixa levar pela voz da leitora, e não pelo livro. A criança que se debruça no encosto da cadeira da senhora, ficando
mesmo na ponta dos pés, apesar de se manter concentrada e envolvida na leitura da história pela senhora, parece, pela sua posição, não ter acesso ao livro pelo olhar.
Prosseguindo na análise dessa imagem, temos que algumas das crianças estão acompanhadas dos seus brinquedos talvez favoritos; uma ovelhinha de pelúcia numa base de carrinho, próxima a uma casinha de brinquedo e um arlequim, que mantém parte do corpo nos braços da criança. Esses brinquedos aparecem em primeiro plano, possivelmente com a intenção de aliar o momento com algo próximo à ludicidade, bem característica do universo infantil. Ouvir histórias poderia fazer parte das brincadeiras infantis, talvez. O interesse das crianças na história narrada pode ser percebido pela feição de espanto de algumas delas.
Assim, as crianças representadas nessa obra podem não se apoiar no livro, mas captam a narrativa e, provavelmente, imaginam as cenas narradas ouvindo atentamente as palavras da velha senhora. Uma criança que se posiciona bem próxima ao livro, no lado direito da composição, e que parece bem acolhida pela mulher que está de pé, chama a atenção por sua expressão facial. O seu olhar revela um grande envolvimento com a história narrada, dirigido à leitora, parecendo estar bastante atenta aos acontecimentos narrados por ela.
Em se tratando de atenção do público ouvinte, o mais curioso é que, nesta representação de uma leitura de história, percebe-se que o olhar da senhora não se dirige nem para o livro, o que sugeriria uma leitura, nem para as crianças ouvintes. Seu olhar salta-lhe um pouco acima dos óculos, posicionando-se numa direção externa à cena retratada, ou seja, possivelmente para o expectador que assiste a essa cena. Nesse gesto simples talvez de dramatizar, teatralizar o evento, essa senhora, de certa forma, convida, com o olhar, mais um ouvinte para participar desta leitura de história.
É fato que as histórias ouvidas são o primeiro livro dos pré-leitores e que o ato de contar e ler histórias guarda seu valor, até mesmo nos dias de hoje. A análise da gravura de Doré mostra como a leitura literária liga-se a modos de ler próprios de cada época e institui diferentes relações com o objeto livro, conforme as práticas sociais e históricas de leitura. Muitos anos depois, Cecília Meireles, pioneira no ensino de literatura infantil no Brasil,
confirmaria a importância da leitura de histórias para a formação da criança, quando afirma que
Não há quem não possua, entre as aquisições da infância, a riqueza das tradições, recebidas por via oral. [...] O gosto de ouvir é como o gosto de ler. [...] Por isso, quando ainda não havia bibliotecas infantis, não era tão grande e sensível sua falta; o convívio humano as substituía. Tempos em que a família, aconchegada, criava um ambiente favorável á formação da criança. (MEIRELES, 1979, p.42)
A importância de eventos dessa natureza no ambiente familiar para a formação literária das crianças, antes mesmo de serem leitoras do código escrito, oferece a possibilidade de se encantarem e também aprenderem com as histórias que ouvem. Essa magia de ouvir histórias permanece na memória das crianças como mostra Cecília Meireles:
[...] é a Literatura Tradicional (literatura oral) a primeira a instalar-se na memória da criança. Ela representa o seu primeiro livro, antes mesmo da alfabetização, e o único, nos grupos sociais carecidos de letras. Por esse caminho, recebe a infância a visão do mundo sentido, antes de explicado; do mundo ainda em estágio mágico. [...] Vagarosamente elaborada, pela contribuição de todos, essa literatura possui todas as qualidades necessárias à formação humana. Por isso, não admira que tenham tentado fixá-la por escrito, e que, sem narradores que a apliquem no momento oportuno, para maior proveito do exemplo, a criança se incline com ávida curiosidade para o livro, onde esses ensinamentos perduram (idem: 66).
A literatura infantil, na sua origem, tanto apresentava características utilitárias, embutindo os ensinamentos almejados pelos adultos, como também favorecia uma condição lúdica, o que reforça a permanência das ideias e ideais transmitidos pela oralidade, como se pode depreender pela cena mostrada na gravura anterior. Ariès (1991,p.121) lembra que “tudo o que os homens precisam é de contos de fadas”, constatando que lendas, mitos, jogos, poesia e tantas histórias transmitidas oralmente participaram e participam da formação de muitas crianças, ocupando o lugar do livro propriamente dito. Esse autor admite, ao mesmo tempo, que talvez possamos estranhar “o fato de que esses contos, embora inverossímeis, nos tenham sido transmitidos através dos séculos, sem que ninguém tenha tido o trabalho de escrevê-los” (idem,p.121).
Depois de escritos, contos e tantas outras histórias continuam a ser contados e também lidos para ouvintes diversos, a exemplo do que vimos na obra de Gustave Doré, gravura tomada aqui como exemplo de representação clássica de um evento de leitura de histórias. Gradativamente muda-se esse cenário, a partir do momento em que o livro de histórias e outros passam a marcar presença no ambiente escolar, não se restringindo a estantes muitas vezes ainda inacessíveis a tantas crianças no ambiente familiar.