O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), na década de 80, realizou os dois primeiros Arquimemória, grandes seminários voltados para se definir um posicionamento quanto à preservação do patrimônio cultural edificado, que preocupava os especialistas da área, frente à expansão descontrolada das cidades brasileiras. O primeiro Arquimemória
aconteceu em São Paulo, em 1981, e o segundo, em Belo Horizonte, em 1987 (AZEVEDO, JUNIOR, 2011. Prefácio. In: GOMES, CORRÊA, 2011, p.10). Os Encontros antecederam a promulgação de nossa atual Constituição Federal, e é possível que seus debates tenham contribuído para o arcabouço teórico da Constituinte de 1988, repleta de inovações no que tange ao patrimônio cultural.
Nos anos que se seguiram aos dois primeiros Arquimemória, inclusive devido ao entrave no diálogo gerado pela desestruturação ou dissolução de fundações e entidades culturais – a exemplo do SPHAN/Pró-Memória – por parte dos governos que se estabeleceram nas duas décadas após a promulgação da CF/88, o debate foi adiado. Somente vinte e um anos depois teria lugar o terceiro Arquimemória. Nesse ínterim, todavia, o conhecimento sobre a temática da preservação cultural foi aprofundado e reinventado, tanto no âmbito acadêmico quanto pela sociedade civil organizada, e novos atores e métodos de gestão se apresentaram.
Em 2008, finalmente, o IAB, promoveu novo Encontro. O Arquimemória III se realizou em Salvador, e reuniu aproximadamente seiscentos profissionais que se relacionam diretamente com a questão do patrimônio cultural. Arquitetos, urbanistas e restauradores, gestores públicos e acadêmicos estudiosos da área se reuniram com o intuito de debater o patrimônio cultural numa lógica de “desenvolvimento integrado”, e não apenas visando à preservação do patrimônio, mas também sua criação, de modo que tenhamos o que preservar no futuro (AZEVEDO, JUNIOR, 2011. Prefácio. In: GOMES, CORRÊA, 2011, p. 10-11).
Tem-se, de fato, voltado maior atenção ao nosso patrimônio cultural edificado, e, passado intervalo bem menor, já no ano de 2013, promoveu-se o Arquimemória VI, este focado na discussão acerca da dimensão urbana do patrimônio. O presente trabalho se debruça, porém, sobre as questões levantadas no Arquimemória III, por serem elas relativas às reconceituações contemporâneas do patrimônio, temática abordada ao longo do tópico anterior a partir de publicações apresentadas no Encontro e posteriormente selecionadas e compiladas para servirem como fonte de um estudo mais atualizado sobre o assunto. Os debates suscitados nos Arquimemória, dada as suas dimensões e o seu contexto, servem, assim, de espelho para se compreender os rumos que estão sendo trilhados no Brasil quanto às perspectivas do patrimônio cultural.
Ao final do Arquimemória III, algumas diretrizes para a tratativa do patrimônio cultural, elaboras a partir das discussões ali travadas, foram apresentadas às autoridades
federais, estaduais e municipais. Tais diretrizes condensam muito do pensamento contemporâneo brasileiro no que tange à preservação dos bens culturais. São norteadores concretos que se relacionam com os conceitos já apresentados nos dois primeiros tópicos deste capítulo e que exprimem, portanto, a busca por uma preservação patrimonial culturalmente sustentável e plural, razão pela qual é relevante que sejam aqui expostos. Os pontos destacados pelos participantes do Arquimemória III foram os seguintes (AZEVEDO, JUNIOR, 2011. Prefácio. In: GOMES, CORRÊA, 2011, p. 11-12):
1. O conceito atual de patrimônio cultural, que inclui tanto as manifestações materiais quanto imateriais, antigos e novas, de forma integrada, não pode excluir qualquer período, incluindo o contemporâneo;
2. a diversidade, mais que a unidade, é um dos valores do patrimônio cultural, e como tal deve ser preservada;
3. a questão do patrimônio deve ser tratada dentro de sua dimensão urbana e/ou territorial e usando os instrumentos do planejamento;
4. a requalificação do patrimônio edificado é indissociável da recuperação da qualidade de vida de seus ocupantes;
5. é urgente a regulamentação dos novos instrumentos de preservação previstos na Constituição de 1988 e a complementação da legislação vigente, especialmente no que se refere aos conjuntos urbanos;
6. as políticas do setor devem integrar os três níveis de poder, a sociedade civil organizada e o setor privado;
7. as decisões relativas a grandes intervenções em monumentos ou sítios urbanos devem ser compartidas com a comunidade;
8. na restauração do patrimônio edificado devem, sempre que possível, ser utilizadas as tecnologias construtivas tradicionais; e
9. os diálogos como este, entre autoridades e a sociedade civil, em especial com os arquitetos, urbanistas e gestores urbanos, devem ser realizados rotineiramente.
É fácil traçar paralelos entre as diretrizes apontadas e as tendências contemporâneas para a preservação do patrimônio cultural já discorridas nesta pesquisa. A noção de que tanto as manifestações culturais antigas como as recentes, materiais ou imateriais, compõem, de modo integrado, o conceito de patrimônio cultural, e que nenhum período, incluso o contemporâneo, pode ser ignorado nessa construção, está intrinsecamente relacionada à ideia de significância dos bens culturais e de que esta é constantemente produzida e reproduzida, ou seja, é de fato cultural. Essa perspectiva pode servir de base para a compreensão de determinadas intervenções como reproduções contemporâneas do patrimônio cultural, também dotadas de significância. Os pontos apresentados ressaltam ainda a importância da participação de todos os setores sociais nas tomadas de decisões acerca do patrimônio, democratização já abordada como uma das possíveis chaves para uma preservação patrimonial sustentável. Além disso, o destaque para a necessidade de as
requalificações do patrimônio cultural serem indissociáveis da qualidade de vida de seus ocupantes abre portas tanto para possibilidade de intervenções que vislumbrem os usos pela comunidade no presente, proporcionando-lhe melhor qualidade de vida, quanto os coloca em posição prioritária ao se tratar do patrimônio, posição esta reforçada adiante, quando não se admitem intervenções no patrimônio cultural, por parte do Poder Público, sem a partilha com a comunidade.
3.4. Intervenções artísticas no patrimônio cultural e as tendências contemporâneas da