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Os sonhos de um mundo melhor como um todo buscam a exterioridade de sua interioridade.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 93)

Entre os gregos, a tragédia era o nome para a coexistência entre o destino, a necessidade e a natureza dos deuses. Segundo Williams (1974), não se referia à morte ou acidente, mas ao entendimento entre as contradições e a dignidade humana. Envolvia a mudança da sorte, mas da sorte do herói e, sim, demarcava os limites da ação e reação da experiência dos homens. No Renascimento, irá significar a queda do homem poderoso, mas no decorrer da história a tragédia encontraria o seu sentido na discussão da dignidade humana. Dignidade que revela a visão profunda do mundo, pela transitoriedade e inconsistência do homem, que Nietzsche (2014) comparava às ―folhas‖. Contém as dimensões trágicas do mundo, com a nostalgia dos seus titãs, heróis, ingenuidades, ilusões e o "embevecimento do estado dionisíaco" que aniquila fronteiras e impossibilidades (NIETZSCHE, 2014, p. 24). Dioniso, na sua tragédia, aparece como pluralidade de máscaras, inclusive com a máscara de Prometeu, e se assemelha ao indivíduo que erra, sofre, se esforça.

Em Nietzsche (2014) o homem trágico é o oposto da racionalidade socrática, encontra a sua continuidade em Goethe, Schopenhauer e Wagner com a ideia de renascimento do homem trágico grego, tendo como chave mágica a linguagem universal da música – Bach, Beethoven e Wagner – e o espírito da cultura alemã. Em Bloch (2005), o homem trágico é aquele que não se adapta à racionalidade capitalista ou aquele que sonha em se adaptar ao capitalismo, mas que se choca com a estrutura da produção e da mais-valia. O homem trágico seria, por analogia, o homem prometeico.

A base da ambiguidade é o conflito do homem com seus instintos. Embora ambicione destruir Dioniso, o homem não deveria render-se à aceitação incondicional da vida e, sim, valorizar o conflito que a ela é inerente em virtude do inconsciente e das pulsões. Se houvesse um retorno ao pensamento grego antigo, o homem descobriria que o inconsciente e as pulsões, na desmesura e impetuosidade, estavam integradas às forças vitais, não sendo excludentes (NIETZSCHE, 1992, p. 38).

Concentrar-se exclusivamente na beleza apolínea, seria como se o homem esquecesse Prometeu e a sua tragédia. Como se abdicasse da rebeldia. Nietzsche inaugurou uma nova fase de conhecimento do inconsciente e das pulsões. Com Freud e a psicanálise, o conceito de inconsciente ganhou fundamentação científica, não com base na razão e no consciente, mas a partir do inconsciente e das pulsões. Se tornaram o lugar de onde as forças obscuras governariam o homem, são recalcadas e alienam a consciência. Com Bloch (2005), o inconsciente cedeu lugar ao ainda-não-consciente, do que jamais foi visto.

A exemplo do que aconteceu com o Prometeu de Goethe (2012b), o inconsciente e as pulsões deixaram de ser um mal para serem a expressão das ambiguidades humanas. E fonte de aliança da filosofia com a ciência. As tentativas de seguir as pegadas do inconsciente compõem um panorama multifacetado, mas que se encontrariam na essência do pensamento latente (gewisse Gedanken). Freud analisaria o inconsciente em duas dimensões: aquele que forma um conjunto de pulsões e que são recalcadas para não ascender à consciência e aquelas que estão alojadas na pré-consciência e se tornam conscientes. Ambas fazem parte da realidade (JOUSSET, 2007, p. 110). Bloch, analisaria o ainda-não-consciente na perspectiva do sonho acordado.

Escreveu Freud (1973, p. 2061), em Lo Inconsciente: ―A psicanálise nos tem revelado que a essência do processo de repressão não consiste em suprimir e destruir uma ideia que representa o instinto, senão em impedi-la de tornar-se consciente‖. Mas, prossegue Freud (1973, p. 2061), o inconsciente tem um ―alcance mais amplo‖ e só é conhecido quando se torna consciente. Nesta ambiguidade, está contida uma questão relevante: teria o homem

condições de conhecer e mudar a si mesmo de acordo com o que ensina o paradigma socrático – ―Conhece-te a ti mesmo‖?

Bloch (2005) não se esquiva das dúvidas, mas prefere realçar as possibilidades. Pensa o inconsciente não só no sentido do que pensou a filosofia anterior a Marx e a psicanálise de Freud, mas no horizonte de que o homem não está consciente (dasUnbewusstein) de que a vida melhor encontra-se no socialismo, não no capitalismo. Encontra no aflorar da consciência (Bewusstsein) revolucionária a superação de um romantismo inconsciente, já presente no Renascimento com Paracelso, mas que traz em si a objetividade e subjetividade do sonho acordado, a unificação da vitalidade com a vontade do novum.

A vida futura seria superior à consciência da vida atual. O que significaria, para alcançá-la, pensar para além dos fatores objetivos das contradições da realidade, em permanente conflito com os fatores subjetivos. Segundo Bloch, a união Dioniso-Apolo em lugar de domesticar o homem e fazê-lo refém da moral da sociedade de classes, contribuirá, como imaginou Nietzsche, para iluminá-lo e libertá-lo. Fazê-lo pensar na oposição entre o coletivo e o altruísmo, entre a ilusão e o belo, pensar no ideal de amizade sem nenhuma filantropia (BLOCH, 1975, p. 191-3).

O que significaria pensar para além dos fatores objetivos das contradições da realidade, em permanente conflito com os fatores subjetivos. Não basta que estejam em constante diálogo. É preciso que ambos sejam indivisíveis e inseparáveis. E que o ainda-não- consciente tenha o olhar voltado para o que são concepções imanentes da classe dominante de cada época e o que é transformação revolucionária.

A dificuldade é explicar por que o ainda-não-consciente passou ―tanto tempo desapercebido‖ e continua a permanecer na ―obscuridade‖ (BLOCH, 2005, p. 132). Nem mesmo as antecipações utópicas de More e Bacon e, posteriormente, as utopias sociais ou as utopias do mundo dominado pela técnica desenvolveram uma epistemologia que rompesse com o imobilismo do futuro. Olhava-se para a frente, como na Nova Atlântida de Bacon, nos camponeses que seguiram Münzer e nas massas que se rebelaram na Revolução Francesa, mas era mais uma percepção da realidade objetiva das épocas. A função utópica carecia de conteúdo e de ―sujeito sólido‖ (BLOCH, 2005, p. 144). Não havia uma visão teleológica do futuro.

O girar em círculos e a rememoração se repetiram com a Revolução Francesa que ficou incompleta e se distanciou do trabalhador. A decadência da burguesia, somada ao Romantismo de feição reacionária, prisioneiro do atavismo místico, selaram o processo. Mais tarde, o ego transcendental do idealismo alemão pregou a virtude do orgulho baseada na

razão. Com Kant e Fichte, colheu postulados éticos de ―um mundo da espontaneidade da vontade que não naufragou na experiência mecanicista do já existente‖ (BLOCH, 2005, p. 147). E houve a concepção do ―elã vital‖ de Bergson, que pregava a imutabilidade incessante do novo, mas numa visão geral, o ainda-não-existente passou desapercebido ante o que já existia e, assim, permanece (BLOCH, 2005, p. 140). Nada se rompeu com a barreira na evocação do passado, mas o olhar para o futuro persistiu.

Esses estágios são fundamentais para que a consciência da utopia concreta encontre a sua totalidade. Mas isso requer a ruptura com o pensamento puramente mecanicista – o homem que sonha acordado com o futuro, mas que não se desprende da realidade presente (BLOCH, 2005, p. 181-4). O homem que chega a um novo conceito de realidade, não cede ao ―otimismo automático‖ e ―falso‖, não recusa a ―frieza crìtica‖, que é a personificação do ―otimismo militante‖, que procura a ação concretamente mediada pelo econômico-material e pelo sonho revolucionário (BLOCH, 2005, p. 197). É o homem da primeira Tese de Marx sobre Feuerbach que não se isola da realidade e participa da transformação do mundo. Ele é a expressão dialética das categorias blochianas do front, do novum e do ultimum.

A questão é saber como encontrar a fusão do que o pensamento clássico contém de olhar para o futuro com a construção do mundo em Marx e iluminar o que transcende à visão de superfície. E separar o que, na formação ideológica das sociedades, existe de superestrutura intelectual preparatória para o futuro em contraposição à superestrutura decadente ou apodrecida, com a má consciência preponderando sobre a boa fé.

Um olhar aguçado não se faz comprovar apenas pelo fato de discernir, mas também por seu jeito de não ver tudo tão claro como água. E isso justamente pelo fato de nem tudo estar tão claramente pronto e, às vezes, estar ocorrendo em fermenta, um formar-se ao qual exatamente o olhar aguçado faz jus. Esse aspecto inacabado aparece de modo mais amplo, embaralhado na ideologia, na medida em que ela não se esgota na relação com o seu tempo, o qual acompanhou todas as culturas precedentes. Com certeza, a própria ideologia se origina da divisão do trabalho e da divisão, ocorrida após as primeiras comunas, entre o trabalho material e intelectual. Só a partir disso, um grupo suficientemente ocioso para criar representações pôde iludir a si e principalmente a outros por meio delas. Portanto, já que desde a sua origem as ideologias são da classe dominante, elas justificam a condição social existente, negando a sua raiz econômica, ocultando a exploração (BLOCH, 2005, p. 152).

Por mais que existam diferenças entre Platão, Aristóteles, Hegel e Freud, do ponto de vista filosófico, todos contêm porções de olhar para a frente, de discernimento daquilo que é interesse da classe dominante, daquilo que é interesse humano. ―Não existe e nunca existiu

pensamento originado em si mesmo. O pensamento começou com o propósito de reconhecer uma situação para se familiarizar com ela‖ (BLOCH, 2006a, p. 390). Em Freud, por exemplo, Bloch encontra advertências quanto às tendências para os prazeres negativos, ou seja, o impulso negativo, de destruição e agressão, que é libidinal, e deve ser evitado. Não constrói. Mas, o que interessa a Bloch é a negação da vida imperfeita.

A familiaridade com o real encontra-se na possibilidade, segundo Bloch (2005), de pensar livremente, como faziam os gregos e, assim, penetrar no país dos sonhos, nos labirintos da vida, procurando, como disse Empédocles, reconhecer seu semelhante em cada semelhante, de maneira a conhecer o mundo e transformá-lo. O enigma da consciência e seus desdobramentos futuros, para Bloch (2005), começam a desvendar-se a partir do conceito aristotélico da pulsão (hormê) da matéria e sua forma, acoplado com o correlato compromisso do homem com a vida feliz e com a valoração da sua máxima potencialidade. Não teria força de lei, mas da interiorização de um conjunto mínimo de atitudes que permitiria ao homem conciliar a vida em sociedade com a vida em comunidade e individual (KEHL, 1992, p. 261- 2).

É por isso que Bloch (2006a) resgata Platão, no Filebo, diálogo em que trata da dialética e da ontologia, quando esse considera o bem como ―o que é desejável para todos e (concretamente) perfeito em si‖ (BLOCH, 2006a, p. 399). Conceito que Bloch considera em consonância com Aristóteles, Leibniz e Hegel e que permite o conhecimento ―muito além de Demócrito e do democratismo‖, quer dizer, olhar simultaneamente para a matéria e para fora, pela infinitude da matéria sob a forma do ser humano e da natureza, como pulsão e movimento vital (BLOCH, 2006a, p. 340).

São elementos clássicos que unem e inspiram o romantismo revolucionário em diferentes épocas e que delimitam o sentido da boa consciência do proletariado, pelo aspecto antecipador, e o significado da ideologia da má consciência, sem função utópica. A definição blochiana de romantismo revolucionário se desenvolve em torno do entusiasmo. O espelho em que o termo se olhou na Idade Média, época de forte hierarquia social, era feito, segundo André Stanguennec (2013, p. 9-10), da matéria prima do romance, que no século XVIII cedeu lugar ao adjetivo ―romanesco‖, ―romântico‖.

Foi utilizado, no início, para definir jardins ricamente elaborados; depois tornou-se a exaltação de qualidades poéticas e, a seguir, se associou à filosofia e movimentos políticos. Teoricamente, no entender de Stanguennec (2013) não existe uma movimento romântico, mas vários: o romantismo inglês, francês, italiano e alemão. Bloch se fixa nesse último, mas sob a ótica da genealogia de uma filosofia idealista, que se propaga com o romance de educação

Wilhelm Meister de Goethe. E o propósito de compreensão da crise alemã e a vontade de reconstituir a linguagem mítica e poética para o entendimento do tempo atual. Ou, naquilo em que a filosofia alemã procura ultrapassar o que é religioso ou idealista especulativo.

A partir dessas considerações, Bloch demonstra que as grandes obras da cultura têm ―pano de fundo utópico‖, ainda que nem sempre explìcito como no Fausto de Goethe ou na obra de Marx, e nem estabeleçam a harmonia revolucionária entre a cultura humana e o ainda- não-consciente (BLOCH, 2005, p. 154-5). Mas não é tudo: o retorno a Marx nos últimos capítulos das obras cardeais de Bloch – Geist der Utopie, Das Prinzip Hoffnung, além de Experimentum Mundi – significa que a vida é problemática, mas a mudança para a vida melhor é possível e se encontra em processo.

3.6 PULSÕES, O CONFLITO ENTRE O HOMEM BURGUÊS E O HOMEM

Benzer Belgeler