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[...] os sonhos não são bolhas de sabão.

Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 80)

Bloch não poderia ser mais claro: o ainda-não-consciente -, não pré-consciente como o inconsciente reprimido ou esquecido, mas exatamente por isso - se abre como campo novo de investigação. Bloch (2005, p. 80) chama a atenção: os sonhos não são a eliminação dos estímulos psíquicos perturbadores do sono pela via da satisfação alucinatória, como ensinou Freud, nem são ―bolhas de sabão‖ ou ―oráculos proféticos‖. Ficam no meio termo entre a ―realização alucinatória dos desejos‖ e a ―realização de fantasias inconscientes‖, mas a finalidade maior dos sonhos é a vida melhor, o que não exclui os sonhos noturnos, parte do ―gigantesco campo da consciência utópica (BLOCH, 2005, p. 80-1).

Por isso é consequente que, antes de um arquiteto – em todas as áreas da vida – conhecer seu plano, ele tenha elaborado esse plano, que ele tenha percebido a realização desse plano como um sonho brilhante, que impulsiona decisivamente para a frente. Isto, em termos ideais, é tanto mais necessário, mais ousado, sobretudo quanto mais impraticável for no momento o plano para o qual o ser humano, diferentemente da aranha ou da abelha, dirige seu olhar, antevendo-o. E exatamente nesse ponto se forma aquilo que aviva o aspecto desejante nos afetos expectantes que sempre que sempre se originam da fome, desejante esse que ocasionalmente distraí e amolece, mas ocasionalmente também ativa e se estende até ao alvo de uma vida melhor: formam-se sonhos diurnos (BLOCH, 2005, p. 78-9).

Bloch parte da ideia de que ―o desejo de ver as coisas melhorarem não adormece‖, sofre privações e não desiste, ―não submerge na névoa‖ (BLOCH, 2005, p. 79-80). Entende que o sonho noturno transforma ideais desejantes em alucinações porque o sonhador adulto se encontra enfraquecido, praticamente todos os sonhos são, por isso, ―desfigurados‖, ―mascarados‖ e se mostram ―simbolicamente disfarçados‖. Acrescenta: ―Apenas os sonhos da criança estão livres da desfiguração onírica, já que a criança não conhece qualquer eu censurador‖ (BLOCH, 2005, p. 81).

Na filosofia Ocidental, a frase de Sócrates ―Conhece-te a ti mesmo‖, gravada no frontispício do oráculo de Delfos, na Antiguidade, foi a porta de entrada para o conceito de inconsciente que seria tema comum na filosofia como referência ao conhecimento e à sabedoria. Às vezes, como indicativo da separação entre corpo e espírito e da consciência seletiva (Descartes), outras vezes como indicativo das percepções refletidas, das quais teríamos consciência, e das pequenas percepções, das quais não temos consciência (Leibniz).

Sendo o pensamento de Sócrates (e, consequentemente, o platonismo), fundamental na discussão do inconsciente, o primeiro desdobramento do novo conceito se dá com as noções de bem e de verdade, além das postulações de formas transcendentes e racionais como critério da ordem no mundo. Foi um momento em que as antigas cidades gregas se viam ameaçadas pela desordem e o caos e que preparou o terreno para que o conhecimento se tornasse essencial no Renascimento. Germinaria, posteriormente, com o idealismo racionalista de Hegel e nos princípios metafísicos morais de Schopenhauer, Nietzsche e Freud.

Schelling, um dos filósofos que mais influenciaram Bloch, entende que há uma unidade entre inconsciente e consciente, entre o homem e a natureza, e que ―toda criação consciente pressupõe uma criação inconsciente‖, dai considerar o homem portador de forças ―cegas‖, comumente relativas à nostalgia de uma vontade imemorial (SCHELLING, 2015, p. 207). Mas foi o mesmo Schelling que deu origem a um sistema elaborado de dialética e uniu ―liberdade e necessidade‖ à ―heteronomia e a identidade‖, advogando que a liberdade ao alcançar uma posição central possibilita ―o surgimento de uma nova sìntese, e a estabilização de novas formas de existência‖ (FFYTCHE, 2014, p. 110-1). Com isso, condenou o princípio do predomínio da razão: os seres se unificam não em cadeia, mas pelos modos de existência e não há, portanto, uma concatenação mecânica de causa e efeito. Há, sim, ambiguidades e liberdade.

Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche (2014) critica a valorização excessiva da razão como forma de expansão do conhecimento e, voltando-se para o paradigma socrático, defende que o homem seja menos apolíneo e mais dionisíaco. Bloch (2005) herdou de Schelling e de Nietzsche a percepção de que o homem não é constituído apenas do "efeito supremo da civilização apolínea". Ele é modelado pelas duas forças antagônicas e necessita promover essa reencontro desde a ascensão do capitalismo monopolista quando o homem se viu cercado pelo ―mundo da mercadoria e sua ideologia‖ (BLOCH, 2005, p. 56). Schelling, na interpretação de Matt Ffytche (2014, p. 200-3), considera o homem como um ―estranho‖ porque não se permite reconhecer tudo que permanece ―secreto, oculto, latente‖, mas que vem

à tona. A rejeição dessa parte envolve um ―princìpio de cegueira‖ quanto à sua própria base, o que Freud descobriu e introduziu na ciência da psicanálise.

Essa faceta, que retrocede às primeiras ideias da filosofia da natureza de Schelling (2015), no entendimento de Ffytche (2014, p. 201-2), é coerente como o significado de uma vida mais ampla e com os conceitos de ―mudança‖ e ―autocriação‖ que ―subvertem a filosofia do mecanicismo‖. Contribuem para conciliar a liberdade individual e o universal, subordinando os ideais à natureza e à história, o que Schelling em Les Âges du Monde situa como eras ―perdidas ou reprimidas‖, mas que podem representar ―o combustìvel da alma‖ e revelar ―totalidades mais amplas‖ e ―interioridades profundas‖? (FFYTCHE, 2014, p. 204-7).

Talvez, essa repressão marque o princípio do conflito do homem trágico e permita uma melhor compreensão das relações que Bloch estabelece entre o inconsciente, o ainda- não-consciente, as pulsões e as épocas. Bloch não luta contra a tragédia, luta contra o niilismo: contra o pessimismo niilista que prega o ―desespero‖, que ―desiste de tudo‖ em lugar de despertar para o esgotamento da sociedade de classes (BLOCH, 2006b, p. 450).

O trágico Bloch procura renovar. A tragédia encontra-se na visão não dialética da vida. O homem não apenas prática o mal, mas prática o mal e o bem. Não é apenas Apolo ou Dioniso, é Dioniso-Apolo. Não é apenas ambiguidade, mas também finalidade. Não é apenas desumanidade e inconsciência, mas humanidade e consciência. Não é apenas o ―eu‖, mas é também o ―nós‖. Não é só o romantismo abstrato, mas é também otimismo militante.

Tudo isso, encontra-se nos capítulos finais de suas obras cardeais The Siprit of Utopia (Geist der Utopie) e O Princípio Esperança (Das Prinzip Hoffnung), ambos dedicados a discutir as ideias de Karl Marx. Por que no final do volume III de O Princípio Esperança Bloch (2006b) atribui ao marxismo predicados como a ―lucidez autêntica‖, tão diferente do ―senso comum‖, ―tipicamente não dialético, tão marcado por ―preconceitos pequenos burgueses‖? Por que Bloch (2006b) atribui tamanho significado ao entusiasmo e enfatiza que o marxismo não trata a ação como uma fantasia e não se volta apenas para ―coisas absolutas‖ como se o ―romantismo revolucionário fosse o mesmo que quixotismo‖? Por quê Bloch assinala que o direito jamais poderá estar acima da estruturação econômica da sociedade e do desenvolvimento cultural por ela condicionado?

Numa fase mais adiantada da sociedade comunista, depois que tiver desaparecido a subordinação servil do indivíduo à divisão do trabalho, e com isso também à contraposição de trabalho corporal e mental, depois que o trabalho tiver deixado de ser apenas meio de vida e tiver se tornando, ele mesmo, a primeira necessidade vital; depois que o desenvolvimento do indivíduo em todos os seus aspectos tiver levado ao crescimento das forças produtivas e todas as fontes de riqueza cooperativa fluírem mais profusamente – somente então o horizonte estreito do direito burguês poderá ser totalmente ultrapassado e a sociedade poderá escrever em suas bandeiras: cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades (BLOCH, 2006b, p. 455-6).

Reflexões como essas podem ser encontradas, de maneira indireta, ao longo do último capítulo da trilogia O Princípio Esperança. Pensamentos de Marx são intercalados com interpretações de Bloch que não se restringem a criticar a incompatibilidade entre as forças produtivas, que há muito se tornaram forças sociais, e a apropriação capitalista, o que representa uma ―contradição básica‖ da sociedade capitalista desenvolvida. Ele define o marxismo como o ―mais frio dos detetives em todas as suas análises‖, mas que ainda assim considera na prática o ―sonho da Idade de Ouro‖ (BLOCH, 2006b, p. 456).

O novum, a Idade de Ouro, só se concretizaria na argumentação de Bloch, quando a filosofia descobrir que já transcendeu, com Marx, os ―idealismos metafìsicos‖, as ―regiões remotas dos céus‖, as ―hipóstases fáticas de pura invisibilidade mitológica‖ e se ―comprova como expedição com e no processo profundamente ramificado e inconcluso, como coragem para aquela não-asseguração que posta a esperança exatamente na linha de frente‖ (BLOCH, 2006b, p. 450-60). Bloch desenvolvia a ideia de que o mundo estava inconcluso não como destino, mas por processo em andamento e que poderia ser acabado.

O propriamente dito ou a essência não é algo já existente em sua forma acabada, como água, ar, fogo ou até mesmo como ideia universal invisível ou como quer que se chamem esses elementos fixos e reais absolutizados ou hipostasiados. O propriamente-dito ou essência é aquilo que ainda não existe, que anda em busca de si mesmo no cerne das coisas, que espera sua gênese na tendência-latência do processo; ele próprio nada mais é que esperança fundada real-objetiva. E, em última análise, o seu nome tangencia o ―sendo-em-possibilidade‖ do sistema aristotélico e do sentido que vai muito além de Aristóteles, logo, o elemento aparentemente mais predefinido que existe; a matéria (BLOCH, 2006b, p. 460).

Não há nesse salto dialético para dentro do novum nenhuma concepção teleológica antiga, prossegue Bloch (2006b), nada que lembre a ―Providência‖ divina, nem o caráter contemplativo da maioria das filosofias pré-marxistas. Se pairava alguma dúvida quanto à não secularização do processo revolucionário do sonho para diante, Bloch (1975) se encarrega de

dissipá-las em Experimentum Mundi. Não apenas reviu as categorias aristotélicas e kantianas, clássicas, como o espírito utópico da práxis humanistica-revolucionaria condensadas na visão do processo humano, mantendo-se irredutível ao conceber no niilismo a grande ameaça à sociedade.

Nesse atualizar dos pilares do seu sistema filosófico aberto, Bloch mantém a perspectiva marxista de que o tempo é o espaço da história e, assim, vincula a concretização da perspectiva socialista à naturalização do homem e humanização da natureza. O homem e tão somente o homem, de acordo com Bloch, tem o poder de ser o sujeito da sua emancipação e liberdade em relação ao sistema produtivo. No final, sublinha, a humanidade tende a tornar, como palavra de ordem, o ainda-não-consciente socialista em consciente, o que conduziria o homem à coincidência do sujeito-objeto das suas aspirações a uma vida melhor.

3.5 DA TRAGÉDIA AO INTERESSE HUMANO, A FAMILIARIDADE COM O

Benzer Belgeler