Dando azo ao propósito de moralizar as eleições no país, viabilizando o respeito à representação popular, além de ampliar o direito ao sufrágio, buscando torná-lo universal, a Revolução de 1930 desaguou na aprovação do Decreto n. 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, criando o Código Eleitoral. Esse diploma inovou em vários pontos, podendo-se afirmar que “instituiu o voto feminino, baixou a 18 anos o limite de idade para ser eleitor e deu segurança efetiva ao sigilo do sufrágio”.116
O primeiro Código Eleitoral do país, entretanto, teve indiscutivelmente como principal inovação a criação de uma Justiça especializada, posteriormente estabelecida como de jurisdição especial, inclusive apta a julgar, desde o seu nascimento, matéria penal referente aos crimes eleitorais.
Nesse diapasão, afirma a doutrina que o Código Eleitoral de 1932 “teve o mérito de criar a Justiça Eleitoral como instituição independente, voltada exclusivamente para a organização das eleições (alistamento eleitoral, votação, apuração dos votos, proclamação e diplomação dos eleitos) e a resolução dos conflitos nelas surgidos”.117
Passou-se a confiar o resultado das eleições definitivamente ao Poder Judiciário, buscando uma decisão isenta e apartada das paixões políticas, além de desapegada das influências dos coronéis, objetivando acabar com o mandonismo e a fraude reinantes no processo eleitoral.
Evidentemente que a instituição da Justiça Eleitoral por si só não foi o suficiente para extirpar as muitas fraudes eleitorais. Entretanto, evoluiu-se para um sistema próximo do hoje existente, sendo “confiado à magistratura todo o processo eleitoral, desde a qualificação até a apuração dos votos e proclamação dos eleitos”.118
116 LEAL, Victor Nunes, Coronelismo, enxada e voto, cit., p. 257.
117 GOMES, José Jairo. Direito eleitoral: conforme Resolução n. 22.610/2007 do TSE. Belo Horizonte: Del Rey,
2008. p. 49.
A Constituição Federal de 1934 expressamente estabeleceu a Justiça Eleitoral como segmento do Poder Judiciário, versando sobre sua competência e determinando se tratar de instituição permanente e independente. Esse diploma normativo foi importante para o fortalecimento dessa novel Justiça especializada, posto que “constitucionalizou a Justiça Eleitoral e consagrou a competência exclusiva da União para legislar sobre matéria eleitoral, cuidou ainda dos eleitores e das inelegibilidades”.119
Posteriormente ao Código Eleitoral de 1932, já tendo havido a incorporação ao texto constitucional da competência da Justiça Eleitoral, foi editada a Lei n. 48, de 4 de maio de 1935, promovendo algumas modificações ao Código Eleitoral, que para muitos analistas e estudiosos da matéria, é considerado como o segundo Código Eleitoral.
Com o surgimento da Carta Constitucional de 1937, outorgada durante o Estado Novo no governo Getúlio Vargas, ao se versar sobre Poder Judiciário, excluiu-se de propósito a Justiça Eleitoral.
Logo, durante a ditadura do Estado Novo, com a supressão das garantias fundamentais, inclusive do direito ao voto e das eleições periódicas, não havia Justiça Eleitoral.
Portanto, de 1937 a 1945, inexistiu no país a Justiça especial em matéria eleitoral, tendo sido novamente criada por intermédio do Decreto n. 7.586/45.
Após esse interstício, houve a edição de um novo Código Eleitoral, com o advento da Lei n. 1.164, de 24 de julho de 1950, que vigorou por quinze anos, sendo que em 19.07.1965 foi publicado o atual Código Eleitoral (Lei n. 4.737, de 15.07.1965), conforme demonstra o seu artigo 382.120
119 CERQUEIRA, Thales Tácito Pontes Luz de Pádua. Preleções de direito eleitoral: direito material. Rio de
Janeiro: Lumen Juris; Del Rey, 2006. v. 1, p. 610.
120 O atual Código Eleitoral, em vários aspectos e passagens, se encontra ultrapassado. Está há quarenta e quatro
anos em vigência, foi alterado por legislação posterior e, em muitos preceitos, existe verdadeiro descompasso com o querer da Constituição Federal, havendo outrossim diversos dispositivos seus que não foram recepcionados pela Carta Fundamental.
A Constituição Federal de 1946 e todas as demais, inclusive a Constituição Republicana de 1988, passaram, de maneira expressa, a respaldar o Poder Judiciário Eleitoral, estabelecendo a sua estruturação hierárquica, além de promover a sua organização básica.
Hoje, a Justiça Eleitoral se encontra em situação privilegiada, sendo certo que há em curso uma revolução silenciosa para a ampliação da sua competência e mudança de paradigma de seus julgados, buscando atingir os objetivos definidos quando da sua criação, quais sejam zelar pela lisura do processo eleitoral e que venha a ser respeitada a vontade popular, contribuindo, também, para o fortalecimento da democracia.
Antes do advento da Constituição Federal de 1988, as funções do Poder Judiciário Eleitoral eram precipuamente administrativas, de organização do eleitorado e do pleito eleitoral; com o surgimento da Constituição Cidadã e de diversas leis eleitorais que buscam dar concretude à lisura da eleição e ao fortalecimento da democracia (complementares ou ordinárias – LC n. 64/90, Leis ns. 9.504/97, 9.840/99 e 12.034/09, dentre outras), houve um acréscimo considerável das ações judiciais eleitorais e, por conseguinte, da relevância desse ramo do direito especializado.
Com efeito, essa mudança de eixo gravitacional da Justiça Eleitoral não passou despercebida pela doutrina, que atesta:
(...) não se pode olvidar a jurisdicionalização da Justiça Eleitoral nas últimas décadas. A princípio, não só pelas leis regulamentares como também pelo Código Eleitoral, a Justiça Eleitoral tinha precípua função administrativa. Cuidava da inscrição eleitoral, do registro partidário, dos registros dos candidatos, do processo eleitoral e da votação. Esses atos eram, como ainda o são, tipicamente administrativos. (...) Atualmente, o rol de ações eleitorais judiciais, a exigir o exercício da atividade jurisdicional precípua, aumentou consideravelmente. Na Justiça Eleitoral, em razão das consequências que apresentam, podemos destacar nove ações e seus recursos: AIJE – ação de investigação judicial eleitoral, AIRC – ação de impugnação de registro de candidatura, RCED – recurso contra a expedição de diploma, AIME – ação de impugnação de mandato eletivo, REP – representação por descumprimento à Lei 9.504/97, RCIS – representação por captação ilícita de sufrágio, RCGIR – representação por captação ou gastos ilícitos de recursos na campanha eleitoral, APE – ação penal eleitoral e APCE – ação de perda de cargo eletivo. Essa significativa mudança repercute sobre as questões aqui debatidas.121
121 BARTELLI, Vilson; VIEIRA SÁ, Luiza. Reflexões em torno da composição dos tribunais. In: COSTA,
Esse o hodierno panorama do direito eleitoral, sendo evidente o fortalecimento da Justiça Eleitoral, quer em razão da sua constitucionalização, consoante será mais bem explorado no próximo item, quer principalmente pelo fato de que nos dias que correm, vive-se um maior arejamento político, com a busca de fortalecimento dos princípios inerentes à democracia, respeito à existência de eleições livres, alternância de poder, sufrágio universal, voto direto, secreto e periódico, e pluralismo político, com sua principal faceta, que é o pluripartidarismo, além de regras comezinhas do Estado Democrático de Direito, como a liberdade de expressão e o respeito à vontade soberana do povo na escolha de seus representantes (art. 1º, parágrafo único da CF).
Práticas eleitorais espúrias e arraigadas no folclore e na cultura do país passaram a ser combatidas com veemência pelo Poder Judiciário Eleitoral, em todas as suas instâncias, destacando-se principalmente os entendimentos recentes oriundos do Tribunal Superior Eleitoral, que tem sido veemente no combate às fraudes, aos ardis, à captação ilícita de sufrágio, à propaganda subreptícia e ao abuso do poder econômico, político e de autoridade.122