“PROGRAMA DE TRANSIÇÃO” DA JUSTIÇA DO TRABALHO APÓS A
AMPLIAÇÃO DA COMPETÊNCIA MATERIAL PREVISTA PELO ART. 114, I DA
CR/88
O processo de acumulação do capital em sua fase tardia (decadente)
descartou a necessidade de expansão do trabalho produtivo imediato (material)
como essencial ao seu processo de reprodução. Este resultado histórico é
decorrência da transformação de suas forças produtivas em forças dissipadoras,
improdutivas e destrutivas, tudo para se preservar estrategicamente a estrutura cega
(parasitária e irracional) das relações sociais de produção dominantes. Estas são
assimétricas para os trabalhadores e em contínuo movimento de desvalorização,
concentração e centralização da riqueza material produzida.
O emprego de capital variável no processo de produção material ou
imediato (massa de trabalho assalariado/subordinado) deve ser restringido ao
mínimo possível, pois constitui um alto custo na concorrência dos capitais
monopolistas (cartéis e trustes) e um método eficaz de domesticação política da
força de trabalho em sua totalidade estrutural e relacional.
Para se impedir a expansão do trabalho assalariado produtivo (material) e
garantir a hegemonia estratégica dos trustes e cartéis no século XXI, o movimento
da propriedade capitalista tem sinalizado com a progressão das seguintes
tendências históricas:
a) desenvolvimento de pesquisas científicas contínuas ou inovações (fora do
processo da produção material) nos setores internacionais de vanguarda ou de
ponta do sistema e suas sucessivas aplicações tecnológicas (utilização de máquinas
e equipamentos, ou seja, “tecnologização” da ciência); estas permitem o
funcionamento das fábricas com capacidade ociosa, eliminam do mercado as
empresas capitalistas refratárias (desvalorização de capitais, inovações tecnológicas
ou “revoluções de valor”, também denominada de obsolescência planejada ou moral
de capitais) e desqualificam permanentemente o trabalhador, obrigando-o a uma
reciclagem forçada contínua, na medida do possível, tudo sob pena de geração de
desemprego estrutural e marginalização social;
b) transformação do trabalhador produtivo em improdutivo (“antivalor”, “não
valor” ou falsos custos de produção), gerador de lucro e não de mais-valia, mediante
a expansão do capital-serviço privado (na esfera da circulação), do “Terceiro Setor”
ou do setor terciário do Estado (serviços públicos); este fenômeno materializa a
diferenciação e a estratificação da nova divisão social do trabalho, tudo como
resultado da crescente urbanização da sociedade capitalista (megalópoles) e da
bancarrota da produção simples de mercadorias no campo (artesanato, agricultura
familiar, etc); amplia-se a tendência regressiva da conversão à subordinação formal
do trabalho ao capital (pequenas empresas “satélites” das agroindústrias, “economia
solidária”, “informal”, “trabalho parassubordinado”, “trabalho autônomo de segunda
geração”, etc);
c) expansão ilimitada do capital financeiro (inclusive em sua modalidade de
capital fictício ou especulativo), que implica em desvio dos investimentos do
processo da produção material para as bolsas de valores (ações) e o mercado de
títulos mobiliários públicos e privados ou para o capital-dinheiro usurário ou produtor
de juros; estes não geram valor e aumentam vertiginosamente a Dívida Pública dos
Estados, com a conseqüente expansão da carga tributária que garante o pagamento
do débito financeiro e a inversão integral do ônus econômico para os trabalhadores
assalariados produtivos e improdutivos;
capitalistas, que desviam os recursos do processo da produção material para a
“economia de guerra” ou o “complexo industrial-militar” (Departamento III da
Economia capitalista), que dissipam um volume enorme de forças produtivas e
aguçam a escassez de bens de consumo essenciais à manutenção da força de
trabalho;
e) desregulamentação dos mercados financeiros, flexibilização e precarização
dos mercados de trabalho assalariado (“part-time”, emprego temporário ou parcial,
desregulamentação e terceirização trabalhista), a fim de ampliar o movimento dos
capitais a nível internacional e de restringir o movimento da força de trabalho; é a
era da acumulação flexível de capital, conhecida como “toyotismo”, que se tornou
hegemônica ou sistêmica (ALVES, 2005, p. 200/246) e como superação do fordismo
e da concertação keynesiana social-democrata;
f) expansão da “economia criminal” (improdutiva), mediante o crescimento dos
cartéis do tráfico de drogas, entorpecentes, dos cassinos e jogos de azar, das redes
de prostituição internacional, da lavagem de capital-dinheiro; estes sustentam as
correntes ideológicas de rigidez do Direito Penal Máximo em ampla escala (mais-
repressão), em contradição real com a nítida flexibilização dos direitos sociais ou
dos direitos trabalhistas e previdenciários (NAÍM, 2006; WACQUANT, 2001a, 2001b);
g) expansão das práticas de sonegação e evasão fiscais oriundas dos capitais
monopolistas, associadas à corrupção de agentes fiscais e de magistrados, bem
como a “elisão” da “economia informal”, entendida como atividade pré-capitalista e
retardatária, que não integra o campo de atuação do ordenamento jurídico tributário;
h) desenvolvimento acelerado do capital no campo (agronegócio), em típica
“falha metabólica” natural (uso de agrotóxicos, fertilizantes, sementes estéreis ou
transgênicas, queda da fertilidade dos solos, etc), mediante o descarte de grande
contingente de trabalhadores produtivos rurais e o desgaste dos nutrientes naturais
do meio ambiente e das bacias hidrográficas; ampliação da devastação da Natureza
(a falha metabólica do capital) e do desequilíbrio climático do planeta (FOSTER,
2005);
i) expansão do trabalho coletivo e intelectual (“imaterial” e “multifuncional”),
em oposição ao trabalho individual/manual e como resultado da redução estrutural
deste e da sua desqualificação pelas empresas industriais; objetivação dos
conhecimentos produzidos pelos trabalhadores nas mais diversificadas máquinas
(especialmente as informáticas, ou seja, os computadores), nova forma de trabalho
morto que se contrapõe de modo hostil ao trabalho vivo (GORZ, 2005, WOLFF,
2005);
j) surgimento de novas formas passivas ou regressivas de resistência dos
trabalhadores, denominadas de “economia solidária”, “trabalho parassubordinado”,
“trabalho informal”, “trabalho autônomo”, “teletrabalho” ou “trabalho autônomo de
segunda geração”; estes criam uma nova forma de “Direito ao Trabalho”, não-
assalariado, mas em nítida subordinação formal do trabalho ao capital, tudo em
decorrência de experiências e estratégias de sobrevivência face à aguda
centralização de capital no mundo contemporâneo (BARBOSA, 2007; MONTAÑO,
2001; PORTO; 2009; BOLOGNA; 2006);
k) aceleração do tempo de giro ou de rotação da produção material, que
envolve acelerações paralelas na troca e no consumo; o desenvolvimento de
sistemas aperfeiçoados de comunicações e de fluxo de imagens e informações
possibilitou a circulação e o consumo de mercadorias e serviços em uma velocidade
maior, com conseqüências mediatas para o processo de desvalorização dos capitais
e da força de trabalho na sociedade capitalista (HARVEY, 1990, 1992); concorrência
aperfeiçoada de capitais (“benchmarking”) ou melhoramento contínuo da qualidade
da produção das mercadorias e serviços, a fim de se atingir um desempenho
superior entre os concorrentes monopolistas.
Todos estes fenômenos devem ser analisados cientificamente em sua
totalidade concreta ou estrutural, a fim de que se compreendam quais as práticas
sociais conflituosas que determinam o deslocamento da categoria “trabalho” da
análise social e de suas determinações negativas indiretas ou mediatas nos
discursos e na prática dos operadores profissionais do Direito do Trabalho. Em
outras palavras, somente após o exame destes pressupostos “exógenos” ao Direito
do Trabalho é que poderemos avaliar quais são as conseqüências irracionais que se
refletem nas formas de consciência dos juristas ou nas superestruturas ideológicas
que discutem o futuro da competência material da Justiça do Trabalho.
3 CONCEITOS DE TRABALHO; NÃO-TRABALHO; TRABALHO ABSTRATO E
Belgede
Topolojik ve ideal topolojik uzaylarda süreklilik ve uzay çeşitleri üzerine bir çalışma
(sayfa 34-75)