Antes da década de 1990, a formação dos professores de Ensino Religioso era organizada, em quase sua totalidade, pelas instituições religiosas cristãs. Para Caron (1997) e Junqueira (2002), a formação de docentes44 para o Ensino Religioso no Brasil,
44 A formação de professores para o Ensino Religioso está trabalhada em CARON, Lurdes. Políticas
públicas para formação de professores para a educação Básica. In: JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo & OLIVEIRA, Lilian Blanch (Orgs). Ensino Religioso: memória e perspectivas. Curitiba: Champagnat, 2007, p. 99-117, e CARON. Lurdes. Experiências e propostas de educação continuada. I Fórum de Ensino Religioso. Secretaria de Educação e Cultura e Faculdade Católica de Tocantins, (2005, p. 19-20).
até a década de 1990, era orientada pelas denominações religiosas cristãs. Há experiências sobre essa formação ser desenvolvida em parceria e/ou articulações religiosas, sistemas de ensino e Instituições de Ensino Superior (IES).
Ainda segundo Caron (1997), registra-se que para atender à necessidade da contínua formação de professores de Ensino Religioso no Brasil, eram desenvolvidos cursos de Teologia, Ciências Religiosas, Catequese, Educação Cristã e outros similares. Os dados confirmaram-se no estudo realizado em 1997 sobre a formação de professores de ER no Brasil45. Por parte de igrejas, esta formação ficava condicionada à ajuda financeira do exterior e/ou recursos do próprio professor. Dentre as formações destacam-se as experiências do Curso Superior em Ensino Religioso do Pará, de Pedagogia Religiosa do Paraná e de Aprofundamento para Professores de Ensino Religioso em Santa Catarina.
Vale salientar que essas propostas não graduavam os professores em conformidade com os demais profissionais de outras disciplinas, causando impasses e dificuldades na vida funcional dos mesmos, uma vez que os outros professores tinham graduações reconhecidas pelo MEC (Ministério da Educação), dando-lhes direito ao ingresso por concurso público e, em consequência, de seguir plano de carreira funcional. Já os professores de Ensino Religioso, embora muitas vezes formados por cursos de caráter teológico, não tinham reconhecimento por parte do MEC. Por imperativo da legislação, eram-lhes negados os acessos funcionais na área do magistério, sendo apenas permitida a contratação de seus serviços em caráter temporário (JUNQUEIRA, 2002, p. 15).
Nessas circunstâncias, os direitos trabalhistas desses professores eram subtraídos por não terem direito a prestarem concursos públicos. Isso se deve ao fato de ainda não existirem políticas nacionais para a formação de docentes nessa área de conhecimento, e por não estarem instituídas as Diretrizes Nacionais para a Licenciatura de Graduação em
45 A pesquisa sobre formação de professores foi realizada em abril de 1997 e apresentada na 36ª
Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, em maio do mesmo ano, e revelou que ―os conteúdos desenvolvidos nos cursos de formação básica, licenciatura ou pós-graduação, para a formação de professores de ER partem de eixos Pedagógicos, Teológicos e Antropológicos‖. Contudo, há um esforço nacional para serem criados cursos com um programa coerente com os eixos dos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Religioso. (CARON, 2007, p. 185)
Ensino Religioso, abrindo-se, assim, lacunas para tais procedimentos (JUNQUEIRA, op. cit., p. 15).
Somente a partir de 1970 é que podemos perceber tentativas de estabelecer a profissionalização dessa área de conhecimento. A partir da segunda metade dos anos noventa o cenário foi alterado com a elaboração final da Lei de Diretrizes, que culminou com a sua homologação, a organização do FONAPER (Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso), a alteração do artigo 33 da LDBEN e a busca de uma discussão acerca da profissionalização docente.
A partir de 1997, o Ensino Religioso brasileiro experimenta mudanças de paradigma, com a Lei nº 9.475, de 22 de julho de 1997, que deu nova redação ao Art.33 de Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelecendo as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Por esta Lei, a admissão, habilitação e capacitação do docente de Ensino Religioso é atribuída aos sistemas de ensino.
Conforme Caron (2007, p. 185), no ano de 1997, o Setor de Ensino Religioso da CNBB46 apresentou na 36ª Assembleia Geral dos bispos do Brasil um estudo mostrando a situação da formação de docentes de Ensino Religioso. Os resultados da pesquisa evidenciaram um universo de inúmeras tentativas entre cursos de graduação, pós- graduação, especialização, seminários, encontros e outras modalidades, para sanar a ausência de políticas públicas, objetivando a formação dos docentes dessa área de conhecimento do currículo47. Tais fatos reforçam a discussão acerca da profissionalização docente.
Para compreendermos melhor essa discussão é importante rever o caminho construído a partir de 1995 na formação docente do Ensino Religioso conforme documento do FONAPER (2004)48:
46 Conferência Nacional dos Bispos do Brasil é a instituição permanente que congrega os Bispos da Igreja
Católica no País.
47 Sobre cursos de formação de professores pode-se aprofundar a leitura em CNBB a partir de Ensino
Religioso na escola pública.
48 FONTE: JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo. In:Revista de Estudos da Religião junho/2010 / pp.
Discussões, estudos e reflexões nacionais envolvendo as questões pertinentes à formação de professores (MEC, CNE, ANPED, ENDIPE, FONAPER entre outros);
organização do histórico de estudos e reflexões envolvendo a formação de professores de Ensino Religioso como área de conhecimento, coordenada pelo FONAPER;
Seminários Nacionais para a capacitação de docentes para o Ensino Religioso como área de conhecimento nas IES promovidos pela Comissão de Formação Docente do FONAPER;
construção da proposta para as Diretrizes Curriculares dos Cursos Superiores na área do Ensino Religioso encaminhadas ao MEC em quinze dias de julho de 1998,
acompanhamento pelo FONAPER, dos projetos de Curso de Licenciatura de Graduação Plena em Ensino Religioso (autorizados e/ou reconhecidos) oriundos dos diferentes Estados da Federação; Pesquisa sobre Ensino Religioso desenvolvida pelo FONAPER em Estados brasileiros no ano de 2001 e 2002;
reuniões nacionais das universidades brasileiras envolvidas com a formação continuada de professores de Ensino Religioso e particularmente com as licenciaturas de graduação plena em Ensino Religioso com o FONAPER;
reunião com o presidente em exercício do Conselho Nacional de Educação, Prof. Francisco Aparecido Cordão, em abril de 2004 na cidade de São Paulo;
elaboração de um dossiê sobre a formação de professores no Brasil, em 2004, encaminhado para o Conselho Nacional de Educação;
discussão de uma nova versão para as Diretrizes de Formação de Professores para o Ensino Religioso iniciado em 2008, durante o X
Seminário de Formação de Professores, realizado na Universidade Católica de Brasília; rediscussão do texto, em 2009, no V Congresso Nacional de Ensino Religioso, com o tema ―Docência em formação e ensino religioso: contextos e práticas‖, na Pontifícia Universidade Católica de Goiânia (o texto foi encaminhado ao CNE).
Nesse contexto, a situação da formação de profissionais para o Ensino Religioso, especialmente a partir de meados da década de noventa, mobilizou um significativo processo de organização de diversos cursos nos mais distintos Estados do país oriundos da necessidade de capacitação dos profissionais dessa área de conhecimento.
2.1.2 A profissionalização docente para o Ensino Religioso: propostas e