Ao analisar as narrativas dos professores no que se refere às experiências notáveis durante as trajetórias profissionais e de vida percebemos que estas são indicadoras de que todo o conjunto dessas experiências foi muito significativo em seus percursos na profissão docente.
A esse respeito, ao abordar esta questão, P1 relata a importância de ter iniciado numa profissão cujas experiências a levaram a aquisição de novos conhecimentos, onde os bons relacionamentos a tornaram uma profissional mais experiente e melhor. Neste sentido, declara:
As grandes experiências foram sem dúvida os conhecimentos adquiridos, os bons relacionamentos e aprendizagens que me fizeram ver que eu estava na profissão certa. (P1)
Este dado também vai reaparecer nos depoimentos de outros professores que responderam ao questionário e produziram seus memoriais. São dados que evidenciam a satisfação dos professores com sua área de atuação. Pudemos observar que, apesar de possuírem motivações diferenciadas durante a escolha da profissão, todos foram enfáticos em afirmar que gostam do que fazem e que se descobriram professores.
As reflexões de P2 sobre as experiências relevantes em sua trajetória profissional apontam que cada experiência vivenciada pelo professor possui um sentido formativo
muito especial por oportunizar a busca de novas aprendizagens. Neste contexto, P2 revela:
O meu aperfeiçoamento a cada dia e a cada ano em sala de aula é minha grande experiência, pois o trabalho de educador é todo dia um apelo por mudança que nos faz aprender sempre mais. (P2)
Nota-se que o exercício da docência é um campo em que as experiências vão se solidificando com o passar dos tempos, e que o processo de mudança instiga o professor a buscar novos conhecimentos e aprendizagens significativas para realizar um trabalho mais consistente que venha atender às necessidades do dia a dia.
O relato a seguir, de P3, aponta outros aspectos que são significativos quando se trata das experiências relevantes na trajetória do docente. Reiteramos a partir do que relata P3, que todas as experiências iniciais no começo de uma trajetória, são relevantes no processo de aprender a aprender, portanto, na construção de habilidades, competências e saberes da profissão P3 lembra que:
O bom de tudo foi o aprendizado mútuo com os colegas e no final tudo dá certo, pois o inicio foi difícil porque sofri muito preconceito antes de ser professor por acharem que eu não tinha potencial para permanecer na empresa em que eu trabalhava. Quando comecei a lecionar, voltei a me sentir útil, valorizei a mim e a minha vida. (P3)
Percebemos no relato de P3 que as circunstâncias cotidianas de uma profissão desafiam o profissional na construção de saberes para responder aos desafios e à complexidade de seu trabalho. Neste caso especifico, a profissão docente do professor foi uma alavanca para desconstruir conceitos inferiores a sua respeito. O professor P3 ainda indica que a vivência na docência contribuiu para sua autovalorização e compreensão da sua capacidade pessoal e profissional. A esse respeito, de fato, as reflexões de Nóvoa (1992) são pertinentes, quando ressalta que o eu pessoal é inseparável do eu profissional e que a formação de professores tem negado, sistematicamente, o desenvolvimento pessoal dos sujeitos envolvidos nos seus processos formativos e trajetória profissional.
Na sua narrativa pessoal sobre as experiências notáveis na trajetória profissional, P4 faz um desabafo comum entre os professores de Ensino Religioso: a falta de reconhecimento e descaso de professores de áreas distintas. Sabemos que o não
reconhecimento do trabalho dos docentes de Ensino Religioso ainda causa criticas, que este profissional nem sempre tem da escola uma valorização igual a dos demais colegas de trabalho. Segundo ela:
A cada ano que se passa adquirimos mais experiência, aprendemos a lidar com algumas situações adversas, mediar debates calorosos, ajudar no coletivo e no individual, lidar com os descasos dos colegas de profissão e entender o que é ser professor. (P4)
O relato de P4 é também um desabafo veemente da situação vivenciada pelos professores de Ensino Religioso neste país e reitera que não apenas os fatores internos à escola marcam os percursos profissionais dos docentes. Entendemos a fala de P4, por ser inaceitável o não reconhecimento do trabalho do docente de Ensino Religioso que quer realizar seu trabalho livre de preconceitos, de forma respeitosa. Nesse sentido, Barbosa (2010), é enfático ao assinalar que o professor de ensino Religioso é, na escola e na sua comunidade, um mediador da própria questão religiosa, da espiritualidade, sendo assim, um promotor do diálogo interreligioso e da busca pela ética e pela paz. São essas vivências e reflexões que possibilitam a construção de uma sabedoria da prática e emerge como possibilidade de transformações pessoais e profissionais.
O exercício da profissão, isto é, as experiências que o professor vivencia na profissão, simbolizam muito no processo de estabilização da docência em face do valor que o professor atribui ao saber da sua prática. Os relatos dos professores P5, P6, P7, P8 e P9 reforçam essa concepção e indicam o significado da experiência no estabelecimento da trajetória profissional:
Ao longo dos tempos vamos adquirindo experiência e ao mesmo tempo aprendendo através dos erros e acertos um jeito próprio de conduzir a prática docente. A formação continuada ajuda muito no dia a dia. (P5)
A minha vontade de aprender é muito grande e nesse caminhar trago como experiência relevante, o verdadeiro significado de ser professor. (P6)
Toda experiência foi marcante e continua sendo, pois todos os dias temos algo de novo a aprender e ensinar no cotidiano com meus alunos, entender a realidade de cada um deles é muito importante para poder dar uma melhor contribuição naquilo que faço como professor de Ensino Religioso. (P7) A experiência do dia a dia em sala de aula é mesmo muito rica e é quem faz o profissional. As formações ajudam muito, mas não adianta a teoria sem a prática, com isso mudei muito como profissional. (P8)
Semelhante ao que já foi referido, todo início de profissão é delineado por algumas dificuldades, neste caso, o exercício da docência. Assim, constatamos que vários são os fatores limitantes e as dificuldades colocadas no inicio da profissão docente. E esses fatores, aliados aos erros e acertos do fazer pedagógico, colaboram para que este professor supervalorize sua prática e a experiência dos seus pares. Segundo Lustosa (2006), neste percurso o apoio e as trocas com os pares são fundamentalmente importantes para atenuar os problemas advindos da sala de aula e das relações que são estabelecidas dentro e fora dela.
As reflexões do nosso interlocutor P10 revelam como experiências notáveis todos os relacionamentos e aprendizagens ao longo dos seus 29 (vinte e nove) anos de profissão docente. Na sua fala fica expressa que trilhar o caminho docente é acima de tudo enfrentar as dificuldades e não ter medo de desafios. P10 ressalta, de forma amorosa, as experiências no seu cotidiano pessoal como desafiadoras para investimentos na trajetória profissional. Nesse sentido, relata:
Trago como experiências marcantes todos os meus relacionamentos criados ao longo desses 29 anos de sala de aula. A minha maior emoção foi sentir que eu precisava dos meus alunos muito mais do que eles precisavam de mim. Nem sempre me sentia bem emocionalmente, mas ao me deparar com meus alunos, esperando pela minha aula, me fazia buscar forças para enfrentar os desafios impostos a cada dia. Tive momentos de alegria, raiva, descontentamento, falta de respeito, desvalorização, descaso, mas nunca por parte dos meus alunos, e sim, por profissionais que se dizem educadores e não respeitam o próprio colega de trabalho. Mas foi no Ensino Religioso que me descobri mais forte do que pensava. Aos poucos fui desmistificando a visão de professor de catequese, de religião e construí uma trajetória hoje muito respeitada por onde passo como professora de ER. A formação continuada colaborou muito com a melhoria do meu fazer pedagógico, o que faz eu me sentir cada vez mais preparada para continuar nessa missão que abracei há tantos anos. (P10)
No relato acima, percebemos que P10 vivenciou dificuldades como professor de Ensino Religioso, contudo, seus ideais não se deixaram abater por desafios impostos no seu cotidiano. Foram as dificuldades que a levaram a não recuar e buscar fortalecer sua prática a cada dia, participando das formações continuadas, motivo que a fez conseguir o respeito e consideração até mesmo dos que não a respeitavam.
Na exploração das experiências que marcaram a trajetória profissional dos nossos interlocutores, o principal objetivo é refletir e apresentar nossa compreensão
sobre a formação e sobre o lugar que nela ocupam as exigências ao longo das quais se forma e se transformam as identidades e as subjetividades dos professores.
Foi nessa análise que descobrimos a importância das práticas nos caminhos formativos e profissionais dos nossos parceiros. São as experiências que caracterizam o percurso de muitas aprendizagens, a partir de situações conflitivas em alguns momentos, mas também de muitas alegrias pela parceria com os pares, pelo convívio com os alunos, enfim, pelas aprendizagens vividas/adquiridas.
Analisando as experiências narradas pelos nossos professores, parceiros desta pesquisa, percebemos a articulação entre o percurso das experiências vividas e o processo de amadurecimento da profissão docente por eles vivenciado. Assim, todas as experiências serviram de alicerce para uma aprendizagem significativo na trajetória desses profissionais.
Com base nas narrativas de nossos interlocutores e na interface com o pensamento de Nóvoa (2002) entendemos que grande parte do saber dos professores sobre sua prática é resultante de sua própria história de vida pessoal e profissional. Observamos, ainda, que os saberes contraídos no percurso profissional têm um peso relevante no entendimento da natureza da profissão, do saber-fazer e do saber ser professor.
Através das narrativas, percebemos ainda as dificuldades impostas aos docentes no encontro com a docência. Para a grande parte dos colaboradores foi uma fase difícil e delineada de insegurança, medos, incertezas, principalmente por não serem habilitados para exercerem a docência no Ensino Religioso. Esses sentimentos são perfeitamente compreensíveis no inicio da vida profissional docente. No decorrer do exercício da prática docente, essas dificuldades iniciais vão sendo compreendidas e superadas pelos professores por meio da experiência cotidiana.