Quatremère explicitou pela primeira vez na teoria da arquitetura o termo tipo, em 1825. Em sua obra, as idéias neoplatônicas de Laugier sobre o caráter original da cabana vão encontrar uma tradução culturalista (LAVIN, 1992). Tanto Laugier como Quatremère acreditavam que a arquitetura tinha de ser regenerada, depois do excesso cometido no passado imediato. Eles estavam certos que depois do abandono do modelo clássico, a arquitetura se sentiria sem direção (MADRAZO, 1995). A solução que eles defendiam era a mesma: era necessário voltar ao principio. Para Laugier, esse princípio era a cabana; para Quatremère, era o tipo.
Pesquisando diferentes culturas, Quatremère concluiu que a cabana não era a única fonte de toda arquitetura. Havia três fontes básicas, das quais toda arquitetura teria sido derivada. A essas fontes ou germes, Quatremère chamou tipos – a cabana, a tenda e a caverna –, cada um deles correspondente a uma organização social: respectivamente, comunidades agrícolas sedentárias, tribos nômades, e caçadores. Daí, Quatremère concluiu que o tipo estabelece uma conexão entre Arquitetura e sociedade, entre o projeto e as forças sociais subjacentes, indicando uma dinâmica tipológica correspondente à dinâmica social (LAVIN, 1992).
Quatremère mantém a interpretação de que esses tipos originais informam todo o processo criativo em Arquitetura. Logo, a doutrina da imitação esta no núcleo do conceito de tipo de Quatremère. De acordo com ele, a arquitetura seria uma arte imitativa. Por esta razão, segundo a nomenclatura proposta por Madrazo (1995), ele diferenciou duas formas de imitação na arte: a primeira, uma imitação literal ou real, em que o objeto de imitação é
um modelo concreto (mimese direta); a segunda, uma imitação ilusória ou abstrata, na qual o objeto de imitação é o tipo (mimese indireta).
Assim, para Quatremère (apud MADRAZO, 1995, p. 188), “... para tudo é necessário um antecedente, nada sai do nada”. Para ele, o artista arquiteto compõe sua criação a partir da apreensão e da compreensão de uma regra interna que estrutura a forma. Trata-se do tipo, um elemento abstrato a partir do qual se produzem obras (modelos) diferentes. Tipo e modelo são assim diferenciados por Quatremère:
A palavra tipo não representa tanto a imagem de uma coisa que tenha que se copiar e imitar-se perfeitamente, senão a idéia de um elemento que deve servir de regra ao modelo [...] O modelo, entendido segundo a execução prática da arte, é um objeto que deve se repetir tal qual é; o tipo, ao contrário, é um objeto de acordo com o qual cada um pode conceber obras que não se assemelham em absoluto entre si. Tudo está dado e é preciso no modelo; tudo é mais ou menos vago no tipo. Assim vemos que a imitação dos tipos não tem nada que o sentimento e o espírito não possam reconhecer (QUATREMÈRE DE QUINCY, 1985, p. 75).
Basicamente, Quatremère afirmou a necessidade de transcender a mera aparência dos modelos e descobrir as regras e princípios a ele subjacentes, em uma atividade intelectual criativa que captura o ponto de partida da criação a partir do modelo. As palavras de Quatremère afirmam sua visão de que o modelo é uma forma para ser repetida, copiada e imitada, e desta forma, é mais apropriada para o artesanato ou para tecnologias da produção industrial do que para a arquitetura. A doutrina da imitação era válida tanto para a arquitetura como para a pintura e a escultura. A diferença era que, em arquitetura, o objeto de imitação – o tipo – é abstrato; nas artes figurativas, o modelo é um objeto concreto.
Indo mais além, afirma Lavin (1992), o conceito de tipo foi a estrutura na qual Quatremère ancorou seu entendimento da história da arquitetura. Para Quatremère, a relação entre as arquiteturas primitiva e moderna pode ser entendida pelo estudo do processo de transformação do tipo, uma metamorfose conceitual requerida cada vez que um edifício foi projetado. Como resultado, o tipo arquitetônico do passado tornou-se chave para o tipo futuro e, mais importante, para a sua legitimação pública e social.
Assim, Quatremère elaborou um argumento em que a evolução histórica da arquitetura deixa de ser linear, em que tipos arquitetônicos oriundos de distintas culturas e momentos históricos se cruzam, e em que o processo de imitação (mimese indireta) se caracteriza pela
atividade intelectual criativa de conceber e reconhecer um princípio ideal que estruture a atuação criadora do arquiteto. Esse princípio, como assinala Oeschlin (1985), pressupõe um enfoque sistemático, não apenas descritivo, do contexto histórico das regras, permitindo que essas sejam transpostas para a metodologia projetual.
Oechslin (1985) conclui das reflexões de Quatremère a evidência de que o tipo não é um modelo simplificador, um padrão reduzido da descoberta arquitetônica. Ao contrário, Oeschlin considera o conceito de tipo como uma construção teórica inteligentemente edificada, a partir da qual se pode estabelecer uma compreensão tanto do processo evolutivo da Arquitetura quanto do processo criativo da projetação, nas suas recíprocas interdependências.
Entretanto, não cabe dúvida de que a formulação conceitual de Quatremère é extremamente abstrata, de forma vaga e de difícil operacionalização. Alguns, como Pérez Gómez (1991), a consideram com uma noção bastante confusa e, de certa forma, inútil. Essas críticas, entretanto, segundo Francescato (1994), estão muito ligadas à idéia de que o enfoque tipológico aprisiona a mente criadora do arquiteto nos limites da convenção, o que seria indesejável em um campo em que deve sobressair-se a invenção.
O próprio Quatremère já entendia o tipo como algo limitante, mas ao mesmo tempo liberalizante das energias criadoras do arquiteto (FRANCESCATO, 1994). Afinal, a dinâmica tipológica certamente supõe a progressiva alteração dos tipos, da mesma forma que admite tanto a permanência do precedente quanto a sua negação pela geração de um tipo novo.
O elemento central do debate sobre a validade das formulações de Quatremère passa pela discussão dessa natureza supostamente conservadora, anticriativa, do conceito de tipo. Francescato (1994) considera que parte da imprecisão do debate se deve à releitura de Argan das idéias de Quatremère. Enquanto que este dava ao tipo uma orientação neoplatônica, pensando o tipo como uma entidade a priori, Argan (1996, 2001) viu o tipo como resultado de uma pesquisa de coisas em comum a trabalhos reais de arquitetos, ou seja, como um exame a posteriori objetivando o descobrimento da “estrutura interna formal” de uma série de trabalhos. Argan, como historiador, estava primariamente interessado nas qualidades descritivas e taxonômicas do tipo e somente incidentalmente naquelas que devem afetar a geração de formas.
Para Francescato (1994), há que se admitir que existe uma prática de utilização do conceito de tipo, em arquitetura, meramente como um esquema taxonômico, geralmente associado a categorias funcionais ou de construção. Mas, nesses casos de utilização do conceito, em que se salienta o elemento funcional ou tecnológico, o atributo da forma não é central. Para Quatremère, ao contrário, a geração da forma está no núcleo do conceito de tipo. Portanto, essa visão meramente “classificadora” não pode ser assimilada a Quatremère. Sua teoria tipológica, ao diferenciar claramente os conceitos de tipo e modelo e definir o tipo como um núcleo abstrato capaz de gerar obras diferentes, ressalta o papel criativo do arquiteto ao afirmar que a forma resulta de operações intelectuais criativas operando sobre as idéias (o tipo) que estão por trás das formas precedentes.