Contemporâneo de Quatremère, Jean-Nicolas-Louis Durand retomou os estudos de Boullée e Ledoux em busca de identificar fundamentos da arquitetura precedente. Boullée e Ledoux haviam trabalhado, sem êxito, na direção de sintetizar duas vertentes da análise dos espaços arquitetônicos: as sensações produzidas e os aspectos funcionais. Durand, entretanto, se fixou apenas nos elementos formais da arquitetura pregressa (PICON, 2000), com o objetivo de produzir um método operativo de análise e projetação que internalizasse o conhecimento e a manipulação de soluções prevalentes.
Arquiteto, teórico pragmático e professor da Escola Politécnica de Paris, onde o ensino se centrava em conhecimentos científicos e tecnológicos, Durand orientou seu esforço de pesquisador para uma fazer arquitetônico que fosse, nas palavras de Picon (2000), tão rigoroso quanto as ciências da observação e dedução, tão eficiente quanto a engenharia. Durand rejeitava as teorias de Vitrúvio e de Laugier, que defendiam que o princípio fundamental da arquitetura estava no corpo humano e na cabana, respectivamente. Para ele, o verdadeiro princípio fundamental da arquitetura – ou seja, o tipo – devia ser buscado na própria arquitetura. Por isso, Durand analisou os edifícios do passado, sintetizando-os para revelar suas características comuns, representadas em formas geométricas básicas (MADRAZO, 1995).
Seu trabalho teórico mais conhecido está recolhido em duas obras publicadas entre 1800 e 1805: o Recueil et parallèlle dês edifices de tout genre, anciens et modernes e o Précis des
leçons d’architecture données à l’École Polytechnique (DURAND, 2000). Este último, um
curso básico em arquitetura para futuros engenheiros, lançava mão do material sistematizado no primeiro para orientar a aprendizagem da projetação de edifícios. Daí pode-se depreender uma preocupação essencial na obra de Durand: o projeto.
O Recueil tinha o objetivo de apresentar, desenhados em uma mesma escala, edifícios relevantes de todos os gêneros, novos ou antigos, e em vários países. Os edifícios eram comparados entre si, sugerindo, segundo Villari (1990, p. 55), a idéia de investigação em que a arquitetura – “concebida como um modelo de organização funcional para a atividade humana” – seria uma representação das formas da vida social e do modo de vida. Nessa direção, o trabalho de Durand no Recueil pode ser entendido como um levantamento sistemático de exemplares precedentes, que podem ser usados de forma a constituir-se, na mente do estudioso arquiteto, em fonte de conhecimento e cultura.
As intenções de Durand eram as de apresentar plantas e elevações dos edifícios analisados na forma mais limpa possível. Para ele, o desenho era apenas um instrumento de representação da arquitetura dos edifícios, uma transcrição tecnográfica (VILLARI, 1990). Em suma, Durand buscava uma representação o mais fiel possível da anatomia do edifício, descartando efeitos meramente decorativos e concentrando-se nas definições mais puramente geométricas do projeto, para ele os princípios genéricos da Arquitetura (MADRAZO, 1995).
Vê-se que o Durand do Recueil não desmerece o Durand do Précis. Neste livro, Durand (2000) propunha um método de projeto baseado em três etapas. A primeira, cujo objeto são os elementos da arquitetura, está concentrada em alvenarias, colunas, arcadas etc., analisadas dos pontos de vista da qualidade do material e de seu uso, ou seja, a tecnologia construtiva (VILLARI, 1990).
A segunda etapa do método de Durand se dirige à composição, a qual ele mesmo definia como um processo de agregação ou encaixe (assamblage) dos elementos e das partes da arquitetura. Nas palavras de Durand:
em primeiro lugar, devemos ver como os elementos da arquitetura deveriam ser combinados entre si e como deveriam se encaixar no todo, tanto no plano horizontal quanto no vertical; em segundo lugar, devemos verificar como, por meio das combinações de elementos, as partes do edifício – como pórticos, átrios, vestíbulos, escadas interiores e exteriores, cômodos em geral, pátios, fontes – são obtidas. Se julgarmos
o resultado satisfatório, devemos então combinar as partes para compor o edifício (DURAND, 2000, p. 119).
Na terceira etapa do Précis, Durand examina diversos edifícios com respeito a suas funções, como elas se combinam e como se traduzem espacialmente, para finalmente estudar a articulação desses espaços (DURAND, 2000). Para Villari (1990), o resultado desse processo é uma classificação tipológica que, entretanto, só tem sentido quando está relacionada com as duas etapas anteriores. Assim, embora Vidler (1977) atribua a Durand a paternidade do moderno conceito de tipologia, não parece ter sido a categoria do edifício, assim definida pela função, o objeto central das preocupações de Durand.
Com efeito, Oeschlin (1985) ressalta em Durand o apego à geometria, a suas formas básicas e à riqueza de possibilidades que se abrem mediante a articulação dessas formas básicas em formas cada vez mais complexas. Se, lembra Oeschlin, o Précis mostra precisamente como edifícios existentes podem ser reduzidos geometricamente até serem “anatomicamente” dissecados em partes constituintes singelas, isso se deve a que Durand estava realmente interessado em tornar legível na arquitetura pregressa a vinculação entre categorias de edifícios e determinados arranjos compositivos, organizados a partir de formas elementares da geometria plana. Ou seja, a partir das formas das figuras geométricas, reconhecer o pensamento arquitetônico a elas subordinado.
Além disso, Picon (2000) acredita que o método proposto no Recueil representa para Durand a formalização do material histórico através da redução para o essencial para uso no processo projetual concreto. Assim, a relação entre a sistematização da geometria e da história forma premissas fundamentais para uma introdução racional da tipologia.
É admissível, então, ressaltar na obra de Durand a catalogação extensiva de alternativas de composição no plano dos elementos da arquitetura, em um primeiro nível, e de articulação entre partes da arquitetura, no segundo. Daí pode-se depreender que o esforço tipológico de Durand se concentra, não no edifício (ou seja, não na visão de tipo edilício de Pevsner, 1976), mas no método. Essa leitura pode ser reforçada com o uso de palavras do próprio Durand no Précis:
Combinar diferentes elementos entre eles, e daí formar partes do edifício que, combinadas entre si, formam o todo – este é o caminho a seguir quando se deseja aprender a compor; quando se compõe, o caminho é ao contrário, começando do todo para as partes e daí para os detalhes
A idéia subjacente é de que uma mesma via é seguida em sentidos diferentes, um para o processo de análise, outro para o de síntese. O processo criativo do arquiteto, propõe Durand, deve ser iluminado pelo conhecimento das soluções de composição (o catálogo de soluções pregressas), mas não pressupõe nem uma atitude passiva de incorporação de formas-tipo adequadas a funções, nem a rigidez de um processo pré-definido.
O trabalho teórico de Durand carrega a marca do novo contexto técnico-científico de seu tempo. Em muitos aspectos, tanto na definição dos elementos de arquitetura ou teorizando o uso de tipos arquitetônicos, ele retomou e completou o trabalho inacabado de Boullée e Ledoux. Mas, segundo Picon (2000), houve um preço a ser pago: desaparecem os aspectos mais “poéticos” e em seu lugar está um “método”. Pérez Gómez (1983), inclusive, chegou a chamar Durand de arquiteto “enxuto”, um possível eufemismo para “limitado” ou “redutor” da complexidade da arquitetura a um plano puramente racional.
Para De Fusco (1990, p. 72), entretanto, Durand “elabora uma tipologia morfológica com flexibilidade e capacidade de adaptação a demandas e usos funcionais diversos do edifício singular”, concebendo aí um mecanismo de análise ajustável a qualquer edifício. Dessa forma, a abordagem tipológica de Durand – embora sua técnica de projetação possa parecer hoje ingênua ou simplista – aponta significativamente na direção do entendimento de como o ato arquitetônico de projetar opera com elementos geométricos estruturais, articulando-os por meio de soluções combinatórias para propor espaços arquitetônicos complexos (MADRAZO, 1995).