No Brasil, os estudos sobre sociedade civil (na linguagem dos ―movimentos sociais‖) e os estudos sobre violência iniciaram nos anos 80206, atingindo o auge na década de 90. Os anos oitenta marcaram então a explosão do associativismo por um lado e da criminalidade
205 A opção por um único capítulo foi sugerida pela Banca de Qualificação. Pensou-se que a reunião de ambas as
experiências levaria a um exame mais cirúrgico e concentrado, tornando também a leitura mais dinâmica e interessante. De outro modo, correr-se-ia contra o tempo e um risco de desequilíbrio analítico maior - já que o caso do Brasil possui outros aspectos importantes ausentes em Portugal (ex. Referendo de Outubro de 2005).
206 As principais contribuições sobre violência, Segurança Pública e crime organizado no Brasil provêm dos
estudos de Alba Zaluar, Sérgio Adorno, Luis Eduardo Soares, Glaúcio Ary Dillon Soares, Michel Misse, Ignácio Cano, Cláudio Beato, José Vicente Tavares. Sobre Direitos Humanos: Fábio Konder Comparato, Hélio Bicudo, Flávia Piovesan, Paulo Sérgio Pinheiro.
violenta por outro207. Por sua vez, o diálogo e o cruzamento entre os estudos da sociedade civil e violência começaram na década de 90 e foram intensificados a partir dos anos 2000, quando o campo das Políticas Públicas, particularmente o da Segurança, passou por um processo de maior abertura e democratização208. As pesquisas sobre violência em geral e sobre o controle de armas de fogo em particular foram desenvolvidas por um grupo de pessoas que transitavam ao mesmo tempo no espaço acadêmico e no espaço de militância da novidade das ONGs. O boom dessas organizações na década de 90 significou para muitos militantes da esquerda tradicional um novo jeito de ―lutar‖ no Brasil. Este jeito indicava que o Estado não devia mais ser tratado como um inimigo incondicional, mesmo que isso gerasse outros inimigos, vindos agora da própria sociedade civil. Estes últimos passaram a denunciar a domesticação e a onguização dos movimentos sociais.
Portugal também testemunhou o fenômeno das ONGs na década de 80. Assim como o Brasil possui a Associação Brasileira de Organizações não-governamentais (ABONG)209, Portugal abriga desde 1985, seu ano de entrada na Comunidade Europeia, a Plataforma Portuguesa das Organizações Não Governamentais (ONGD)210. Mas, diferentemente do Brasil, Portugal projeta a imagem de uma sociedade civil fraca (SANTOS, 2002, p. 63). Santos, ao oferecer uma explicação para este tipo de percepção (Ibid.), sugere que Portugal simplesmente não possui um modelo ―hegemônico‖ de organização na sociedade. Para o sociólogo português, o que se presencia é uma ―sociedade organizada informalmente segundo modelos tradicionais de solidariedade social‖ (Ibid., p. 64). Esta sociedade-providência buscaria suprir as mazelas do Estado providência e seria marcada ―pelas redes de relações de
207 Para Zaluar (2007, p. 31) o fato de que o processo de democratização, que começou em 1978, ter sido
acompanhado por taxas crescentes de criminalidade, constitui um grande paradoxo a ser analisado.
208
Assim como as Relações Internacionais, as Políticas Públicas conformam uma subdisciplina da Ciência Política (GOODIN & KLINGMANN, 1996), que se desenvolveu no acompanhamento da modernização das instituições públicas administravas e burocráticas, em função da adoção do Estado de Bem-Estar Social de inspiração keynesiana no mundo ocidental. A partir da década de 80, este campo passou a ser bastante influenciado pela teoria neo-institucional, pensando no papel que as regras e instituições jogam sobre a formação das preferências dos decisores públicos (policy makers). No Brasil recente, observa-se um crescimento desta área, inclusive na inauguração de cursos próprios de graduação. Dois modelos podem ser particularmente profícuos quando o controle de armas é pensado em termos de políticas públicas e formação de agenda (agenda
building e agenda setting): um que concebe as políticas públicas como um ciclo deliberativo, envolvendo ―os
estágios de definição de agenda, identificação de alternativas, avaliação das opções, seleção das opções,
implementação e avaliação‖; outro que lança a importância das arenas e redes sociais na ―divulgação de
indicadores que desnudam a dimensão do problema; eventos tais como desastres ou repetição continuada do mesmo problema; e feedback, ou informações que mostram as falhas da política atual ou seus resultados
medíocres‖ (SOUZA, 2006, p. 29 e 32). Trata-se de um modelo, portanto, que vêm de fora do Estado (outside
initiative model) (COBB et al, 1976). A sociedade civil pode muitas vezes desempenhar um papel fundamental
no que tange à publicização da repetição continuada do problema, dotando os fatos de sentido e produzindo
acontecimentos (MENDONÇA, 2007).
209 Constituída em 1991, comporta hoje cerca de 245 associações. 210 Constituída em 1985, comporta hoje cerca de 50 associações.
interconhecimento, de inter-reconhecimento e de ajuda mútua baseadas em laços de parentesco, de vizinhança e comunitários, através dos quais pequenos grupos sociais trocam bens e serviços numa base não mercantil e segundo uma lógica de reciprocidade (...)‖. Em outras palavras, o autor defende a existência de redes de capital social em Portugal, marcado fortemente pelo componente rural ainda predominante no país.
Ainda que os estudos sobre o associativismo em Portugal não se comparem pelo menos em termos quantitativos com os estudos feitos no Brasil, a produção portuguesa sobre sociedade civil e democracia vem crescendo de forma significativa. Neste sentido, explorar o campo da sociedade civil em Portugal em relação ao controle de armas pretende também contribuir para desmistificar o mito da fraqueza de suas organizações. Assim, sugere-se que tal suposição condiz muito mais com a ausência de investigações mais sistemáticas do que com forças ―contra-hegemônicas‖ singulares de atuação.
Brasil
Especialmente nas grandes metrópoles do país, a década de 90 foi marcada pelo aumento dos índices de criminalidade violenta - roubo, tráfico de drogas, sequestros e homicídios (ADORNO & SALLAS, 2007, p. 12; ZALUAR, 2007, p. 43). Em vários momentos desta Tese, sugeriu-se que isto é uma tendência mundial (KALDOR, 2001; MOURA, 2005; NAÍM, 2005), diagnóstico confirmado por Adorno & Sallas e Zaluar (Ibid.). Tal ponderação é essencial, pois muitas das condições que permitiram a explosão da violência urbana, armada e organizada não são exclusivas ao Brasil: a globalização econômica neoliberal, as atividades e os mercados ilícitos, as mudanças nas tecnologias de informação e telecomunicação, as mega-cidades com milhões de habitantes e bolsões de pobreza, o empobrecimento e as desigualdades sociais, o acesso fácil às armas de fogo.
No caso brasileiro, o país aprofundou seus processos de modernização, industrialização e urbanização principalmente a partir da década de 50. O crescimento populacional e a busca por melhores condições de vida nas grandes cidades foram elementos responsáveis para a transformação de um Brasil predominantemente rural em urbano - tendência acentuada a partir da década de 70 e consolidada nos anos 2000. O regime militar - não obstante a concessão de alguns Direitos Sociais - suprimiu os Direitos Civis e Políticos de toda a população. Na época, o sentido da Segurança Nacional anulou o sentido da Segurança Pública como direito social e dever do Estado. O milagre econômico ao beneficiar uma minoria de setores, aumentou o abismo entre ricos e pobres, concentrou a renda e aprofundou
as desigualdades sociais e econômicas no país. Assim, na década de 80 os 10% dos mais ricos concentravam praticamente 60% da renda nacional, em uma população que crescera em 50 milhões de pessoas desde a década de 60. Paralelamente, as taxas de empregos nos setores secundários e terciários superaram aquelas do setor primário (CARVALHO, 2008, p.169).
A discussão sobre Segurança Pública no Brasil veio acompanhada pela discussão sobre Cidadania ao longo da década de 80. A luta pela redemocratização e pela conquista de amplos direitos foi garantida pela Constituição de 1988, que consolidou institucional e juridicamente o segundo período democrático no Brasil, contando com amplos segmentos da sociedade civil para sua elaboração. A Segurança Pública ficou ao cargo das Polícias Federal, Civil e Militar, sendo a administração destas duas últimas descentralizada em cada Estado da Federação. Desta forma, os governos estaduais tiveram de enfrentar desafios de acordo com as novas realidades demográficas, econômicas e sociais. Mas, de uma maneira geral, a crise da Segurança Pública e a precariedade do sistema judicial foram extensivas a todo o Brasil: as práticas autoritárias herdadas do regime militar pelas forças de segurança, a impunidade diante as arbitrariedades desses agentes, o aumento da população carcerária, as condições desumanas dos presídios, a ineficiência do combate ao crime, a corrupção policial, o aumento da violência criminal, do tráfico de drogas e armas, a falta de oportunidades dignas para todos.
Em outro lugar, quando se trabalhou com a interação entre a sociedade civil nacional e global na luta pelos Direitos Humanos no Brasil, foi observado que as principais denúncias de violação aos mesmos diziam respeito aos Direitos Civis mais primários. Naquela investigação, surpreendeu o fato de que não obstante o Estado ter pela primeira vez oficializado um Sistema Nacional de Direitos Humanos, ele foi seu principal violador. Esta incongruência se deveu, sobretudo, à cumplicidade ou omissão com diversas denúncias em relação às práticas de tortura institucionalizada, os maus-tratos penitenciários e as execuções extrajudiciais no campo e na cidade211.
Para se ter uma ideia somente na década de 90 ocorreram pelo menos seis episódios de execuções sumárias no Brasil que percorreram as notícias do mundo: o desaparecimento dos jovens de Acari (1990), os massacres do Carandiru (1992), Candelária (1993), Vigário Geral (1993), Corumbiara (1995) e Eldorado dos Carajás (1996). Todos eles obtiveram intensa repercussão na opinião pública internacional, pela arbitrariedade do uso da força e violência,
211Dissertação de Mestrado em Ciência Política, UFRGS. ―Estado e ONGs no Brasil: acordos e controvérsias a
pelo número de policiais envolvidos – (?)212, 120, 8, 48, 22 e 155, para 11, 111, 8, 21, 9 e 19 civis mortos, respectivamente (AMNESTY INTERNATIONAL, 1998, 2003) - e pela impunidade da maioria dos julgamentos e pela ameaça às testemunhas213. As execuções sumárias no Brasil são perpetradas, geralmente, por forças policiais - em serviço ou de folga - e por milícias privadas de segurança, mais conhecidas como ―esquadrões da morte‖, ―justiceiros‖ ou ―grupo de extermínio‖214
. As vítimas são, essencialmente, pessoas pobres - meninos de rua, trabalhadores rurais, moradores de favelas, indígenas. Trata-se de um tipo de violência armada contra civis, sobretudo por forças não-civis (Estado) e anticivis (milícias215) que não raro se cruzam.
De outra parte, a organização de grupos anticivis no Brasil, agrupadas pela expressão ―crime organizado‖, pode ser observada desde a década de 80. Grupos como ―Falange Vermelha‖ e ―Serpentes Negras‖ foram subprodutos da convivência entre presos políticos e comuns no presídio de Ilha Grande no Rio216 (ADORNO & SALLAS, Ibid). O ―Comando Vermelho‖ (CV) do Rio - criado nos anos 80 por lideranças politizadas (MISSE, Ibid., p. 151) - e posteriormente o ―Primeiro Comando da Capital‖ (PCC) em São Paulo, apresentaram a capacidade de mobilização das massas carcerárias, atuando dentro e fora da prisão. Interessante notar que este último notabilizado nacionalmente depois dos ataques de 2006 que paralisou São Paulo, foi constituído um ano depois do massacre do Carandiru, no Anexo da Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, em São Paulo. O PCC chamava por
justiça e foi constituído como resistência aos maus-tratos dos agentes penitenciários. Os analistas sobre violência no Brasil não hesitam em afirmar que a introdução do tráfico de drogas, associado ao tráfico de armas, deixou o crime mais cruel e sanguinário no Brasil:
212 A luta das ―Mães de Acari‖ se tornou mundialmente conhecida. Através dela, sabe-se que os sequestros dos
11 jovens que moravam na favela de Acari, no Rio de Janeiro, foram policiais militares. Até hoje, os corpos não foram achados e os policiais não foram identificados.
213
A mais ativa das Mães de Acari foi assassinada em 1993 depois de testemunhar no tribunal.
214 Os esquadrões da morte surgiram em São Paulo no final dos anos 60 (BICUDO, 1994). Sua atuação, porém,
estendeu-se a todo território nacional. Os ―Cavalos Corredores‖ e os ―Meninos de Ouro‖ são grupos que atuaram, respectivamente, no Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte. Na Bahia, nos primeiros sete meses de 2001, esquadrões da morte compostos por policiais civis e militares de folga, mataram 159 pessoas em Salvador (AMNISTÍA INTERNACIONAL, 2002).
215 Milícia é um termo que adquiriu um sentido próprio no Brasil de hoje, ainda que não sejam novas as suas
práticas. As milícias que invadem as favelas e os morros - especialmente, mas não somente no Rio - são formadas por policiais moradores ou aposentados que oferecem proteção às comunidades, expulsando ou não deixando entrar os traficantes de drogas. O grande problema é que esses serviços são cobrados dos moradores e os milicianos não aceitam recusa. A comunidade permanece então subordinada a outro grupo armado, não menos violento (MISSE, 2007).
216 O cinema brasileiro contemporâneo tem produzido uma série de filmes e documentários que abordam o tema
Surgiu, então, uma nova organização complexa, diversificada e muito bem armada, na qual os conflitos comerciais e pessoais foram resolvidos com armas de fogo, e na qual foram criados um culto viril e exibições violentas de poder. Isso criou as condições que atraíram muitos jovens pobres a se envolver nessa guerra mortal entre
traficantes, mas que permaneceu restrita a algumas áreas da cidade. Contrariamente às máfias ítalo-americanas, essa organização no Rio de Janeiro jamais contou com os laços estáveis de lealdade que existem entre pessoas relacionadas por parentesco ritual ou de sangue. Se havia algum no jogo do bicho, o tráfico de drogas, como aliás também ocorreu na máfia italiana facilitando a sua desagregação (Luppo, 2002), tornou muito mais difícil de ser mantido qualquer elo de lealdade pessoal, vertical ou horizontal. Os conflitos, deveras, são muito mais comuns para acertar as contas e distribuir a riqueza e o poder (ZALUAR, 2007, p. 45).
Na ausência de qualquer espécie de ―capital social‖, cinco são as características das organizações criminosas destacadas por Mingardi (2007, p. 56): hierarquia, previsão de lucros, divisão do trabalho, planejamento empresarial e simbiose com o Estado. Nesta configuração, observam-se os elementos não-civis do Estado e do Mercado estruturados a partir de métodos anticivis, seja sobre seus membros, seja sobre a comunidade sobre a qual se disputa hegemonia. Nas favelas, morros e periferias, o poder sobre a comunidade é disputado por traficantes, polícias e milícias. A associação de moradores geralmente é a primeira a ser ameaçada. É uma disputa constante entre as forças anticivis para o controle da população e associações civis. A corrupção da Polícia transforma sua essência não-civil em anticivil: ―Não se pode entender as formas de organização da criminalidade no Rio de Janeiro se não se atentar para o importante papel cumprido por grupos de policiais - entre outros agentes do Estado - na manutenção do status quo” (MISSE, 2007, p. 155).
Um dos efeitos mais perversos da face da violência urbana, armada e organizada no Brasil é o sentimento de medo e insegurança que ela gera217. É certo também que isso é sentido, vivido e sofrido diferentemente por ricos e pobres218. Em 2005, uma faixa exposta na manifestação da Rede contra a Violência do Rio de Janeiro, lia-se: ―Os ricos querem paz para
217 O medo é uma experiência subjetiva, mas quando é sentido simultaneamente por várias pessoas em uma
sociedade, ele pode repercutir no comportamento político e social de forma imprevisível. O medo é uma resposta a uma percepção clara de perigo; essa percepção é dada quando o indivíduo toma a consciência da magnitude da ameaça ou da sua impotência diante a mesma. O medo pode ser convertido em terror ou em pânico. Já a insegurança emerge quando existe uma mudança real no ambiente (social e espacial) ou uma mudança imaginada nos padrões da vida cotidiana (SALIMOVICH et al, 1992, p. 72, 73). Agradecimento à Caroline Bauer, colega e amiga, por esta preciosa referência.
218
Misse (2007) sustenta que particularmente no caso do Rio de Janeiro esse sentimento não é novo, podendo ser observado desde a década de 70. Segundo ele, já nesse período, o que fez a classe média carioca erguer muros cada vez mais altos, foi o aumento dos assaltos, arrombamentos e furtos em bancos, carros e residências. Nesta
época, o tráfico de drogas ainda não existia, sendo o ―jogo do bicho‖ o eixo estruturante do crime. Para a entrada das drogas no jogo do bicho e a derrocada de Castor de Andrade, ver Meinel, ―Avestruz, águia e... cocaína‖
continuar ricos. Nós queremos paz para continuar vivos219‖. A classe média, podendo pagar por segurança privada, contrata vigias particulares, blindam seus carros e encarceram-se: ―o medo reativo, histérico, o medo transformado em paranóia e pânico, habitantes de bunkers, condomínios fechados, cidadelas medievais‖ (VENTURA, 1994, p. 138). Por seu turno, as coberturas midiáticas da violência ganham ares de sensacionalismo, reproduzindo um círculo vicioso: ao espetacularizar a violência alimentam o sentimento de medo e fundamentam a intolerância absoluta no combate à mesma. Comuns são as propostas de endurecimento e repressão ao crime: ―Bandido bom é bandido morto220‖. Se a luta pelos Direitos Humanos é sempre uma luta contra a violência, o contrário então nem sempre é verdadeiro. E, vale adiantar que neste cenário, tornou-se muito difícil o convencimento do cidadão comum de que a proibição do comércio de armas de fogo e munições não iria beneficiar os ―bandidos‖, por ocasião do Referendo de Outubro de 2005.
As duas ONGs que desempenharam um papel de liderança na frente pelo Desarmamento no Brasil em 2004 e 2005 surgiram justamente nesta atmosfera de medo e insegurança. O Movimento Viva Rio, criado em 1993 na cidade do Rio de Janeiro, e o Movimento Sou da Paz, criado em 1997 na cidade de São Paulo, compartilham das seguintes características: de ―movimentos‖ locais reativos, tornaram-se ONGs nacionais e partícipes da SCG; valeram-se desde o início do apoio da mídia, campanhas publicitárias e apoio de artistas famosos; organizaram mobilizações de rua, passeatas e marchas para a sensibilização popular. Ambas são pioneiras em chamar a atenção da sociedade para o papel que as armas de fogo desempenham nos cenários de violência apresentados, sem qualquer inspiração internacional em um primeiro momento221.
Essas organizações, no entanto, diferenciam-se bastante entre si e possuem uma importância distinta na projeção nacional e internacional do problema das armas de fogo. O Movimento Sou da Paz tem sua origem no ano de 1997. Um grupo de estudantes da Faculdade de Direito da USP tomou conhecimento de um estudo publicado pelo Núcleo de
219 Ver imagem na Galeria de Fotos (Anexo VIII).
220―Hoje, com a questão de defesa dos direitos humanos, os vagabundos estão achando que podem fazer o que
querem... O eleitor tem que entender a minha posição e votar comigo, sabendo que criança de dezessete anos que morreu na Candelária, como disse aqui e volto a dizer, se morrer mais alguma, pago o caixão e ainda dou prêmio
a quem matou‖. Declarações feitas pelo Deputado Estadual Wolney Trindade (PDT-RJ), em 2002, na
Assembleia do RJ (ANISTIA INTERNACIONAL, 2003, p. 14).
221 Por isso a ênfase nestas duas organizações, especialmente na Viva Rio. Este recorte não faz esquecer as
centenas de associações civis que existem no Brasil comprometidas com a Justiça, Direitos Humanos e Segurança Pública. Muitas delas inclusive não possuem espaço na mídia. Vários movimentos comunitários nas periferias atingidas pela violência podem lutar tanto quanto estas organizações mais profissionalizadas, como por exemplo, as mães, familiares e vizinhos das vítimas da violência armada e policial (MOURA, 2007).
Estudos da Violência da USP que alertava para a letalidade das armas de fogo sobre os jovens no Brasil. A prática daquele centro acadêmico em propor anualmente ações de diálogo com a sociedade para além da universidade motivou o lançamento da campanha nacional chamada ―Campanha dos Estudantes Sou da Paz pelo Desarmamento‖ (MAIOR, 2009, p. 150). Segundo o site da organização, o recolhimento de 3.500 armas entre os meses de Agosto e Dezembro seguido de destruição pública foi o primeiro do país. Nesta campanha estiveram empenhadas cinco entidades estudantes que receberam apoio da OAB e de agências de publicidade. Tornando-se uma OSCIP (Organização Social de Interesse Público) em 1999, o Instituto Sou da Paz passou posteriormente a trabalhar pela mudança da legislação nacional e se projetar nas redes nacionais, regionais e globais222. Atualmente, a ONG possui quatro eixos de ação: Adolescência e Juventude, Controle de Armas, Gestão Local da Segurança Pública e Polícia. Um trabalho publicado recentemente intitulado ―Implementação do Estatuto do Desarmamento: do papel para a prática‖ (2010) mostrou seu compromisso no monitoramento de políticas públicas pelo qual se compromete publicamente223 e sua capacidade de produção de informação - ainda que não especializada em armas de fogo224.
Esta capacidade constitui a linha de frente diferencial da Viva Rio. A ONG destaca-se pela atuação singular na produção de pesquisas sobre armas de fogo - que inspirou um trabalho recente em Portugal como se verá mais adiante e também em outros países; na