Inicialmente, uma pequena digressão levantada por Salinas (1994) fundamenta a importância da sonoridade no processo de cognição e veiculação de conteúdos elaborados pelo homem:
Inúmeras culturas consideram o som como ponto de origem de todas as coisas: hindus, egípcios e gregos são povos que ilustram essa tradição. Na Índia é considerado um símbolo fundamental: o som está na origem do cosmo. Se a Palavra, o verbo (Vak), produz o universo, é através do efeito das vibrações rítmicas do som primordial (nada). Nada é a manifestação do som (shabda), da qualidade sonora, que corresponde ao elemento Éter (akasha). Tudo o que é percebido como som, dizem os textos, é xácti, i.e, Força divina (SALINAS, 1994, p.25 apud BARBOSA FILHO, 2003, p. 76).
A principal expectativa em relação ao rádio digital tem sido gerada em torno de sua capacidade de melhorar significativamente a qualidade do áudio. Apesar de ser, de certa forma, uma perspectiva limitada, uma vez que o rádio digital oferecerá um leque de possibilidades conteudísticas originadas pela convergência com outras mídias e pela interatividade, a questão reflete uma preocupação com o aspecto primordial da mídia rádio: o conteúdo sonoro e, consequentemente, a atenção à cultura do ouvir, apontada por Menezes como imprescindível aos processos comunicativos da atualidade:
Quando nos referimos à cultura do ouvir, advogamos a necessidade de pesquisarmos com maior profundidade as relações entre a visão e a audição nos processos comunicativos. Se, como já observamos, por uma perspectiva temos o olho que reduz o mundo a uma imagem bidimensional, em outra temos o ouvir e a percepção da tridimensionalidade do espaço (grifo nosso) (MENEZES, 2008, p. 03).
Ou seja, ainda que a inserção de conteúdos convergentes (que se utilizem de áudio, imagens, dados e até mesmo vídeos), constitua-se numa reinvenção necessária ao rádio, é de suma importância preservar os vínculos sonoros como essência da comunicação radiofônica na contemporaneidade
Garantir o cultivo do ouvir nas transmissões radiofônicas digitais, muito mais que um desafio, significa:
[...] repotencializar a capacidade de vibração do corpo diante dos corpos dos outros, [...] ampliar o leque da sensorialidade para além da visão. Ir além da racionalidade que tudo quer ver, para adentrar numa situação onde todo o corpo possa ser tocado pelas ondas de outros corpos, pelas palavras que reverberam, pela canção que excita, pelas vozes que vão além dos lugares comuns e das tautologias midiáticas (MENEZES, 2008, p. 08).
Corroboramos as ideias do autor e consideramos que os conteúdos radiofônicos, inseridos numa moderna era do ouvir (digital, convergente e interativa), podem garantir o cultivo dos gêneros e formatos sonoros e, assim, “enriquecer os processos comunicativos hoje muito limitados à visão, e nos ajudar a viver melhor num mundo marcado pela abstração” (MENEZES, 2008, p. 08).
Vale ressaltar que se interessar e valorizar a cultura do ouvir não implica em suprimir o potencial multimidiático do rádio digital; contudo, requer a compreensão que tanto o ouvir, quanto o ver, ações de possibilidades simultâneas no novo suporte, demandam atenções de produção específicas e o “cultivo dos próprios limites” (Cf. BAITELLO Jr., 2005 apud MENEZES, 2008, p. 06) na nova linguagem radiofônica.
De acordo com o que apontam os testes já realizados no Brasil, o maior ganho em relação à qualidade do áudio será das rádios que atuam em amplitude modulada – AM, pois elas passarão a ter qualidade similar as de frequência modulada – FM, que por sua vez terão som com qualidade comparada a de CD.
Com esses avanços, o rádio AM, já reconfigurado em formato de som digital, sofrerá um processo justo de revitalização, podendo inclusive dedicar-se à veiculação de
músicas durante seus programas, o que sempre foi um entrave devido à baixa qualidade do áudio transmitido via amplitude modulada.
Por outro lado, a digitalização traz, junto aos avanços na qualidade do som, uma preocupação relativa aos cuidados redobrados que os técnicos e produtores radiofônicos deverão tomar com a exatidão de funcionamento e clareza das informações veiculadas durante a programação, uma vez que a qualidade propiciada pelo digital é capaz de revelar imprecisões no áudio, antes disfarçadas pelo suporte analógico.
Bianco exemplifica alguns casos práticos:
No caso de transmissões externas, a preocupação com essa nova plástica sonora é redobrada. Em partidas de futebol, o áudio poderá sofrer variação dependendo do volume de barulho feito pela torcida, interferindo, às vezes, no relato do locutor. Na reportagem ao vivo, os ruídos do local do acontecimento poderão ficar mais evidentes, atrapalhando a clareza do relato do repórter. Adotar sistemas de proteção contra o excesso de ruídos e repensar até mesmo o tipo de microfones mais adequados à transmissão externa são aspectos a serem considerados diante do digital (BIANCO, 2009, p.65).
A infinidade de possibilidades a serem desenvolvidas na estrutura de narrativa envolvendo o código sonoro, mobilizando a produção de sentidos através da audição em sincronia com a imaginação das audiências radiofônicas, merecerá, portanto, cuidados especiais, pois, como também examina Bianco:
A fidelidade do som levará provavelmente à supressão de algumas práticas comuns no rádio brasileiro na gravação de programas e de spots, como colocar a música de fundo (BG) “muito presente” para compensar a perda de qualidade na transmissão, especialmente para veiculação no AM onde os sons graves têm maior destaque. O mesmo cuidado será essencial em relação às vinhetas de emissoras FM jovens que optam por um estilo excessivamente rebuscado, repleto de efeitos sonoros, musicais e locução “eletrizante”. Esse ritmo “quente” de fazer rádio acaba sendo amenizado pela perda de qualidade na transmissão analógica (BIANCO, 2009, p.66).
A atenção da autora está, portanto, na valorização da estética sonora típica do fazer radiofônico criativo, o que para nós não significa “esfriar” a produção de sentidos no rádio, mas atentar para o aperfeiçoamento da construção imaginativa das audiências. Afinal de contas, essa é grande magia do rádio - “criar imagens auditivas”-, como afirma McLuhan:
O rádio afeta as pessoas, digamos como que pessoalmente, oferecendo um mundo de comunicação não expressa entre o escritor-locutor e o
ouvinte. Este é o aspecto mais imediato do rádio. Uma experiência particular. As profundidades subliminares do rádio estão carregadas daqueles ecos ressoantes das trombetas tribais e dos tambores antigos. Isto é inerente à própria natureza deste meio, com seu poder de transformar a psique e a sociedade numa única câmara de eco (MCLUHAN, 2000, p. 37).
O rádio digital será capaz de ampliar e estimular ainda mais a capacidade imaginativa dos ouvintes, trabalhando diferentes planos e transmitindo conteúdos inseridos em ambiências ainda mais interativas e convergentes. Assim articula Bianco:
Se o ouvir está vinculado ao universo do sentir, da vibração da pele, é possível pensar que o som digital traga um novo “ruído” ao ambiente tecnológico contemporâneo marcadamente visual, onde se vê sem ouvir, numa espécie de “surdez intencional” ou de surdos na civilização da visualidade” [...] O som digital propicia uma ambiência imaginativa ampla (percepção de diferentes timbres), e nítida que estimula o ouvir e sentir, para se ver e sentir (BIANCO, 2009, p.66).
Como também analisa a autora, é preciso entender que no rádio digital, os ruídos, os efeitos, a música estão a serviço de ideias, sentidos, discursos construídos na mente do ouvinte. “Ao contrário da televisão, em que as imagens são limitadas pelo tamanho da tela, as imagens do rádio são do tamanho da imaginação do ouvinte. Os sons no rádio criam um mundo visual acústico” (BIANCO, 2010, p.98). Certamente essa capacidade de construir ambiências inventivas diversas será aprimorada pelo rádio digital, que também, não pode se privar de criar tais ambiências através de suas novas funcionalidades, como a veiculação de imagens e outros dados a partir do novo suporte, um receptor inteligente, assim denominado porque permite a manipulação do sinal de recepção.