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O sentido de indícios formais pertence às considerações fenomenológicas. Mas o que é

fenomenologia? O que é fenômeno?

Tudo aquilo que pode ser vivido e experimentado na vida fática pode ser recolhido como fenômeno. Em outros termos, pode ser considerado segundo o sentido originário, do que é experimentado. De acordo com Heidegger, qualquer fenômeno pode ser recolhido segundo três direções: a) pelo quê (Was) originário, que é experienciado no conteúdo (Gehalt); b) pelo como (Wie) originário em que é experienciado – referência (Bezug); e c) pelo como (Wie) originário no qual o sentido referencial é realização (Vollzug)347. O fenômeno é a totalidade dessas três direções (conteúdo, referência e exercício), que não podem simplesmente ser colocadas uma ao lado da outra.

A fenomenologia nada mais é do que a explicação desta totalidade de sentido. É a explicitação do logos do fenômeno; logos não no sentido de logicização, mas de “verbo interno” (verbum internum), que apresenta o fenômeno348. O conteúdo da compreensão é proveniente do próprio fenômeno e não da atitude teórica. Seguindo esse esquema intencional, a fenomenologia trabalha a partir dessa tríade e alcança a compreensão do fenômeno na sua totalidade. Embora nada afirmem sobre o “quê” (Was) que pretendem determinar, as determinações ontológico-formais dessa compreensão da fenomenologia promovem algum juízo prévio? Afirma Heidegger:

Precisamente por ser de todo formal e indiferente com relação ao conteúdo (die formale Bestimmung inhaltlich völlig indifferent ist), a determinação formal é fatal para a referência e o exercício do fenômeno, já que prescreve um sentido referencial teórico ou ao menos o inclui em sua prescrição349.

Ou seja, ela encobre o que é relativo ao exercício, e dirige-se unilateralmente ao

conteúdo. Um olhar panorâmico sobre a história mostra que a nota formal e teórica do objetivo domina plenamente a filosofia.

Em contrapartida, os indícios formais devem promover a “prevenção contra o juízo prévio”350. O que denominamos de formal deve ser pensado apenas como momento teórico da explicação metodológica da fenomenologia, que enfatiza o aspecto da relação. Afirma Heidegger:

347 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 63.

348 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 63. Cf. também: HEIDEGGER, M. Sein

und Zeit, p. 34; HEIDEGGER, M. Que é isto – a filosofia? p. 21.

349 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 63. 350 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 63.

O indício deve indicar por antecipação a referência do fenômeno (Bezug des Phänomens). Mas em sentido negativo, como se se tratasse de uma advertência (Warhnung). Um fenômeno deve ser previamente dado, de tal modo que seu sentido referencial permaneça suspenso (Schwebe). Deve-se evitar que o sentido referencial assumido seja originariamente teórico. A referência e o exercício do fenômeno não se determinam de antemão (nicht im Voraus bestimmt), mas estão em suspensão, à espera de concretização351.

É precisamente o fato de não haver nenhuma determinação previamente estabelecida que a fenomenologia se opõe frontalmente à ciência. O indício formal é uma defesa (Abwehr), uma salvaguarda contra o asseguramento prévio (vorhergehende Sicherung), de modo que o caráter executivo da vida permaneça livre. A fenomenologia mantém o sentido relacional à distância, e evita qualquer inserção do objeto em um campo temático. Para Heidegger, essa necessidade se justifica como precaução, por conta da tendência decadente da experiência fática da vida que ameaça constantemente desviar-se, extraviando-se no objetual352. A fenomenologia, em contrapartida, procura ressaltar e recolher os fenômenos.

Com o emprego da noção de indícios formais, Heidegger introduz a distinção entre o conhecimento fenomenológico desobjetivado e o conhecimento obtido pelas ciências particulares modernas. Os conceitos científicos baseiam-se na generalidade, ao passo que a filosofia não se dirige a um objeto, nem parte da análise teórica de enunciados e proposições. O processo filosófico é originário da experiência pré-predicativa do Dasein prático. Por isso, os conceitos filosóficos apontam para o modo originário do Dasein como ser-no-mundo. Nesse sentido, podemos considerar os indícios formais como conceitos fundamentais ou existenciais que explicam a compreensão que a vida fática possui do próprio ser. Para Heidegger, a compreensão desse instrumental é fundamental para não sucumbirmos à “consideração atitudinal” (einstellungsmässige Betrachtung) ou à demarcação regional do ser, que sempre introduz uma “compreensão previamente apreendida” (vorgefasst Meinung) do problema353.

Com os indícios formais, Heidegger coloca à disposição um instrumental adequado que atende à necessidade de interpretar filosoficamente o ser-aí humano na sua faticidade. Ao mesmo tempo, promove uma crítica à estrutura conceitual rígida da tradição filosófica, onde predomina o modo de pensar metafísico e prevalece a tendência de observar a realidade como algo em si mesmo presente, concebendo ingenuamente o mundo como o lugar onde se encontram objetos naturais, como substâncias neutras, independentes, acessíveis, à apreensão

351 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 64. 352 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 64. 353 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 55.

humana. Para a tradição, o ser é captado como presença constante. A compreensão do ser-aí humano e sua história estiveram vinculadas à unidade do pensar metafísico e, por conseguinte, imitaram a ontologia das ciências naturais. A indistinção entre ser e objetos presentificados consiste na confusão entre ser e ente, o que Heidegger denomina de esquecimento do ser. Dessa forma, o sentido do ser não pode ser encontrado no âmbito da ciência que pesquisa algo objetivo.

Assim, podemos estabelecer a distinção entre os termos indícios formais, formalização e generificação, a qual Heidegger pretende promover no seu curso Einleitung in die

Phänomenologie der Religion. Todos esses termos são atitudes teórico-metodológicas mediante os quais as coisas são ordenadas, diretamente na generalização e indiretamente na formalização. Entretanto, os indícios formais não se constituem em caminho de ordenação. Não são esclarecidos a partir de ordem ou classificação, mas conduzem tudo de forma não decidida. São apenas indicações do fenômeno, e ocorrem unicamente a partir da possibilidade da compreensão fenomenológica. Desse modo, eles não assumem a forma teórica da filosofia tradicional, baseada na determinação universal da objetividade. O filosofar, para Heidegger, constitui-se no exercício fenomenológico dos indícios formais.

A partir dos resultados obtidos pela análise metodológica dos indícios formais, Heidegger pode retornar ao problema inicial do histórico, como determinante da filosofia enquanto via de acesso para a compreensão do fenômeno religioso.

Seu ponto de partida foi a definição do histórico, formalmente anunciado como “o que vem a ser temporalmente e, como tal, se torna passado”. Essa determinação, porém, mostrou- se insuficiente para designar o mundo histórico objetual, em seu caráter histórico estrutural, e para produzir uma definição que envolve o sentido último e mais geral do histórico como tal. A noção “temporal” mostra-se como possibilidade de novo caminho, na medida em que é tomada de forma provisória, em sentido vago e totalmente indefinido, sem saber de que tempo se trata. Na medida em que o sentido permanece indeterminado, poderia ser assumido como algo que não estabelece nenhum juízo prévio. Poder-se-ia pensar também que, assim como toda objetividade se constitui na consciência, o temporal, enquanto objetividade, seguiria a mesma direção. Dessa forma, teríamos obtido o esquema fundamental da temporalidade.

Entretanto, para Heidegger, isso decorre da pura dedução teórica:

Tal determinação geral-formal do tempo não é nenhuma fundamentação (ist keine Grundlegung), mas falsificação do problema do tempo (eine Fälschung des Zeitproblems); pois com ela se prefigura, a partir do teórico, um marco para o fenômeno do tempo354.

O problema do tempo deve ser primeiramente apreendido no contexto da faticidade experimentada, e não da temporalidade que se constitui como algo puro para uma consciência pura. O caminho é, aqui, totalmente diverso.

O acesso ao problema do tempo deve ser obtido da compreensão da experiência fática da vida. Apresentam-se algumas questões: Como a temporalidade em si mesma é

experimentada originariamente na vida fática? O que significa presente, passado e futuro para a faticidade?

O sentido mesmo do histórico pode tornar-se acessível apenas como sentido fundamental da interpretação em um contexto determinado. Isso significa apropriar-se da possibilidade histórica do ser-aí humano, em um mundo faticamente vivido.

Historicidade e compreensão são elementos que caracterizam o ser-aí humano em sua autocompreensão. Ambos significam comportamento livre e originário, por meio do qual se pode colocar a questão acerca do sentido da própria realização existencial em um mundo próprio.

A procura de Heidegger pelo sentido originário do histórico, no período de Freiburg, ocorre nos trabalhos investigativos sobre fenomenologia da vida religiosa, especialmente no curso Einleitung in die Phänomenologie der Religion.

O filósofo se reporta ao contexto da existência fática cristã. No curso Grundprobleme

der Phänomenologie, escreve:

O paradigma histórico mais profundo (Das tiefste historische Paradigma) para o notável processo (merkwürdigen Prozess) de transferência do centro de gravidade da vida fática (Schwerpunktes des faktischen Lebens) nos é dado no surgimento do cristianismo (Entstehung des Christentums). [...] Na vida da comunidade cristã primitiva (Urgemeinden) subjaz uma transformação radical na direção que tende à vida fática (radikale Umstellung der Tendenzrichtungen des Lebens). Nessa vida também estão presentes os motivos para a formação de conjuntos de expressões totalmente novos (die Ausbildung ganz neuer Ausdruckszasammenhänge) que a vida constrói a partir de si própria355.

A vida fática cristã, em sua realização histórica, apresenta-se como ponto de partida para a conquista do sentido da temporalidade. Em outras palavras, a vivência religiosa torna- se aqui chave interpretativa para caracterizar o problema do histórico e para fornecer nova determinação para a filosofia.

Por isso, é vital uma incursão no pensamento histórico teológico-cristão.

2.10 A vivência religiosa enquanto via de apropriação do pensamento histórico. A