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Conforme mostrado anteriormente, a experiência fática da vida é perpassada pelo “caráter de indiferença” que é inerente ao comportamento imediato com o mundo, na sua significância dada. Nosso comportamento cognitivo acentua ainda mais esse caráter, na medida em que “aquilo que é conhecido na experiência direta e imediata com o que vem ao encontro, o simples e primitivo ato de tomar conhecimento”, conserva justamente essa condição de indiferença, em função da significatividade que lhe é intrínseca. O mero tomar conhecimento fático não possui caráter objetivo, científico ou filosófico. Heidegger descreve essa condição:
Na vida fática, escuto conferências científicas em determinada situação (Situation). Pouco depois, no mesmo processo, trato de coisas corriqueiras do cotidiano. Nota-se que se modificou apenas o conteúdo, mas a situação permaneceu basicamente a mesma. Não ocorreu, aparentemente, nenhuma mudança de atitude consciente (nicht zu Bewusstsein). Também os conteúdos objetivos provenientes das objetualidades científicas seguem sendo conhecidos dentro da experiência fática da vida. O mesmo ocorre se estendermos ao máximo grau a tendência referencial e nos ocuparmos com o nexo estrutural da objetividade em geral (Strukturzusammenhang der Gegenständlichkeit überhautp), como a (lógica a priori dos objetos - Husserl)280.
277 HEIDEGGER, M. Die Idee der Philosophie und das Weltanschauungsproblem, p. 5. 278 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 9.
279 INWOOD, M. Dicionário Heidegger. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 60. Verbete “experiência”. 280 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 14.
O sentido referencial inicial com os entes mundanos nos mostra que o transcurso deste experimentar possui caráter completamente indiferente. Mostra ainda que as diferenças daquilo que é experimentado ocorrem apenas em termos de conteúdo. Escreve Heidegger: “A diferença entre sentir-me de um modo em um concerto e, de outro modo, em uma conversação trivial, só se pode experimentar nos conteúdos”281. Em outros termos, o peculiar dessas experiências torna-se consciente pelo conteúdo vivenciado. A participação e inserção no mundo são, pois, completamente indiferentes. Acometem tudo e perpassam todas as atividades levadas a termo, sem inibição.
Em função desse modo imediato e primordial de experimentar o mundo circundante, a relação com os entes que vêm ao encontro ocorre mediante a “queda na significância”282. Para referir-se a essa condição, Heidegger emprega nos seus primeiros cursos o termo Ruinanz, a “queda, decadência ou ruína”. No curso Einleitung in die Phänomenologie der Religion, adota o termo Verfallen, no sentido de decadência ou deteriorização. Com ele, o filósofo não se refere a uma desaprovação moral, mas à propensão intrínseca ao Dasein de conservar-se absorvido ao mundo público e compreender-se a partir da interpretação mundana.
Enquanto modalidade básica da existência humana, a “decadência” nunca desaparece. Por isso, Heidegger afirma que
a experiência fática da vida é a preocupação atitudinal, decadente, referencialmente indiferente e autosuficiente pela significatividade (Faktische Lebenserfahrung is die “einstellungsmässige, abfallende, bezugsmässige-indifferente, selbstgenügsame Bedeutsamkeitsbekümmerung)283.
Caso extrairmos o filosofar, pura e simplesmente, da experiência fática da vida, já o encontraremos numa possível interpretação mundana. Por isso, é inevitável que ele adquira uma postura caracteristicamente decadente. Para Heidegger, mesmo quando se afirma que a filosofia se ocupa “com as primeiras e últimas coisas” (mit den ersten und letzten Dingen), “com os objetos mais supremos e elevados” (mit höheren und höchsten Objekten), a tendência decadente encontra-se presente. Se afirmarmos que o filosofar é relevante ao ser humano, transformamo-lo em construção de “concepção do mundo” (Weltanschauung), pois partimos da compreensão decadente da existência fática que existe um sujeito que apreende o que está ao redor. O mesmo ocorre se concebermos a filosofia como subjetividade. Nesse caso, o sujeito é considerado objeto do sujeito que filosofa (Subjekt als Objekt betracht), que o
281 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 14. 282 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 17. 283 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 16.
apreende284. Em outros termos, a tendência inicial à queda constrói condições que tendem na direção da determinação objetiva da realidade e na regulação da vida.
Assim, as considerações realizadas mostram que a afirmação inicial de que a filosofia é proveniente da vida fática, acarreta dificuldades ainda maiores na autocompreensão do filosofar, porque
a experiência fática da vida mesma encobre (verdeckt) sempre de novo algo como uma tendência filosófica que vem à superfície, através da sua indiferença e autosuficiência. Nessa preocupação autosuficiente (selbstgenügsamen Bekümmerung), a vida fática decai constantemente na significatividade285.
Toda caracterização da filosofia a partir da sua articulação com a ciência objetiva (Artikulation zur Wissenschaft), no sentido de conhecimento conformado, é proveniente justamente da condição decadente da vida fática.
É também a estrutura decadente da faticidade que promove a orientação objetivadora da vida que, posteriormente, orienta a construção do saber científico. A esse respeito Heidegger escreve:
A mera tomada de conhecimento não registra nenhum objeto conformado, mas apenas complexos significativos, que, por sua vez tendem a uma independização (Verselbständigung) que se poderia incluir dentro da “lógica dos objetos” (Logik der Objekte), dos “complexos objetuais” (Objektszusammenhänge) da vida e das referências objetuais. [...] Dentro da tendência decadente da experiência vital, forma- se sempre mais um complexo objetual que se estabiliza cada vez mais. Com isso, se alcança uma lógica do mundo circundante (Logik der Umwelt), na medida em que a significatividade é relevante no complexo objetual286.
Esse modo de proceder caracteriza especificamente o comportamento científico. Do interior da preocupação autosuficiente e da queda na significatividade, a vida fática aspira, incessantemente, a tornar-se ciência e, finalmente, cultura filosófica. Constata-se também essa nova forma de referência ao mundo, por meio dos atos de relatar, comparar, ordenar. Heidegger diz que:
Toda ciência esforça-se continuamente para formar uma ordenação objetual, cada vez mais rigorosa (eine immer strengere Ordnung), isto é, uma lógica temática (Sachlogik), um complexo temático e uma lógica que esteja radicada nas coisas mesmas287.
Assim, em função da referência objetual científica, a filosofia tenderia, certamente, a ser denominada ciência, no sentido de conhecimento conformado.
284 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 15. 285 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 15. 286 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 17. 287 HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 17.
Para Heidegger, a filosofia ocidental caracterizou-se por proceder de acordo com essa tendência teórica. Desde Platão, a filosofia procurou construir um setor objetivo – a objetividade do mundo das idéias – e o acresceu ao domínio da experiência sensível. A mesma tendência é constatada, de alguma forma, na filosofia moderna, com Kant e Fichte, que adotam a “consciência” e o “sujeito”, respectivamente, como seu objeto peculiar288. Com esse procedimento, a filosofia, enquanto filosofia científica, transforma-se em formação rigorosa de determinado setor temático. Sua atitude básica diante dos objetos permanece a mesma das ciências particulares, com o mesmo sentido referencial. A única distinção é a dimensão dos objetos, cuja conexão é explicitada de forma mais profunda.
O que foi exposto acerca da tomada de conhecimento mostrou não ser possível estabelecer diferença essencial entre ciência e filosofia, simplesmente recolhidas na vida fática. Para Heidegger, o motivo da indistinção entre ambas é o seguinte:
A tendência decadente da experiência fática da vida de dirigir-se continuamente aos complexos significativos (Bedeutungszusammenhang) do mundo faticamente experimentado, como se fosse seu centro de gravidade (Schwere), condiciona uma tendência a uma determinação atitudinal de objetualidades, a uma regulação objetual da vida faticamente vivida289.
Dessa forma, fica demonstrado que o sentido da experiência fática da vida contrapõe- se à tese inicial de que a filosofia simplesmente brota da vida fática. De um lado, a faticidade constitui o ponto de partida do filosofar; de outro, é precisamente aquilo que impede que ele aconteça de forma original.
Entretanto, ao tomar a vida fática em consideração e, pela primeira vez, transformá-la em problema filosófico, Heidegger descobre a possibilidade de reverter a tendência decadente, e encontrar nela mesma os motivos para a transformação que ela pode promover. Em função da indiferença e autosuficiência que lhe são inerentes, a faticidade oculta em si mesma uma incipiente tendência filosófica. Ou seja, juntamente com a tendência decadente, vigoram também os motivos da atitude puramente filosófica (Motive rein philosophischer
Haltung), que só se manifestam mediante o que Heidegger denomina de “giro peculiar”
288
Para Heidegger, as tendências filosóficas também procuraram “áreas próprias” do ente. Kant ocupou-se principalmente com a consciência. Ao tratar do tema, Fichte, coloca o sujeito como nova forma de objetivação (Gegenständlichkeit) diante de outras objetualidades (Objekte). Ao partir da filosofia prática de Kant e utilizar seus conceitos prévios, ele promove, no fundo, uma tendência atitudinal. Nesse caso, a filosofia segue sendo formação de complexos objetivos, a mais rigorosa possível, se bem que o idealismo alemão havia visto peculiar dificuldade no conhecimento do sujeito (Cf. HEIDEGGER, M. Einleitung in die Phänomenologie der Religion, p. 17).
(eigentümliche Umwendung), que conduz ao comportamento filosófico290. Trata-se de uma tarefa reconhecidamente difícil. Todavia, ela deve ser levada a termo, em função do propósito heideggeriano dos cursos dessa época, de conquistar novo conceito de filosofia a partir da experiência fática da vida.
Em seu curso Einleitung in die Phänomenologie der Religion, Heidegger procura encontrar os motivos originários da filosofia, dirigindo-se às tendências filosóficas do passado e do presente. Isso não sugere que o fato de existir a história da filosofia seja motivo suficiente para filosofar. Apropriar-se dos temas e problemas das tendências filosóficas ao longo da história pode significar mera posse intelectual de dados e informações. A apropriação da história da filosofia deve ocorrer com o intuito de reconhecer os motivos originários do respectivo exercício do filosofar de cada filosofia ao longo da história do pensamento.
Isso nos conduz ao passo seguinte do curso, que é o problema do histórico que, a partir de agora, se transforma no fio condutor para a compreensão e determinação do filosofar.