4. MATERYAL VE YÖNTEM
4.2 Anket Çalışması
4.2.7 Verilerin toplanması ve analizi
Vieira (2001) analisa três concepções diferentes de espaço público: a tradição republicana representada pela visão agonística, desenvolvida por Hannah Arendt; a tradição liberal, de matriz kantiana; e o modelo de espaço público discursivo, desenvolvido por Jürgen Habermas.
Na tradição republicana ocorre a perda do espaço público no qual ocorre a oclusão do político pelo social, ou seja, os indivíduos contentam-se em se comportar como consumidores e moradores urbanos, não agem.
Na tradição liberal enfatiza-se o modelo denominado legalista. O liberalismo é um modo de se discutir a respeito do poder no diálogo público, modelo que tem por base restrições discursivas e que pressupõe uma moral e uma epistemologia política que defendem a separação implícita entre o público e o privado.
A respeito das duas correntes, Vieira (2001) destaca que o modelo de Arendt não é adequado para a realidade sociológica da modernidade, e o modelo liberal transforma o diálogo sobre o poder em discurso jurídico sobre o direito, ou seja, “as duas primeiras correntes são limitadas como instrumentos de análise/avaliação de problemas referentes ao discurso político e legitimação nas sociedades de capitalismo avançado”. (VIEIRA, 2001, p. 58)
O modelo de espaço público discursivo de Habermas não limita o acesso ao espaço público e abrange o aspecto dinâmico e renegociável de distinções como a que se determina entre o certo e o bom. Habermas destaca como aspecto essencial a defesa da modernidade à luz da participação pública. “A questão de legitimidade democrática é central na teoria discursiva de Habermas, o que confere maior profundidade e apelo ao seu pensamento”. (VIEIRA, 2001, p. 58)
Segundo Vieira, Habermas entende que além da diferenciação, individuação e bifurcação, na construção da modernidade, o surgimento de um campo público autônomo, no qual ocorra o debate, torna-se da mesma forma importante.
No campo institucional, a geração consensual de normas gerais de ação através do discurso prático adquire relevância. No âmbito da formação de personalidade, o desenvolvimento da identidade individual torna-se cada vez mais dependente da reflexão e da crítica dos indivíduos ao construírem, juntos, uma vida coerente, além dos papéis e definições de gênero convencionais. (VIEIRA, 2001, p. 58)
Nos âmbitos da sociedade, personalidade e cultura, o esforço reflexivo e a contribuição dos indivíduos tornam-se decisivos. O princípio da participação não constitui a antítese à modernidade, mas um de seus maiores pré-requisitos. Em Habermas, a participação não se restringe a um campo político estritamente definido, mas pode realizar-se também na esfera social ou cultural. Por exemplo, participar de iniciativas cidadãs para despoluir um porto é tão político quanto criticar, numa revista, a imagem estereotipada com que certos grupos são apresentados na imprensa. Neste enfoque, a participação destaca a determinação de normas de ação por meio do debate prático, envolvendo todos os que por ela são afetados.
Como é, então, entendido o espaço público? Seria entendido de modo agonístico, como espaço de competição para aclamar uma elite política? Segundo Vieira (2001, p. 59), o espaço público “é visto democraticamente como criação de procedimentos pelos quais todos os afetados por normas sociais gerais e decisões políticas coletivas possam participar de sua formulação e adoção”. E o que haveria em comum entre os liberais e Habermas? Somente a idéia de que a legitimidade é conseqüência do debate público. No entanto, no modelo habermasiano, o debate não tem como pressuposto “o constrangimento da neutralidade pois é julgado por critérios representados pelo modelo de um
‘discurso prático’, avaliando sua validade”. (VIEIRA, 2001, p. 60). O autor indica ainda que nas sociedades contemporâneas “a democratização sintetiza o aumento e o crescimento de espaços públicos autônomos entre participantes”. (VIEIRA, 2001, p. 60)
O modelo que surge dos últimos estudos de Habermas considera o diálogo normativo como argumento e justificação que ocorrem em uma situação ideal de fala, que, por sua vez, expressa uma reciprocidade igualitária. Os participantes têm iguais oportunidades de iniciar e continuar a comunicação, de fazer comentários, recomendações e explanações e de expressar desejos e sentimentos; são livres para “tematizar as relações de poder que, em contextos ordinários normais, constrangeria a livre articulação de opiniões e posições”. (VIEIRA, 2001, p. 61)
No que diz respeito à esfera pública, no pensamento de Habermas, os movimentos sociais que fundam a democracia surgem como modos de solucionar o conflito entre Estado e Mercado, de um lado, e as estruturas interativas do mundo da vida, de outro lado. Habermas entende a democracia como
a institucionalização no sistema político das sociedades modernas dos princípios normativos da racionalidade comunicativa. A esfera pública é o local de disputa entre os princípios divergentes de organização da sociabilidade. Os movimentos sociais constituem os atores que reagem à reificação e burocratização, propondo a defesa das formas de solidariedade ameaçadas pela racionalização sistêmica. Eles disputam com o Estado e com o mercado a preservação de um espaço autônomo e democrático de organização, reprodução da cultura e formação de identidade e solidariedade. (VIEIRA, 2001, p. 63)
Na teoria habermasiana, o conceito de esfera pública tem uma posição central enquanto arena de formação de vontade coletiva. É um espaço autônomo de debate público e de embate entre diversos atores sociais: de um lado, desenvolve processos de formação democrática de opinião pública e da vontade política coletiva; de outro, vincula-se a um projeto de práxis democrática, onde a sociedade civil é uma instância deliberativa e legitimadora do poder político, possibilitando aos cidadãos exercerem seus direitos subjetivos públicos. (VIEIRA, 2001)
Essa é uma compreensão que exclui a visão utilitarista22 e a visão
reducionista23. O espaço público tem como suporte o princípio do discurso e uma
perspectiva emancipatória; é uma arena autônoma em relação ao sistema político, contemplando procedimentos racionais, discursivos, participativos e pluralistas, possibilitando aos atores da sociedade civil um consenso comunicativo e uma auto-regulação, fonte de legitimidade das leis. Enfim, um local onde ocorre a interação intersubjetiva de cidadãos conscientes, solidários e participativos.
Para Vieira (2001), a autonomia do espaço público participativo revaloriza o primado da comunidade e da solidariedade, possibilitando a libertação da sociedade civil dos imperativos sistêmicos, isto é, dos controles burocráticos do Estado e das imposições econômicas do mercado.
Divergindo dos liberais, Habermas confere centralidade à ação social e secundariza os aspectos individuais. O espaço público não se coaduna com a visão liberal de neutralidade, dissociada dos interesses concretos dos atores sociais, mas, ao contrário, permite a institucionalização das pluralidades nas sociedades civis modernas e a possibilidade de consenso mediante procedimentos comunicativos exercidos na esfera pública, fornecendo os critérios éticos de regulação dos discursos práticos. A esfera pública, enfim, é a instância geradora de decisões coletivas e legitimadoras da democracia. (VIEIRA, 2001)
Na medida que se considera que a política não pode mais ser vista como atributo das elites, torna-se indispensável a adoção de procedimentos de participação, assegurando-se a todos, principalmente aos grupos sociais minoritários, igualdade de acesso ao espaço público, mediante o discurso, independentemente dos conteúdos.
Em suma, a modernidade é entendida não como ponto de ruptura da tradição, mas como um momento possível de realização de profundas transformações sociais, implicando um novo papel dos atores sociais e uma nova configuração da democracia participativa, desde que sejam aplicados os procedimentos discursivos.
22 No utilitarismo, os atores da sociedade civil agem individualmente, sem qualquer laço
de solidariedade social.
23 O reducionismo restringe o espaço público a uma esfera determinada pelas relações
O modelo discursivo se apresenta como adequado às sociedades modernas, pois, com o ingresso de novos grupos na esfera pública e a expansão dos direitos de cidadania na modernidade, não é mais possível imaginar um espaço público homogêneo e politicamente igualitário. Por isso mesmo, o conceito de espaço público aplica-se às diversas dimensões da vida social: a política, a literária, a artística, a científica, entre outros.
Vieira (2001) considera que o modelo habermasiano amplia o âmbito da atividade política, fertilizando-o com os influxos comunicativos provenientes da sociedade civil. Com a nova dimensão quantitativa e qualitativa das associações da sociedade civil, o processo de democratização começa a ser visto como processo de mudança na cultura política, nas práticas sociais e nas formas de ação coletiva.
Na verdade, nos últimos anos, constatam-se mudanças significativas nas formas de ação coletiva e de ocupação do espaço público por um conjunto diversificado de atores e associações, criando um pólo distinto da sociedade política para a satisfação de necessidades e constituição de novas identidades.
Essas mudanças na cultura política trazidas pelo incremento do associativismo indicam a possibilidade de superação das formas tradicionais de clientelismo, populismo e corporativismo presentes na história política da América Latina. A nova cultura associativa contribui com a construção de uma estrutura institucional mais democrática, posto que se apóia na sociedade civil e não nas elites que tradicionalmente controlam a sociedade política (VIEIRA, 2001).
Predominaram na América Latina as chamadas teorias da transição democrática que, apesar de sua inegável contribuição, subestimaram a organização autônoma de associações civis, confinando-se no institucional. Contudo, na atualidade está se desenvolvendo uma outra perspectiva, de caráter culturalista, segundo a qual os estudos sobre democratização devem acompanhar os processos culturais, pois a democratização não ocorre no vazio: deixa de ser abordada “como fenômeno relacionado exclusivamente com as instituições políticas e passa para o terreno das formas de ação social que garantiriam a democracia ao longo de um processo de modernização societária”. (VIEIRA, 2001, p. 73)
A nova interpretação abre espaço para os movimentos sociais e associações da sociedade civil na compreensão mesma do processo de
democratização, incorporando novos conceitos, destacando-se o de esfera pública.
Evitando uma institucionalização imobilizadora, mas sem negar a participação institucional das associações civis, o que se deseja é a preservação do papel dessas associações no processo sociocultural. Neste sentido, as associações não devem participar do Estado enquanto espaço administrativo (sob pena de transformarem-se em paraestatais), mas enquanto espaço de formação da opinião e vontade coletiva. (VIEIRA, 2001, p. 74)
2.2 GLOBALIZAÇÃO ALTERNATIVA E CONTRA-HEGEMÔNICA DOS