Muito do que vivenciamos nessa viagem à Lagoa não se converteu em anotações, mas a intensidade das experiências trouxe algumas lembranças memoráveis que merecem aqui serem registradas. Eu, Ceiça, Paula, Chico Lucas e Mara estávamos envolvidos na pintura das portas e janelas da “Casa da Memória do Piató Chico Lucas”, que é a realização concreta de um sonho acalentado por Ceiça ao qual nos integramos. A Casa é uma forma significativa de compartilhamento de idéias e experiências entre os pesquisadores da universidade e os moradores da comunidade Areia Branca da Lagoa do Piató.
A fundação, que teve início de sua construção por Chico Lucas em 6 de fevereiro de 2007, no mesmo terreno de sua casa, solidifica a continuidade desse diálogo e de sua extensão entre as futuras gerações de pesquisadores e os filhos e netos dos homens e mulheres que hoje vivem na Lagoa do Piató. Deve ser a “Casa da Memória do Piató Chico Lucas” o lugar das narrativas das histórias do Piató que, ao serem contadas e repassadas ao longo do tempo, vão se regenerando e se enraizando nas vidas futuras. Deve ser o espaço dessa memória, o lugar para onde se vai e do qual se retorna com mais esperança para seguir o destino individual e coletivo. Ceiça me disse na ocasião de minha primeira ida à Casa da Memória, que “a entrada de uma nova pessoa inaugura sempre a casa”. Talvez quisesse me dizer que sempre deixamos ali algo de nós. A Casa não deverá ser apenas o lugar que renova, mas também o lugar onde se depositem esperanças e compromissos, renascendo permanentemente.
O percurso desse sonho real me fez recordar de Carl G. Jung, quando construiu sua torre, a “torre de Bollingen”, iniciada em 1923, às margens do lago superior de Zurique, onde já em idade avançada passava metade do ano trabalhando e descansando. Nesses momentos, ele cortava lenha, tratava a terra, plantava e colhia.
Trabalhando muito consegui, aos poucos, apoiar em terra firme minhas fantasias e os conteúdos do inconsciente. As palavras e os escritos não eram bastante reais para mim; era preciso outra coisa. Necessitava representar meus pensamentos mais íntimos e meu saber na pedra, nela inscrevendo, de algum modo, uma profissão de fé. Foi assim que comecei a construir a torre de Bollingen. Essa idéia pode parecer absurda, mas a realizei – o que foi para mim uma grande satisfação, um acontecimento significativo (...)
Desde o início, a torre foi para mim um lugar de amadurecimento – um seio materno ou uma forma materna na qual podia ser de novo como sou, como era, e como serei. A torre dava-me a impressão de que eu renascia na pedra (JUNG, 2006, p. 263).
As noites na Lagoa do Piató, como de costume, iniciavam totalmente silenciosas seguidas de uma escuridão completa. O amanhecer era aberto com uma linda sinfonia de galos, burros e passarinhos. O galo de campina cantava incessantemente para anunciar o instante em que o vermelho do sol iria se amarelar
Figura 36: Pintando a janela da casa Foto: Paula Vanina Cencig
no céu, o momento da aurora. Durante aqueles dias, a Casa da Memória ia ganhando cada vez mais vivacidade, não só porque suas portas e janelas adquiriam cor, haja vista a pintura em azul que foi feita a dez mãos, mas porque o frescor do novo espaço ia sendo experimentado por todos, nas suas mais variadas formas, através de manifestações de curiosidade, alegria, expectativa e solidariedade.
João Bosco, doutorando do Grecom que discute a importância dos saberes da tradição no que diz respeito à medicina natural e conselhos para a saúde, e Wani também estiveram entre nós durante esse encontro, chegando no sábado à Lagoa. Era a primeira visita de Bosco à Lagoa do Piató. No dia seguinte, todos participamos da primeira celebração para Nossa Senhora da Aparecida na Casa da Memória, que foi conduzida por Sinhana, ao lado de muitas mulheres da comunidade. A mesa de madeira localizada no centro lateral da sala daquele espaço se transformou num lindo altar, decorado com imagens e objetos simbólicos. Ao redor do altar, nos reunimos, rezamos e cantamos com muita emoção. No final da celebração, a pedido de Ceiça, todos os presentes assinaram um livro e as mulheres serviram o habitual chá de capim santo, completando assim o primeiro ritual sagrado na Casa. Senti como se tivesse participado de uma celebração de batismo.
Figura 37: Grecom e a comunidade Foto: Silmara Lídia Marton
Figura 38: A mesa da celebração Foto: João Bosco Filho
Num daqueles dias de pintura seguidos de muita música, ora pelo som das canções do cd de Nelson Gonçalves, ora pelo som das canções que eu tocava no violão juntamente com as crianças, ou ainda pela musicalidade da paisagem, ocorreu um outro fato surpreendente que comoveu a todos nós. Mateus cantou como nunca tínhamos ouvido. Lembrava as rezadeiras e também os aboios. O seu canto choroso, afinado e feito de poucas e repetidas notas ecoou na Casa da Memória. Depois disso, Chico nos disse que seu netinho passou a se sentir importante. De fato. Lembro-me que Mateus me perguntou se realmente eu tinha gostado do seu canto. Quando respondi que sim, ele sorriu largamente. Foi tão grande sobre nós o impacto das canções por ele produzidas, que resolvemos gravar um cd, no qual também inserimos outros sons da Lagoa do Piató, como os do ambiente natural e os da cultura local da comunidade de Areia Branca que compõem a sua paisagem sonora. No cd estão registrados o canto do galo, dos pássaros, do grilo e de outros animais; o barulho do motor do barco e da carroça; as músicas do rádio; as vozes e cantos das crianças; as rezas e cânticos religiosos das mulheres. Vim a saber, posteriormente, que a escuta do cd por Chico Lucas e sua família causou-lhes grande emoção. Até então, Mateus não havia tomado consciência da beleza do seu canto e do seu valor. Será que ele continua a cantar?
Figura 39: Mateus Foto: Paula Vanina Cencig
Quando encorajamos a expressão livre das emoções, das capacidades imaginativas e críticas de uma criança, a vastidão de sua originalidade pessoal floresce. E quando esse processo educacional acontece no seio de um contexto de compartilhamento de culturas distintas, sua significação é ainda maior, porque faz crer que cada um de nós sabe muito pouco de si e dos outros e que a diversidade e a interdependência são condições indispensáveis à emergência do desenvolvimento humano.