2.8. Diş Hekimlerinde Kas İskelet Sistemi Ağrılarının Önlenmesi İçin Önlemler
3.2.6. Verilerin İstatistiksel Analizi
Desde que a noção básica de sucessão e de escoar temporal reaparece nesse período, seria então cabível retomar a questão do estatuto do tempo formulada em relação à Fenomenologia da percepção?
Merleau-Ponty afirma que a percepção é, negativamente, uma lacuna ou distância em relação a uma totalidade (o mundo) e ao mesmo tempo ela é, positivamente, o preenchimento de uma falta ou de um horizonte (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 264, 265). Determinada reconstituição expressiva preenche um horizonte, oferece um determinado objeto e ao mesmo tempo é uma lacuna ou falta em relação ao todo do mundo. O percebido é assim o que falta ao mundo para ser total (Cf. MERLEAU- PONTY, 2003, p. 217). Isso quer dizer que, para que haja consciência de alguma coisa, é preciso não haver consciência do todo (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 158). Uma percepção integral do mundo é impossível, pois isso implicaria em ser consciente de coisa nenhuma, explica Merleau-Ponty (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 158). Isso quer dizer que não haveria distância entre visão e mundo, não haveria alteridade, diferença, senão que apenas um devir imediato. A espessura temporal revela a estrutura do funcionamento da percepção: cada tomada é parcial, devendo ser superada pela seguinte. Mesmo as tentativas de totalização da linguagem são parciais, pois estão inseridas no tempo. A estrutura temporal também fundamenta a noção de verdade enquanto “probabilismo”: ela é “o maximum de verdade do momento” (MERLEAU- PONTY, 2003, p. 180). A percepção como a verdade são um “movimento em direção à integração”, expressão que define também o que seja “abertura” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 181). Todavia, a integração total é impossível, já que ela redundaria em nada ser. Toda tomada só pode ser sob a condição de ser parcial. Tal como a impossibilidade de se ter o passado nele mesmo — posto que o passado nele mesmo é inacessível — mantém-no como passado, de modo que a “negação é posição”, também a lógica perceptiva é “posição de um inacessível (...) e por isso orientação sobre ele e acesso a ele” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 231). Essa lógica é denominada por Merleau-Ponty como “transcendência verdadeira”, “intencionalidade de ato” ou “ek-stase” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 231, 265). A consciência perceptiva é, portanto, “presença de uma ausência: conteúdo infinito, apresentação por Abschattungen”
(MERLEAU-PONTY, 2003, p. 178). O percebido é a presença de uma totalidade infinita, portanto, não totalizável, mostrando-se sempre por perfis77.
Ora, mas o que seria a força motriz desse movimento em direção à integração, dessa transcendência? O que seria exatamente a “impulsão78 originária” da pré-
maturação (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 60) ou o “impulso79 que transforma” da
trocas intencionais (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 175)?
Nas várias modalidades da experiência descritas por Merleau-Ponty ressalta-se sempre o desejo como a fecundidade própria de cada uma delas. Na fase edipiana, nota- se uma “impossibilidade imanente”, a criança experimenta uma “vontade do impossível”, já que ela não pode ser o seu pai, como comentado acima. Há assim no nível anônimo uma “sexualidade imaginária” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 56). Já na puberdade efetua-se um novo impulso do desejo que anima o aparelho do Eu (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 58). O impulso originário do desejo pré-maduro é recomeçado na puberdade, na consciência tética (quando aparece um Eu), quando a libido encontra um objeto que pode ser objeto, alguém fora da família. No entanto, a puberdade e a sexualidade madura também não encontram satisfação. A possessão não satisfaz os amantes, porque cada evento de prazer particular é apenas a ocasião de uma “agitação”, de uma nova falta. O que se deseja nesse caso é “o outro enquanto outro”, a “vida estabelecida em um corpo” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 66). O desejo é “contraditório”, ele é uma angústia, uma falta que sobrevive e anima cada prazer particular. Ao desejar o outro enquanto outro, o desejo é desejo do impossível, já que sua realização efetiva implicaria a supressão do eu e do outro. Todavia, ele inaugura e anima um drama, uma história (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 66). A sexualidade é também o fundamento perceptivo dos sistemas sociais. Cada sociedade seria a “variação de um ser ao mundo sexual que é polimorfo” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 121). E nos casos de passividade, a articulação entre sonho e vigília é compreendida por meio da “fecundidade do desejo” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 205): no sonho, o desejo opera sem um controle absoluto (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 198). Ao tratar da relação atividade e passividade, Merleau-Ponty assegura que o onirismo vive implicitamente na consciência perceptiva, de forma que a censura que esta realiza
77 Cf. também a aproximação entre “real” e “aparência” em Barbaras, R. “A phenomenology of life”. In:
Carman, T., Hansen M. (eds.). The Cambridge Companion to Merleau-Ponty. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 2005, p. 224-225.
78 “impulsion originaire”. 79 “poussée qui transforme”.
consiste na recusa da passividade e de sua grande abastecedora: a sexualidade (Cf. MERLEAU-PONTY, 2003, p. 213).
A sexualidade e a consciência perceptiva, observa-se aqui, são ambas desejo de um impossível, de um inacessível. O movimento em direção à integração é impulsionado pela falta do mundo, assim como a insatisfação dos amantes é a falta de outrem.
Segundo Merleau-Ponty, “a sexualidade e a corporeidade [estão] em todo o tecido da percepção”, de maneira que o corpo se torna o “mediador do ser” (MERLEAU- PONTY, 2003, p. 242, 243). Se a sexualidade aparece na descrição da experiência como algo mais que certa função especial e algo mais que certo simbolismo no qual ela se dissimularia — como atesta Merleau-Ponty —, isso parece se dever a que o desejo é o impulso originário da experiência, o impulso transformador que faz com que as Abschattungen superem umas às outras. Entretanto, adverte Merleau-Ponty, a sexualidade não é uma explicação última, pois é necessária uma “metafísica da sexualidade” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 246). A sexualidade ou o amor físico simbolizam de modo mais elevado a encarnação, a corporeidade, a relação carnal com o outro, assim como a psicanálise — ou psicanálise existencial, segundo Merleau-Ponty — é “revelação da intercorporeidade, da montagem Ego-outrem (...), do sistema simbólico instalado em nossa máquina de viver” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 246). Tal metafísica deve compreender como a sexualidade, ou melhor, o desejo, por sua própria estrutura, “torna possível uma Leistung que interessa o todo da vida do indivíduo”, “como uma vida pode entrar em uma outra vida ou esta a receber” (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 246). O desejo inaugura um drama tal que este não diz respeito somente a um momento da vida de um indivíduo, mas a toda a sua vida, à abertura mesma de sua história.
Por fim, uma última indicação de Merleau-Ponty sobre esse assunto. Ao comentar o inconsciente, ele ressalta suas características temporais, como a antecipação (premonição, pré-formação), e termina articulando tal antecipação com a experiência da intercorporeidade, a qual seria a “do desejo na realidade”: “O inconsciente = a poesia freudiana, a premonição do futuro no presente, a pré-formação do presente no passado: o eco do outro em mim, de mim no outro, do desejo na realidade” (MERLEAU- PONTY, 2003, p. 264). Talvez assim se possa entender porque Merleau-Ponty afirma ser a libido o medium, o elemento, o cerne da instituição:
medium da instituição: a libido: é o devir da relação total com o mundo e o outro enquanto efetivo e não oficial, não imaginário. A história verdadeira de nossos investimentos, de nossas polaridades. Vivida e desconhecida como toda dimensão (...). Instituição: estabelecimento de uma dimensão. (MERLEAU-PONTY, 2003, p. 61)
Especificando o que seja libido, Merleau-Ponty afirma que ela é o devir próprio das relações eu-mundo e eu-outrem, movimento que é um investimento, a abertura de uma dimensão, fato mesmo que define o que seja instituição. Assim como na Fenomenologia da percepção, o desejo aparece na fase intermediária como o cerne do tempo, o critério ontológico de compreensão de seu “ir além”, do impulso que atravessa o desdobramento das Abschattungen.