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É preciso analisar agora como a ordem diacrítica dos dados sensíveis se articula com a ordem diacrítica da língua. Em Sobre a fenomenologia da linguagem, Merleau- Ponty argumenta que a linguagem “objetiva e abre para a pluralidade dos sujeitos (...) aquilo que anteriormente era apenas uma formação interior a um sujeito” (MERLEAU- PONTY, 2010, p. 1201). Sem esse ato de expressão, as significações permaneceriam presentes aos sujeitos “apenas surdamente” (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1195). Em outra passagem, retomando Husserl, Merleau-Ponty afirma que a “linguagem aparece como um modo original de visar certos objetos, como o corpo do pensamento, (...) ou mesmo como a operação sem a qual os pensamentos permaneceriam fenômenos privados, e graças à qual adquirem valor intersubjetivo e, finalmente, existência ideal” (MERLEAU-PONTY, 2010, p. 1189). Há dois níveis constitutivos da experiência. Primeiro, o recorte expressivo operado pelo corpo frente aos dados sensíveis. Esse momento expressaria certa universalidade do sentir, posto que, embora os dados sensíveis sejam diacríticos e por isso permitam diferentes perspectivas, ainda assim os sujeitos perceptivos possuem certas possibilidades perceptivas universais, as dadas pelos esquemas corporais. Contudo, como essa primeira camada se realiza tacitamente, ela é ainda apenas uma experiência privada, individual, não partilhada com outros sujeitos e, assim, não reconhecida e universalizada. No segundo nível acontece a sublimação ou a expressão, por meio dos princípios opositivos da linguagem, do recorte

primeiro (perceptivo) operado pelo corpo. Isso significa que a linguagem, ao delimitar e partilhar experiências privadas, pode universalizar a experiência perceptiva. Note-se que ambos os momentos configuram-se segundo princípios opositivos ora sensíveis ora lingüísticos, de modo que, no que diz respeito à forma, ambos possuem a mesma estrutura.

Segundo Carbone, Merleau-Ponty não trataria mais da passagem do momento silencioso ao lingüístico, posto que a similitude formal dos sistemas diacríticos permite que ele ultrapasse a tese da Fenomenologia da percepção, segundo a qual haveria um momento silencioso como fundo positivo de sentido em relação ao qual a linguagem apareceria como segunda e derivada (CARBONE, 1993, os. 421, 422). Todavia, mesmo que ambos os sistemas não atribuam sentido positivo seja aos dados sensíveis seja aos signos linguísticos, operando segundo as oposições dos dados e dos signos, ainda restaria perguntar como de fato os dois sistemas diacríticos se relacionam, posto que somente a similitude formal não é suficiente para que eles realmente se articulem. Se há um primeiro momento do sistema sensível e um segundo em que a linguagem opera universalizando as tomadas originariamente privadas, então reaparece o problema da articulação da esfera linguística à sensível.

Por outro lado, pode-se objetar que tais conteúdos sensíveis “não são significações silenciosas simples às quais se aplicariam rótulos verbais”, posto que eles “só são delimitados enquanto tais por meio de sua expressão em signos linguísticos partilháveis e sedimentáveis” (FERRAZ, 2009, p. 81). A linguagem transfiguraria as “fugidias experiências sensíveis” em idealidades culturais (FERRAZ, 2009, p. 81). Ao menos em algum nível ou momento há certa experiência tácita vinda da percepção, a qual é delimitada e universalizada pela linguagem: “Certamente é preciso haver dados perceptivos, uma experiência do mundo, para que o princípio discriminativo da fala atue de modo a elaborar um sistema de oposições lingüísticas” (FERRAZ, 2009, p. 78). Por um lado, não há dados positivos seja no nível perceptivo, já que a percepção recorta expressivamente o sistema opositivo do próprio mundo, seja no lingüístico, posto que a linguagem significa segundo a diferenciação dos signos. Por outro, a linguagem não delimita ou universaliza um conteúdo pré-determinado, senão que opera sobre uma configuração que pode se apresentar de maneiras diferentes em cada tomada expressiva. Isso quer dizer, primeiro, que a percepção não delimita o sistema lingüístico, posto que ela não possui conteúdos pré-determinados, e, segundo, que a linguagem possui um sistema de significação heterogêneo em relação à percepção. No entanto, a linguagem

pressupõe a tomada expressiva realizada na percepção, de modo que ela se realiza sobre uma abertura originariamente perceptiva. Se tal abertura é tácita seja em um curto instante seja em um momento mais longo, até a criança aprender a falar, então se tem novamente o problema da articulação entre momento silencioso e tomada linguística. Se a linguagem permite a delimitação e universalização de certa “universalidade tácita do sentir”, seja esta qual for, então é preciso mais uma vez perguntar como o lingüístico expressa o não-linguístico, por mais irrisório ou fugidio que este seja.

Em A ciência e a experiência da expressão, Merleau-Ponty reposiciona-se em relação ao problema da origem da linguagem, distanciando-se do modo como ele trata esse assunto na Fenomenologia da percepção. De um lado, ele comenta: “se o que nos dizem da história da Terra tem fundamento, é preciso efetivamente que a fala tenha começado” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 65). Se o homem não existia e então veio a ser, é preciso que em algum momento a linguagem tenha se inaugurado. De outro lado, ele assegura que a criança vai do todo da língua às partes, do modelo de funcionamento da fala adulta ao emprego de algumas de suas possibilidades, da percepção de um conjunto vago à emergência de rearranjos desse conjunto. Tento em vista a origem da linguagem e a aprendizagem da fala pela criança, o que então se pode “dizer da primeira fala da humanidade?” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 65). A fala da criança, assim como a fala adulta, realiza-se a cada vez como modulação de uma comunicação já estabelecida, ela é o emprego de um arranjo particular em face de um conjunto maior, o da língua de seu entorno. De forma semelhante, a primeira fala da humanidade também emergiu de uma situação comunicativa anterior a ela: “o princípio da comunicação já estava dado antes dela [da fala] pelo fato de o homem perceber outro homem no mundo” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 65). Dessa forma, a primeira fala não representou um salto no espiritual, surgindo a partir de si mesma, senão que ela “emergia das condutas que já eram comuns e se enraizava num mundo sensível que já havia cessado de ser mundo privado” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 65-66). A fala surge como transformação e continuação, reestruturação de uma “comunicação primordial e silenciosa”, de um “silêncio pré-humano” que já não era somente mundo privado (meu mundo), porque nele já contavam condutas, nele já apareciam “congêneres”.

Por um lado, a fala traz uma transformação ao espetáculo do mundo, posto que ela “inaugurou um novo mundo”, uma nova dimensão, “transformou o congênere em homem” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 66), passando da universalidade do sentir à

universalidade reconhecida e intersubjetiva (Cf. MERLEAU-PONTY, 2002, p. 176). Por outro, ela continua uma transcendência já em operação no nível antepredicativo. Neste, acontece já invasão de um sentido no outro, ultrapassagem dos gestos em direção ao seu sentido, projeção-introjeção, tal como o diálogo também manifesta. Assim, “o mistério da primeira fala não é maior que o mistério de toda expressão bem sucedida” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 66). A primeira fala da humanidade é reestruturação, ou transformação e continuação da transcendência, ou ultrapassagem dos signos, já em andamento no nível mudo. A fala, portanto, “retoma e supera”, ou seja, inaugura uma dimensão nova apoiando-se no percebido, e ao mesmo tempo “conserva e continua a certeza sensível”, isto é, ela reintegra as condutas encontradas no percebido sem eliminá-las: o fato de todas as visões do mundo serem minhas visões não é eliminado na linguagem, senão que sobrevive nela (Cf. MERLEAU-PONTY, 2002, p. 66).

Segundo Merleau-Ponty, o retorno da reflexão sobre o imediato, ou a operação de encontrar o fundamento da linguagem só seria sem saída, se a fala “derivasse sua clareza de uma fonte estranha” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 149). Dessa forma o imediato seria sempre já reflexão e a linguagem incompreensível. A estrutura da linguagem, contudo, é a mesma da percepção. O gesto lingüístico é compreendido perceptivamente, tal como uma conduta. Assim como a percepção se inicia com a apreensão de estruturas globais e depois começa a fazer diferenciações progressivas, a criança primeiramente percebe um conjunto lingüístico vago, embora só empregue inicialmente algumas de suas possibilidades. A estrutura de retomada e projeção da ordem perceptiva é uma “transtemporalidade”, a ferida incurável que faz com que a coisa se manifeste de modo indireto, lateral, que faz com que o sentido seja um “descentramento” (Cf. MERLEAU-PONTY, 2002, p. 68, nota *). Sobre essa espessura temporal do sensível, sobre essa “instituição primordial” da ordem perceptiva fundam- se todas as elaborações simbólicas posteriores (Cf. MERLEAU-PONTY, 2002, p. 68, nota *). A fala, define Merleau-Ponty, é “essa antecipação e essa retomada, esse tocar à distância (...), essa profunda conivência do tempo consigo mesmo” (MERLEAU- PONTY, 2002, p. 178; grifo meu). Há um vaivém entre as estruturas sensíveis e culturais porque todas modalizam um mesmo solo ontológico, a espessura temporal diacrítica. Entre o sensível e a fala há ao mesmo tempo circularidade e descentramento, uma dupla relação em que “as construções se aplicam ao percebido como àquilo do qual há significação ou expressão” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 136). A linguagem, partindo do campo sensível, fixa-o, isto é, põe em relevo, diferencia, conquista “as

significações que vagueiam no horizonte do mundo sensível”, na “opacidade do sensível” (MERLEAU-PONTY, 2002, p. 177). Criando um afastamento, uma nova dimensão, a fala permite um reconhecimento, isto é, que o percebido seja compreendido (Cf. MERLEAU-PONTY, 2002, p. 136).

Benzer Belgeler