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O Magistério da Igreja, baseado nas Escrituras e na Tradição, no decorrer dos tempos, apresentou documentos e discussões sobre o que acontece após a morte. Tendo como ponto central a ressurreição de Cristo, a fé cristã se apropria da esperança na nossa ressurreição, ou seja, na ressurreição dos mortos. O VI Sínodo de Toledo declarou: “Cremos que nós, purifi- cados na sua morte e sangue, haveremos de ser ressuscitados por ele, no último dia, nesta car- ne na qual vivemos agora.” (Cf. DH, n. 490-493). O IV Concílio de Latrão, de 10 de abril de 1213, acrescenta: “Todos ressuscitarão com os próprios corpos com os quais agora são reves- tidos, para receber segundo suas obras, sejam boas ou más, uns a pena eterna com o diabo, outros a glória eterna com o Cristo.” (DH, n. 801).

O Magistério apresenta em seus documentos toda a complexidade da Escatologia cristã: o juízo particular, o purgatório, o inferno, a comunhão dos santos, o juízo universal, a oração pelos defuntos.178 A Constituição Benedictus Deus, de 1336, de Bento XII, foi várias vezes citada em documentos e até no Concílio Vaticano II. Ela foi escrita com a intenção de esclarecer sobre a necessidade do juízo universal, não deixando de mencionar a ressurreição

177 Cf. id., q. 54, a.3; q. 53, art. 2. Também Cf. TOMÁS DE AQUINO. S.Th I. q. 75, a. 4. Tomás afirma a

intrínseca união e mútua ordenação de ambos os princípios: corpo e alma. Contra todo espiritualismo, conclui: "É evidente que o homem não é só a alma, mas um composto de alma e de corpo." O que constitui a pessoa humana é o fato de ser um corpo que, não subsiste por si mesmo, e ser uma alma, que, embora sendo ato, só se constitui realidade se vinculada ao corpo. Também mantém a prioridade da realidade espiritual do humano, que permite ao ser conhecer e encaminhar-se para a verdade. Por outro lado, nessa Antropologia o corpo não é desvalorizado, já que está unido à alma.

178 Cf. 16º Sínodo de Toledo em 693, VI Sínodo de Toledo em 638, Concílio de Lion em 856, 11º Sínodo de

dos mortos.179 “No dia do juízo, todos os homens com seus corpos comparecerão diante do tribunal de Cristo para prestar contas de suas ações, para que cada um receba o que lhe toca segundo o que fez quando estava no corpo, seja de bem ou de mal.” (DH, n.1002).

No entanto, vários questionamentos interessantes e contraditórios em relação ao estado intermediário são feitos a partir dessa constituição, mas que não poderão ser analisados neste trabalho.

O Concílio de Lion, em 1274, afirma que, com o seu corpo, cada indivíduo prestará contas a Deus. “A mesma sacrossanta Igreja romana crê e com firmeza afirma que, no dia do juízo, todos os homens comparecerão, com seus corpos, diante do tribunal de Cristo e presta- rão contas de suas ações.” (DH, n. 859).

No Concílio Vaticano II, o tema ressurreição aparece nos dois documentos centrais: na Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, e na Constituição Pastoral Gau-

dium et Spes, sobre a missão da Igreja no mundo atual. Na Lumen Gentium, o capítulo VII

está voltado à índole escatológica da Igreja peregrina e sua união com a Igreja Celeste. No n. 48, a esperança da ressurreição dos mortos é apresentada mediante o compromisso de fortale- cer e ser testemunho de fé.

Pensando, pois, que “os sofrimentos desta vida não têm proporção com a glória que se há de revelar em nós” (Rom. 8,18; cf. 2 Tm. 2, 11-12), fortalecidos pela fé, aguar- damos a bem-aventurada esperança e a vinda gloriosa do grande Deus e salvador nosso Jesus Cristo, o qual transformará o nosso corpo miserável, tornando-o con- forme ao Seu corpo glorioso, (Cf. Fl. 3,21) e virá a “ser glorificado nos Seus santos e admirado em todos os que acreditaram”. (2 Tes. 1,10). (LG, n. 48).180

Nos artigos 49 a 51 da Lumen Gentium, lê-se sobre a importância da comunhão de bens espirituais entre os que estão em Deus e os que estão ainda peregrinando na Terra. “E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, pois, segundo a constante fé da Igreja, é reforçada pela comunicação dos bens espirituais.” (LG, n.49). Os artigos 50 e 51 ratificam a importância

179 Cf. HOFMEISTER, A. A. B. Benedictus Deus: aproximação ao conteúdo escatológico dogmaticamente defi-

nido pelo Papa Bento XII na Constituição de 1336. 2004. 123 f. Dissertação (Mestrado em Teologia Sistemá- tica) – Faculdade de Teologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. [Orientador: Dr. Pe. Eduardo da Sila Santos]. Essa constituição foi escrita com o objetivo de retificar as de- clarações do seu antecessor João XXII, acusado de cometer heresia, por declarar em algumas homilias que, após a morte, o ser humano já entra na glória eterna, negando, então, a vinda gloriosa de Cristo.

180Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, 1962-1965. Lumen Gentium. Cidade do Vaticano. In: VIER, F. (Coord.). Compêndio do Concílio Vaticano II. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2000, n. 48, p. 39-113.

da liturgia eucarística como meio de unidade e preces aos defuntos, em união com os santos, mártires e todos da Igreja Celeste (LG, n. 51).

Na Constituição Pastoral Gaudium et Spes, encontram-se questões referentes ao ser humano que está sujeito à morte pelo pecado, mas que foi redimido e salvo por Cristo.181 Lê- se, também, a certeza da ressurreição da carne no poderio do Cristo ressuscitado e exorta o ser humano como escrito:

Não pode, portanto, desprezar a vida corporal; deve, pelo contrário, considerar o seu corpo como bom e digno de respeito, pois foi criado por Deus e há de ressusci- tar no último dia. Todavia, ferido pelo pecado, o homem experimenta as revoltas do corpo. É, pois, a própria dignidade humana que exige que o homem glorifique a Deus no seu corpo, não deixando que este se escravize às más inclinações do pró- prio coração. (GS, n. 14).182

A Gaudium et Spes ressalta que Cristo restaurará seu reino, que já está presente, porém não em perfeição, afirmando novamente a esperança na vida nova em Deus através da ressur- reição e dos Novos Céus e Nova Terra. “ Mas então purificados de qualquer mancha, ilumi- nados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal.” (GS, n. 39). A Constituição relata que a atividade humana é aperfeiçoada na encarnação e no mistério pas- cal.

No ano de 1979, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta sobre algumas questões de Escatologia, na qual declara de modo enfático a necessidade de esclareci- mento do cristão quanto à ressurreição. O texto reitera os demais documentos do Magistério:

1. A Igreja crê (cf. Símbolo dos Apóstolos), numa ressurreição dos mortos. 2. A Igreja entende esta ressurreição referida ao homem todo; esta, para os eleitos, não é outra coisa senão a extensão aos homens da própria Ressurreição de Cristo. 3. A Igreja afirma a sobrevivência e a subsistência depois da morte de um elemento espi- ritual, dotado de consciência e de vontade, de tal modo que o “eu humano” subsista. Para designar esse elemento, a Igreja emprega a palavra “alma”, consagrada pelo uso que dela fazem a Sagrada Escritura e a Tradição. Sem ignorar que este termo é tomado na Bíblia em diversos significados, ela julga, não obstante isso, que não existe qualquer razão séria para o rejeitar e considera mesmo ser absolutamente in- dispensável um instrumento verbal para suster a fé dos cristãos.183

181 Cf. CONCÍLIO ECUMÊNICO VATICANO II, 1962-1965, Cidade do Vaticano. Gaudium et Spes. In: VIER,

F. (Coord.). Compêndio do Concílio Vaticano II, nn. 14, 18, 38, 39 e 45.

182

Gaudium et Spes, n.14. (Documento da Igreja).

183 SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Carta sobre algumas questões respeitantes à

Escatologia. 17 maio 1979. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/docum

Sem dúvida, a Congregação para a Doutrina da Fé deixa clara a postura da Igreja em relação à ressurreição de Cristo e à dos mortos. Com esses documentos, percebe-se uma efeti- va relação entre o Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica. Esse também escla- rece, em uma longa seção, a ressurreição dos mortos como fundamento da esperança cristã. (Cf. CEC, n. 988-1004).

Em 1992, a Comissão Internacional de Teologia refletiu sobre a temática da Escatolo- gia e o seu pronunciamento salientou o fato de que, num mundo fortemente secularizado, é fundamental manter claros certos conceitos cristãos para que os fiéis não percam a fé ou dei- xem-se levar por outros caminhos opostos ao de Cristo. O texto intitulado Algumas questões

atuais de Escatologia esclarece que a Igreja, ao tratar da ressurreição da carne, significa que

não é a mesma matéria que será necessária para ser o corpo próprio a ressuscitar. Porém, é o corpo transformado da morte para a vida. “Assim também ao manter o realismo para a ressur- reição futura dos mortos, não duvidamos, de modo algum, que nossa verdadeira carne na res- surreição será conforme o corpo da glória de Cristo.” (Cf. Fl 3, 21).184 O texto em sua totali-

dade apresenta as discordâncias entre os teólogos atuais sobre questões como a hora da ressur- reição e o dualismo platônico.

Enfim, constata-se, ainda, a grande dificuldade na abordagem dos termos corpo e alma nas reflexões de diversos teólogos, especialmente na abordagem escatológica. A Antropologia bíblica ensina a integralidade da unidade do corpo e da alma, ou seja, a pessoa não possui uma alma ou um corpo, mas é essa unidade que estará presente também na hora da morte. Porém, a linguagem encontrada nos documentos da Igreja demonstra, de modo literal, um dualismo que parece contrário ao ensinamento bíblico. Embora o conceito de alma refira-se ao eu espiritual, encontra-se no Catecismo da Igreja Católica n. 997, a definição de morte entendida como a separação da alma do corpo. Isso quer dizer que, na hora da morte, como que por um momento, o elemento espiritual – que não entra em corrupção – se separa, pois o material, o

corpo-cadáver, entra em corrupção. Segundo o Catecismo, a alma volta para Deus, mas não a alma grega e sim aquilo que subsiste do ser humano: o eu humano, dotado de inteligência e

vontade. Esse eu humano aguarda ser unido novamente ao seu corpo que não estará do mesmo jeito, mas que será glorificado.

184 Cf. COMISIÓN TEOLÓGICA INTERNACIONAL. Algunas Cuestiones actuales de Escatología. 1992. Disponí-

vel em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/cti_documents/rc_cti_index-doc-pubbl_po.html #Documenti>. Acesso em: 16 out. 2012. “Así también al mantener el realismo para la resurrección futura de

los muertos, no olvidamos, en modo alguno, que nuestra verdadera carne en la resurrección será conforme al cuerpo de la gloria de Cristo. (Cf. Fl 3, 21). [Tradução nossa].

Benzer Belgeler