Isaías Alves nasceu em Santo Antonio de Jesus, cidade do recôncavo baiano, em 1888. Aos 14 anos, mudou-se para Salvador para cursar o secundário no Colégio Carneiro Ribeiro. O trabalho de Isaías Alves no campo educacional começou ainda em 1905, com suas aulas no curso primário do Ginásio Ipiranga, colégio de Salvador que adquiriu posteriormente. Nesta época o colégio pertencia a seu primo, Alexandre Porfírio de Almeida Sampaio, o que deve ter facilitado sua entrada, mesmo sendo comum neste período que a formação secundária fosse suficiente para ministrar aulas na escola primária.65 Entre 1909 e 1910, também ministrou aulas de história do Brasil no curso popular do Liceu de Artes e Ofícios.
Em 1924, já proprietário do Ginásio Ipiranga, Isaías Alves fundou um Centro de Pesquisas Psicopedagógicas. O objetivo deste Centro era aprofundar seus estudos em relação à utilidade de testes de inteligência para classificação de crianças em idade escolar. A concepção deste laboratório seguia uma tendência encontrada em outros estados do país de realizar experiências seguindo métodos científicos que ajudassem a
64 Idem. p.21.
determinar as mudanças necessárias às práticas de ensino vigentes. Foi nesse centro que Alves desenvolveu suas primeiras adaptações dos testes estrangeiros e os aplicou em alunos do próprio Ginásio.
Em 1928, ele ministrou palestras no curso de férias para professores baianos promovidos por Anísio Teixeira, então diretor de instrução pública da Bahia. Suas conferências tiveram como título geral “Medidas da inteligência e dos resultados escolares”66 e foram realizadas na Escola Normal de Salvador. Seu primeiro livro sobre o assunto, Teste Individual de Inteligência,67 havia sido publicado dois anos antes e apresentava a utilidade dos testes de inteligência para a realidade brasileira, além de traduzir a escala de Binet-Burt para o português. Os cursos foram um dos caminhos que os defensores das reformas encontraram para atualizar os professores, colocando-os em contato com as teorias pedagógicas que estavam em voga na época e que eram seguidas por estes diretores de Instrução Pública.
Ao que tudo indica, seu trabalho de pesquisa desenvolvido com testes de inteligência iniciado no Ginásio lhe credenciou a entrada em outra categoria do ensino. Foi a partir daí que Isaías Alves parece ter ingressado no grupo dos que não só lidam com educação, mas que pensam sobre ela e cujas opiniões vão ganhando maior notoriedade a partir do avanço do trabalho realizado. Os testes de inteligência não foram fator isolado. Isaías Alves já pode ser considerado um privilegiado porque saiu da sua cidade natal e concluiu o ensino secundário em Salvador, no colégio Carneiro Ribeiro. Além disso, formou-se em uma das três únicas Faculdades existentes na Bahia: a Faculdade Livre de Direito.
Em Matas do Sertão de Baixo, livro que escreve sobre o recôncavo baiano, Isaías Alves traça sua genealogia: teria vindo da matriarca Úrsula Maria das Virgens, de quem descenderiam todas “as famílias baianas mais importantes por nós conhecidas” como as de Clemente Mariani, Pedro Calmon e Rômulo Almeida. Seu avô, Francisco Felix de Almeida Sampaio, foi senhor do Engenho Vargem Grande e junto com outros fazendeiros locais conseguiu comprar uma parada da única linha de trem que ligava a cidade à Nazaré, centro econômico regional.68
Isaías Alves, entretanto, não parece ter nascido em época áurea dos Alves de Almeida. Foi o primogênito de uma família de mais oito irmãos. Seu pai, Aprígio
66 O Imparcial. 09/01/1930.
67 ALVES, Isaías. Teste Individual de inteligência. Rio de Janeiro, Typ. d’A Encadernadora, 1926. 68 ALVES, Isaías. Matas do Sertão de Baixo. Rio de Janeiro, Reper, 1967. p.32.
Alves de Almeida, comerciante de fumo, teve participação política em Santo Antonio de Jesus no começo do século XX, quando estava entre os conselheiros municipais da cidade. Mais tarde seu desafeto, Coelho Lima, passou a dominar a política local tornando-se ao mesmo tempo intendente, tabelião, escrivão de órfãos, escrivão de feitos civis e criminais.69 Neste período, Isaías Alves já morava em Salvador e complementava sua renda com as aulas de história que ministrava no Ginásio Ipiranga.
Alves ainda era professor deste Ginásio quando se formou na Faculdade de Direito da Bahia em 1910. Nesta época as escolhas não eram muito amplas. No estado havia a Escola Politécnica, a Faculdade de Medicina da Bahia e a Faculdade de Direito. Marcos Chor Maio aponta um dos fatores que determinavam as opções acadêmicas: as preferências de classe. Enquanto a elite econômica, predominantemente rural, preferia a Faculdade de Direito, as camadas médias e subalternas escolhiam a medicina.70 Para Miceli, até a Primeira República, a Faculdade de Direito era a instância suprema no campo da produção ideológica, concentrando inúmeras funções políticas e culturais ao mesmo tempo em que supria a demanda de elementos treinados para os cargos administrativos, políticos e do magistério superior.71 Como veremos, Isaías Alves tornou-se professor universitário só muito tardiamente, aos 54 anos, com a criação por ele da Faculdade de Filosofia da Bahia em 1942, mas sua trajetória foi marcada pela atuação na burocracia estatal brasileira.
Seu trabalho com testes de inteligência teve início na década de 1920. A persistência em considerar categorias raciais como fator de diferenciação da capacidade mental, 72 num momento em que a eugenia ganhava outra dimensão, pode ser explicada
pela sua formação. Ao analisar a emergência da antropologia como disciplina autônoma, Mariza Correa nos chama a atenção para a formação do intelectual brasileiro que “se restringia quase só a possibilidade de tornar-se ele um médico, jurista ou engenheiro”. Para ela, ao invés de estreitar ou condicionar os interesses a esses campos já constituídos, a falta de opção teve “como resultado a ampliação dos parâmetros teóricos e práticos dentro dos quais foram se constituindo novas disciplinas”.73 Dentre elas, podemos apontar a própria antropologia, mas também a sociologia e a psicologia,
69 Idem. p.268.
70 GOMES apud MAIO, Marcos Chor. MAIO, Marcos Chor. “A Medicina de Nina Rodrigues: Análise de
uma Trajetória Científica”. Cad. Saúde Pública, vol.11 no.2 Rio de Janeiro Abr./Jun. 1995. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/csp/v11n2/v11n2a05.pdf Acessado em: 14/12/2010. p.
71 MICELI, Sérgio. Intelectuais e classe...p.35 72 Ver: Capítulos 2 e 3.
base das teorias educacionais que ganharam espaço nos anos 30 e com as quais Alves trabalhou.
A década de 1910, porém, teve como prevalência as teorias raciais de que já falamos, e que viam no mestiço e no negro uma ameaça ao progresso do país. A força da antropologia criminal e da medicina legal, que enfatizavam a raça como fator definidor da tendência ao crime e aos vícios não deve ser desprezada na formação de Isaías Alves. Pouco antes de Isaías ingressar na Faculdade de Direito, Nina Rodrigues havia publicado As Raças Humanas e a Responsabilidade Penal no Brasil (1894) que, além de lançar as bases da medicina legal brasileira, “revela a crescente influência, desde o final do século XIX, da medicina no campo do direito”.74
A construção do sentido e o resultado de suas experiências com crianças tem base nas teorias pedagógicas desenvolvidas posteriormente, mas devem guardar alguns pressupostos herdados de sua formação em Direito. Além disso, os autores norte- americanos lidos e comentados por Isaías Alves acreditavam na superioridade da raça branca em detrimento dos negros e mestiços. Um exemplo é Lewis Terman, figura central na popularização do uso de testes de inteligência em crianças nos Estados Unidos, que defendia que crianças negras de lares pobres tinham como herança uma inteligência inferior.75
Outro fator que não deve ser ignorado é a viagem de seu irmão Landulfo Alves aos Estados Unidos em 1920. Landulfo, posteriormente interventor da Bahia (1938- 1942), recebeu uma bolsa do governo baiano para estudar agronomia no Texas. A viagem de Landulfo ao Texas não foi fator isolado. Pallares-Burke76 mostra que muitos recifenses também frequentaram aulas neste Estado, particularmente na Universidade de Baylor, Waco. No caso dos alunos de Recife, esse intercâmbio era facilitado pelo Colégio Americano Batista, que tinha em seu quadro de professores muitos ex-alunos de Baylor. Este é o caso de Gilberto Freyre, que chegou nesta Universidade, ainda em 1918.
Freyre conheceu Landulfo Alves em 1919, quando escreve sobre ele em seu diário. Segundo Freyre, Landulfo havia perguntado em que ele iria se formar e ele havia respondido que ainda não tinha se decidido, que se interessava apenas em estudar e aprender. Freyre registra sua reação:
74 MAIO, Marcos Chor. Op. Cit.
75 GOULD, Stephen Jay. The mismeasure of men. New York, Norton, 1993. p.189.
76 PALLARES-BURKE, Maria Lúcia. Gilberto Freire: um vitoriano nos trópicos. São Paulo, Unesp,
Ele se escandaliza. Arregala os olhos como se estivesse diante de um maluco. Diz que eu preciso escolher um curso em que me doutorar: Medicina, Engenharia, Direito, Agronomia. Do contrário, adverte, ficarei sobrando no Brasil. A conclusão é que, segundo L. A., o Brasil de hoje só daria valor ao “doutor”, ao doutorado seja lá em que for; e podendo até ser instruído, douto, bem preparado. (Aqui entra minha ironia).77
A situação, ainda que meio anedótica, exprime um aspecto da formação desses intelectuais brasileiros, que ganhavam maior credibilidade ao exibir um certificado de uma instituição estrangeira. Não cabe aqui discutir minuciosamente as diferenças das circunstâncias que envolveram a viagem de estudos de ambos. Para entender a perspectiva de Landulfo, o fato de ter sido financiado pelo governo e não por seus pais (como no caso de Freyre) parece ter implicado a necessidade de voltar com um resultado mais concreto que sinalizasse a utilidade de sua viagem para o governo baiano.
Ao mesmo tempo em que tratava de conseguir um diploma, Landulfo estudava aspectos técnicos da produção agrícola e discutia com seu irmão, através de cartas, as peculiaridades do sistema de ensino norte-americano. As cartas enviadas por ele a Isaías encontram-se no arquivo pessoal deste último e comentam assuntos variados: a situação financeira do Colégio Clemente Caldas, que possuíam na cidade de Nazaré, a política baiana, as decisões familiares, além do modelo de educação que estava conhecendo durante sua estadia.
As cartas revelam o fascínio dos dois pela organização do ensino nos Estados Unidos. Numa delas, Landulfo Alves comenta as pretensões de Isaías Alves de ir aos Estados Unidos: “A tua idéia de visitar os Estados Unidos no intuito de estudar o sistema de educação aqui adotado, deve ser realizada, pois creio muito terás que ver e muita coisa encontrarás de fácil aplicação no nosso meio”.78 E aconselha:
“Estou, entretanto, certo de que se te pretendes mudar para o Sul, a tua viagem a este país deve preceder a esta mudança. Terias, estou certo, plano inteiramente novo. O espírito prático que o americano imprime à educação do moço é um ponto importantíssimo para nossos educadores. Nenhum país pode-nos servir de guia como os Estados Unidos”.79
Landulfo Alves prosseguia ressaltando que os norte-americanos tinham uma vantagem sobre os europeus em matéria de administração escolar: mesmo com um vasto
77 Freyre, Gilberto. Tempo Morto e Outros Tempos. São Paulo, Global, 2006. p.69.
78 Carta de Landulfo a Isaías Alves (Forth Worth, Texas, 12 de junho de 1920). FFCH. Arquivo pessoal
de Isaías Alves. Série: documentos familiares, Subsérie: correspondências.
território, eles haviam conseguido adaptar e aplicar as teorias educacionais européias com sucesso. Por isso, serviriam como exemplo mais adequado ao Brasil, que também era um país de grandes proporções.
Além das cartas, seu irmão também parecia lhe enviar alguns livros e revistas como a Literary Digest. Em viagem à Europa, Landulfo Alves enviou-lhe um exemplar de um livro de Henri Pierón, psicólogo francês que investigava a aprendizagem infantil. Assim, as cartas sinalizam que Isaías Alves lia e se atualizava também com a ajuda de seu irmão, que lhe enviava material para estudo durante suas viagens.
Mais tarde, já em 1930, Isaías Alves foi aos Estados Unidos especializar-se em psicologia educacional no Teacher’s College da Universidade de Columbia, Nova Iorque. Assim como seu irmão, Isaías ganhou bolsa de estudos do governo baiano para realizar tal empreitada e voltou como “doutor” ou mais especificamente Master of Arts and Instructor in Psychology. Columbia possuía um Instituto Internacional, que recebia alunos estrangeiros. Para Warde,80 esse Instituto era parte da política de popularização da cultura americana, que também contava com incentivos da Fundação Rockfeller, e foi lá que Isaías Alves foi recebido. Essa trajetória vai influenciar o trabalho de Isaías Alves ao lado de Anísio Teixeira na Diretoria Geral de Instrução Pública e também suas posições diante das questões educacionais colocadas pelos intelectuais de sua época.
Em 1931 foi nomeado membro do Conselho Nacional de Educação, onde permaneceu até 1958. A permanência de Isaías Alves no CNE durante 27 anos não deve ser desprezada e pode ser explicada justamente pelas posições conservadoras que este educador adotou. Para ele, o ensino devia estar a serviço do Estado e era mais um mecanismo de socialização de deveres do que de direitos. Por isso, ao longo de sua participação no Conselho, Isaías Alves tendia a defender os interesses do Estado, que na sua visão deveria ser o centro irradiador da ordem, considerada por ele fundamental para o progresso brasileiro.
A mudança política gerada pelo golpe do Estado Novo, longe de ameaçar sua posição, reforçou suas convicções e colocou seu irmão, Landulfo Alves à frente da interventoria do Estado da Bahia. No caso de Isaías Alves, estudar a sua atuação enquanto secretário de educação durante essa interventoria é importante para perceber como suas concepções educacionais se expressaram em políticas públicas efetivas. Daí vale confrontar este período (1938-1942) com outras duas questões-chaves na trajetória
de Isaías Alves: o trabalho com testes de inteligência e sua ligação com o integralismo. É o que tentaremos fazer nos capítulos seguintes.
Capítulo II
Testes de inteligência: trajetória de uma teoria.
Para explorar o surgimento dos testes de inteligência e sua relação com a consolidação do campo da psicologia educacional brasileira faz-se necessário compreender o contexto que possibilitou a circulação dessas ideias entre Brasil e Estados Unidos. Como veremos a seguir, os testes franceses foram pioneiros na avaliação da inteligência e também tiveram importância no país. Entretanto, escolhemos enfatizar a experiência norte-americana em virtude da influência que exerceu no trabalho de Isaías Alves, personagem central dessa dissertação.
2.1 Identificando dificuldades: programa de educação especial na França e seus