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A psicologia norte-americana, em grande medida influenciada pela alemã, parece ser um bom referencial para entender o desenvolvimento da psicologia educacional no início do século XX. Segundo Schultz,86 o nascimento da psicologia moderna tem como marco a instalação do Laboratório de Psicologia em Leipizig, Alemanha, em 1879 por Wundt. Anteriormente, a disciplina dividia o campo – e as cadeiras universitárias – com a filosofia. Somente quando os pesquisadores passaram a se apoiar na observação e na experimentação cuidadosamente controladas para estudar a mente humana é que a psicologia começou a alcançar uma identidade que a distinguia de suas raízes filosóficas.87

Em processo de afirmação enquanto ciência, a psicologia se desenvolveu nos EUA de forma mais expressiva e foi criada, neste país, a primeira cadeira de psicologia em 1888, na Universidade da Pensilvânia. No início do século XX, já havia três vezes

86 SCHULTZ, Duane e SCHULTZ, Sydney. História da psicologia moderna. São Paulo, Cultrix, 1992. 87 Idem. p.18.

mais psicólogos norte-americanos formados do que laboratórios norte-americanos que pudessem empregá-los. Para William Gomes,88 se a realização de experimentos deu a psicologia seu status de ciência, a inserção profissional ocorreu através da avaliação psicológica. Schultz também demonstra como o período de afirmação do valor prático da psicologia coincidiu com o período de expansão escolar nos EUA. Deste modo, muitos psicólogos norte-americanos se voltaram para o campo da psicologia aplicada à educação.

Neste país, um dos primeiros psicólogos a trabalhar com os testes de inteligência foi Henry Goddard89 em 1908, quando ele traduziu a escala de Binet. Ele trabalhou com pequenos grupos de alunos numa escola para débeis mentais90 em Vineland, Nova Jersey, e também realizou experiências com imigrantes europeus que chegavam aos Estados Unidos. Para ele, havia uma grande ligação entre a falta de inteligência ou debilidade mental e a imoralidade, uma vez que os débeis mentais tinham dificuldades em compreender os códigos morais e maior tendência para desenvolver vícios, como o alcoolismo.

Lewis Terman foi considerado um dos principais difusores dos testes de Binet nos EUA e, embora não tenha sido o primeiro psicólogo americano a usar os testes de Binet neste país, ele foi o primeiro a utilizá-los em crianças consideradas normais.91 Em 1916, ele publicou “A medida da inteligência”,92 no qual divulgava uma adaptação dos

testes de Binet para as escolas americanas desenvolvida na Universidade de Stanford,

88 GOMES, William. “Avaliação psicológica no Brasil: Test de Medeiros e Albuquerque.” Aval.

Psicológica [online]. Jun 2004. vol.3 n°1. Disponível em: http://scielo.bvs- psi.org.br/scielo.php?pid=S1677-04712004000100007&script=sci_arttext Acessado em 08/04/2007.

89 Henry Herbert Goddard (1866-1957), PHD em psicologia pela Universidade pela Clark University,

Massachusets. Entre 1906 e 1918 trabalhou como diretor do laboratório de pesquisas da Vineland Training School, New Jersey, uma escola para alunos que possuíam algum tipo de retardamento mental. Seu livro mais conhecido, The Kallikak family: a study in the heridity of Feeblemindedness, partia de um estudo de caso (de uma família cujo sobrenome havia sido mudado para Kallikak) para comprovar sua tese de que o retardamento mental era hereditário. Sobre o trabalho de Goddard ver GOULD. Op. cit. pp.158-154.

90 Feeble-minded, no original, uma classificação geral utilizada pelos psicólogos que englobava desde os

alunos limítrofes até os considerados idiotas. Goddard utilizava mais frequentemente “moron”, palavra criada por ele a partir de uma palavra grega que significava tolo. GOULD. Op. Cit. p. 159.

91 FASS, Paula S. “The IQ: a cultural and historical framework.” American Journal of Education, v. 88,

n°4 (Aug.1980). Disponível em: www.jstor.org/stable/1085358 Acessado em 24/09/09. p. 434.

92 TERMAN, Lewis. The measurement of intelligence. Boston, Houghton Mifflin, 1916. Terman (1877-

1956), PDH em psicologia na Clark University, Massachusetts, foi professor da Universidade de Stanford entre 1910 e 1956. Sua adaptação dos testes de Binet também foi possível graças ao compromisso da Universidade com sua pesquisa, que permitiu que os estudantes da pós-graduação se tornassem seus assistentes de pesquisa. Seus livros influenciaram psicólogos e educadores brasileiros interessados nas questões sobre a inteligência.

Califórnia. Esta adaptação, que ficou conhecida como Stanford-Binet, foi, posteriormente, muito utilizada nas escolas americanas.93

Os primeiros testes foram desenvolvidos para serem realizados individualmente e exigiam treinamento especializado para quem os aplicava, além da necessidade de cronometrar o tempo de resposta, requisitos já defendidos por Binet. Por isso, inicialmente foram realizados em pequena escala, como no caso das experiências de Terman nas escolas da Califórnia.

Os testes de inteligência ganharam maior notoriedade na seleção de recrutas americanos que serviram durante a 1ª Guerra Mundial. O chamado Army Mental Test, que havia sido adaptado por Yerkes94 com o auxílio de Terman e Goddard, foi desenvolvido para avaliar tanto recrutas alfabetizados (teste Alfa) quanto os analfabetos (teste Beta). A aplicação dos testes no exército foi a primeira experiência com o uso de testes coletivos em larga escala em um momento importante de ascensão militar dos EUA.

Quando os homens alfabetizados falhavam no teste Alfa, que era um teste escrito, deveriam ser testados novamente com o teste Beta, que continha apenas figuras e cujas instruções eram lidas pelos examinadores. Os homens analfabetos ou estrangeiros também foram testados com o teste Beta, uma vez que não poderiam ler as questões presentes no teste Alfa. Só quando o indivíduo falhava nos dois testes é que era examinado por uma versão do teste individual de Binet.

Ao contrário das adaptações dos testes franceses, as notas eram dadas por conceito e variavam de A até E. Um indivíduo que havia obtido nota D, por exemplo, era considerado incapaz de exercer tarefas que exigissem alguma habilidade específica e possuía inteligência inferior (D) ou muito inferior (D-). A partir desse conceito, Yerkes sugeria que os recrutas fossem direcionados às funções que lhes exigissem a habilidade diagnosticada seguindo o mesmo raciocínio da associação entre QI e futuro profissional presente no ambiente escolar.

93 O próprio Isaías Alves afirma que sua adaptação foi a mais adotada nos Estados Unidos. Ver seu livro:

Teste Individual de inteligência. Rio de Janeiro, Typ. d’ A Encadernadora, 1932. p. 23-24

94 Robert Yerkes foi professor de Psicologia em Harvard desde 1902 e lutava pelo reconhecimento de sua

disciplina enquanto ciência. Sobre Yerkes e sua experiência com os testes do exército ver: GOULD, Stephen Jay. Op. cit. p. 192.

Além de Yerkes, Edward Thorndike95 trabalhou a serviço do governo americano realizando a seleção de oficiais do exército e de aviadores para a aeronáutica. Thorndike ficou mais conhecido pelo trabalho de pesquisa que realizou, posteriormente, no Laboratório de Psicologia da Universidade de Columbia, em Nova Iorque. Uma de suas preocupações era estabelecer bases sólidas para o tratamento quantitativo da pesquisa em psicologia. Este trabalho no exército também foi importante por ter sido através dele que Thorndike conseguiu recursos para equipar o laboratório da universidade com um sistema de computadores, o que permitiu cruzar uma grande quantidade de dados recolhidos nas pesquisas psicológicas utilizadas posteriormente nas escolas.96

Benzer Belgeler