DIE POLITISCHE MACHT UND GEWALT IN DER TÜRKE
3. Materyal Metod
3.1. Veri Toplama Araçları:
Em 30 de abril de 1739, a nova mesa da irmandade resolveu ajustar “toda a obra que falta fazer nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto”. Seria feito um rol com o restante da obra, e lançada a arrematação:
Termo p.ª o Ajuste detoda aoBbra q’ falta p.ª fazer nesta Igr.ª Matriz de N. Sr.ª do Pillar do Ouro Preto
Aos trinta dias domes de Abril demil eSetecentos e trinta e nove an.ºs nesta Igr.ª de N. Snr.ª do Pillar do ouro preto estando em meza o Provedor emais Ir.ºs eofficiais da d.ª meza da Irmandade do Santissimo Sacram.tº da d.ª Igr.ª Acordaram todos uniformem.te aque Seprocedesse aRemataçam de todo o resto da obra q’ falta p.ª a Igr.ª de que se dá Rol p.ª q.m ouver de Rematar e decomo todos assim o disseram equerem se fez este tr.º q’ aSignaram comi- go o escrivaõ da d.ª Irmandade Antº Gómez de Souza q’ oSobe escrevi ea
Signey121
Destacavam-se, nesse “resto da obra”, a fábrica e a ornamentação da capela-mor e seu re- tábulo. Por ser o lugar culminante do templo, o mais subido na ordem dos lugares sacros, à capela mor e seu retábulo foram dedicados zelo e prudência diligentes. Os mesmos preceitos que operaram na nave também foram considerados aqui, aplicados, há que se ver, com ên- fase e argumentos renovadamente adequados. As obras continuaram nas mãos de Antônio Francisco Pombal, pois em termo de entrega da Mesa, assinado em 30 de abril de 1740, foi noticiada a “escriptura” de obrigação do arrematante com “a nova obra da Igreja”, feita com o tabelião Bento Araujo Pereira122.
A disposição é habitual (FIG. 19). O arco-cruzeiro liga a capela à nave, e o nível do altar, ergui- do em cinco degraus, é antecedido por um pequeno presbitério em que se abrem duas portas laterais com acesso aos corredores para a sacristia. As quatro faces do cômodo são arrema- tadas por arcos perfeitamente simétricos: o cruzeiro, o que arremata a volta do retábulo-mor, e os dois arcos que culminam as paredes laterais. Sobre esses quatro arcos, se levantam os elegantes pendentes do barrete, tendo ao centro o tondo da Santa Ceia (FIG. 20). A pintura substituiu o vazio deixado pela retirada do zimbório, mas voltaremos a isso oportunamente. Nas paredes laterais, foi rica a talha aplicada (FIG. 21). Painéis de madeira formam um fundo
uniforme sobre o qual se aplicou um requintado repertório decorativo dourado, guirlandas de flores, medalhões, anjos e querubins, conchas e numerosas chambranles verticais que caracterizam a decoração, inclusive nas ilhargas do arco-cruzeiro. Afora esses elementos,
bizzarrias e “brutescos” que enriquecem a pompa e o aparato da glória eucarística, há as
figurações, muito comuns, das quatro estações (tópicas da vida), colocadas na barra das paredes laterais, e dos quatro evangelistas, dois em cada lado, um pouco acima da barra. Há também duas telas bem delgadas, colocadas no centro entre as duas sacadas abertas na tribuna superior, a representar, de um lado, a videira, e do outro, o trigo, remissivos ao vinho e ao pão da Eucaristia (FIG. 22).
121 CECO-PILAR-Sm.º St.º, Filme 11, vol. 224, fl. 38. “Termo p.ª o Ajuste detoda aoBbra q’ falta p.ª fazer
nesta Igr.ª Matriz de N. Sr.ª do Pillar do Ouro Preto”. Vila Rica, 30/04/1739.
122 CECO-PILAR-Sm.º St.º, Filme 11, vol. 224, fl. 38. “Termo de Entrega quefazem os Officiais que aca-
Figura 21 – Vista da capela-mor, lado do Evangelho
Toda elocução está organizada em painéis geo- métricos de medidas várias, predominantemente retangulares, dispostos conforme linhas horizon- tais e verticais definidas por pilastras e cornijas. A matriz dessa geometrização é efetivada por outra camada de talha aplicada no meio dessas pa- redes laterais. A talha ressaltada conforma uma espécie de fachada arquitetônica interna mais saliente em relação ao fundo, também entalhado (FIG. 23). Sua distinção se amplifica pelo fingi- mento de mármore azul-esverdeado aplicado em suas arquitraves e cornijas, e também nas guar- nições das varandas das tribunas. Esta fachada
interna divide em panos bem proporcionados a
superfície da parede, nos quais foram aplicados Figura 22 – Painéis da capela-mor
São Mateus
São Marcos
São Lucas
São João
Vinha
Espigas de Trigo
Figura 23 – Vista da parede da capela-mor, lado da Epístola
os acidentes da decoração. A correspondência com a espécie da talha aplicada na nave é muito discreta e sutil, efetivada pelo caráter de pompa, pela cor do fingimento e pelo artifício similar do acrescentamento. O mesmo fingimento também foi aplicado nos entablamentos do arco-cruzeiro e do retábulo-mor, aperfeiçoando a correspondên- cia entre as partes do corpo interno da Igreja; e também no fuste das colunas salomônicas que estruturam o pé-direito do retábulo-mor, em seus dois terços superiores, já que o terço inferior foi decorosamente estriado e dourado, como o de- senho muito autorizado123 que fizera Bernini para as quatro colunas de sustentação do baldaquino de São Pedro (FIG. 24). Sobre a cornija de co- roamento dessa fachada interna, que engenho- samente emoldura as aberturas de tribunas e as portas laterais, foram assentadas oito personificações alegóricas, as virtudes teologais e car- deais, acrescidas da figura da Fama, muito imitada nos teatros sacros da monarquia lusitana, com o “pertence” característico da trombeta (FIG. 25; 25.1 até 25.8).
123 Cf. HILL, Marcos. A coluna salomônica: uma perspectiva histórica sobre um elemento ornamental.
Revista Barroco, n. 17, Belo Horizonte, p. 231-236, 1996.
Figura 24 – Detalhe da parede da capela- mor, lado do Evangelho, e parte do retábulo, com destaque para as colunas salomônicas no primeiro registro lateral
Figura 25 – Parte da parede da capela-mor, lado da Epístola, com destaque para a disposição das Virtudes, acima do en- tablamento
Figura 25.1 – Fé Figura 25.2 – Esperança Figura 25.3 – Caridade
Figura 25.4 – Prudência Figura 25.5 – Justiça Figura 25.6 – Fortaleza
As oito virtudes estão comodamente dispostas sobre o entablamento, tendo as pernas caídas sobre a cornija, num movimento que dissimula o esforço de disposição do corpo com discreta
sprezzatura124. Estudiosos já acreditaram que algumas dessas figuras vieram da armação do Castrum doloris de D. João V, hipótese de que eu discordo a partir da descrição que se tem delas na ecfrasis encomiástica de 1751125. Nesta descrição, se tem notícia de quatro virtudes, “em que mais resplandeceo o defuncto Rey, fingindo todas mármore branco”126: Fé,
Justiça, Prudência e Caridade. As virtudes de Pilar, no entanto, estão todas encarnadas, ou
seja, pintadas com cromatismos correspondentes à imitação de corpos e panejamentos, com distinção entre elas. A encarnação poderia ter sido feita posteriormente, mas não é apenas essa a divergência. A documentação indica que a figura da Fé se encontrava “em acto devoto olhando para hua Cruz que tinha na mão direita, com a qual se dava a conhecer a viva fé que professou o Serenissimo Rey defuncto, e procurou dilatar por todos os seos dominios”. Já na mão esquerda, continua a descrição, “se figurava um livro, pendendo da mesma hua tarja em que se lia: ‘Dabitur (?) die Fidei doum electum’”. Entretanto, a mão esquerda da Fé que está na capela se reclina sobre o peito, em conformatio afetiva de veneração. Voltando ao docu- mento, a Prudência, “com a divisa das Cobras na mão [direita]” deveria ter, na esquerda, uma “pequena tarja, em que se lia: ‘prudentiam tuam (?)’”. Em Pilar, uma cobra apenas está na mão esquerda, e não na direita, com disposição de dedos adequada a segurá-la, e não há sinais de que tenha havido tarja. Para a Caridade, o documento descrevia uma “chama ardente que na mão se via e os olhos no Ceo significando o amor com que o Serenissimo Rey defuncto se
124 Muito desenvolvida no tratado O cortesão (Il corteggiano), de Baldassare Castiglione, como virtude
cortesã capaz de enovelar o esforço técnico do artifício na dissimulação de uma naturalidade “displi- cente” ao produzir gestos, invenções e efeitos, a sprezzatura, além de ser uma qualidade das represen- tações, capaz de evidenciar com eficácia os movimentos “naturais” da alma, era uma qualidade muito requerida aos cantores ditos “barrocos”, que deveriam encobrir a técnica do artifício ao cantar melodias repletas de ornamento, cromatismos e coloraturas. Cf. CASTIGLIONE, Baldassare. O cortesão. Trad. de Carlos Nilson Moulin Louzada. São Paulo: Martins Fontes, 1997. Livro Primeiro, XXVI, p. 41-43, e Livro Segundo, XLIX, p. 138-139. Agradeço a informação relativa ao canto à amiga Letícia Bertelli. Num tratado sobre poesia e pintura, Manuel Pires de Almeida emulou a tópica, ao tratar da terceira das “condições” necessárias a pintores e poetas: “Deve a diligência ser tão disfarçada que não mostre artifício”, pois deixa de ser arte se aparece: “desinet ars esse, si aparet”. A citação latina atualizava Quintiliano, Institutio Oratoria, L. IV, 2, 127. Cf. ALMEIDA, Manuel Pires de. Poesia e pintura ou pintura
e poesia. Transcrição e introdução de Adma Muhana. Tradução do latim de João Angelo Oliveira Neto.
São Paulo: Edusp; Fapesp, 2002, p. 130-131.
125 Marcos Hill comentou a hipótese aventada para a identidade das figuras num debate entre ele e o
historiador José Manuel Tedim, durante o II Colóquio Luso-brasileiro de História da Arte, Ouro Preto, 1992. A hipótese foi levantada justamente a partir do documento que contém a ecfrasis das exéquias de D. João V em Ouro Preto, já comentado no início deste capítulo. Cf. HILL, Marcos. Francisco Xavier de Brito: um artista português desconhecido no Brasil e em Portugal. Revista do IFAC/UFOP, Ouro Preto, n. 3, dez. 1996, p. 50 (nota 15).
126 Cf. BREVE DESCRIPÇÃO... In: TEDIM, José Manuel. Teatro da morte e da glória: Francisco Xavier
prostrou para com Deos na observância da sua Ley”, além da presença de um pelicano aos seus pés. Na capela do Pilar, entretanto, a Caridade possui o olhar raso, horizontal, dirigido à mão direita, levemente soerguida, que até poderia comportar uma chama, todavia ausente. Assim, defendo serem outras as imagens, inventadas em acordo com as demais virtudes da capela-mor, e especialmente para a sua ornamentação.
Na face direita da capela, uma virtude empunha um espelho. Estudiosos acreditam que se tenha então figurado por duas vezes a prudência, pois na face direita, junto às virtudes teolo- gais, está a figura com a serpente, representação muito comum da Prudência, autorizada por Ripa no comentário ao Evangelho de São Mateus127. Na face esquerda, no entanto, o atributo da terceira virtude, o espelho, não diria respeito à Prudência duas vezes esculpida, e sim à
Temperança, pois é desta também um atributo, embora menos usual128.
Em 02 de agosto de 1741, lavrou-se um termo129 pelo qual se determinou um “acrescentamen- to da Capela-mor” conforme o “novo risco que para ela deu o Sargento-Mor novo engenheiro”. A arrematação tocou mais uma vez a Antônio Francisco Pombal:
Termo q’ Se fes em meza p.ª Seacrecentar a Capela mor pelo novo Risco q’ p.ª ella deu o Sarg.t° Mor novo emgenheyro
Aos dois dias domes de Agosto de mil eSetecentos ecorentae hú annos nes- ta Igr.ª Matris de N. Sr.ª do Pillar do Ouro Preto estando em meza oescrivaõ por vez do P.dor emais off.es e Irmaõs ajustaraõ uniformem.te a fazerce oa- crescentam.t° dacapela mor pello novo Risco q’ p.ª ella deu oSargento Mor emgenheyro eajustamos todos em q’ sedese a dita obra aAntonio Fran.c° Pombal p.ª este afazer pelo d.° Risco e feyta ella pagarcelhe os acrecimos
127 “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas sim-
ples como as pombas”. (Mateus 10:16). O conselho era dirigido por Cristo aos discípulos. Ripa ci- tou a passagem: RIPA, Cesare. Iconologia overo Descrittione dell’Imagini universali (1593). cavate dall’antichità et da altri luoghi da Cesare Ripa Perugino opera non meno utile che necessaria a Poeti, Pittori, Scultori, per rappresentare le virtù, vitii, affetti, et passioni humane. In Roma, Per gli Heredi di Gio. Gigliotti M. D.XCIII Con Privilegio Et con Licenza de’ Superiori, p. 224. Disponível em: <http://bivio. signum.sns.it/bvInfo.php>. Acesso em: 18 fev. 2007.
128 Cf. PILLARD-VERNEVIL, Maurice. Diccionario de símbolos, emblemas y alegorías. Trad. de Almu-
dena Alfaro. Barcelona: Ediciones Obelisco, 1998, p. 206-207.
129 Os termos de entrega de mesa de abril de 1739 e abril de 1740 possuem referências a uma escritura
de obrigação feita com Pombal para a “nova obra da igreja”. O termo de 1739 foi lavrado no mesmo dia, provavelmente na mesma reunião, em que se decidiu arrematar todo o resto da fábrica. Não é segura, portanto, a afirmação de que os termos dessas entregas se refiram à nova obra da capela mor, podendo a lembrança da obrigação de pagamento ao rematante se referir a saldos devedores ainda das obras da nave. Cf. CECO-PILAR-Sm.º St.º. Filme 11, vol. 224, fl. 40. “Termo de entrega que fazem os officiais que acabaraõ aos novos Eleitos”. Vila Rica, 30/04/1740; e também o termo à fl. 37: “Termo de Entrega que fazem os officiais que acabaraõ aos novos eleitos”. Vila Rica, 30/04/1739.
daobrigaçaõ q’ tem pagandocelhe todo o perjuizo q’ tiver das madeyras q’ tinha lavrado para forar [forrar?] a dita capela pela obrigaçaõ q’ tinha feyto p.ª oq’ Semeterão dois Louvados porparte da meza e od.° Pombal meterá outros dois pela avaliar oacrecimo e perjuizo q’ teve nas ditas madeyras q’ lavrado tinha e de como assim uniformem.te seajustou fis este termo q’ aSigney como Escrivaõ da Irm.de130
Como fica claro, Antonio Francisco Pombal havia ajustado e feito obrigação da obra antes dos acréscimos implicados pelo “novo risco” do “sargento mor novo engenheiro”. Além de pagar pelos acréscimos que ele teria no desempenho da obra previamente ajustada, um detalhe parece ser muito importante. Pombal já havia lavrado madeiras para “forrar a dita capela pela obrigação que tinha feito”, mas, com o novo risco, essas madeiras não iriam mais servir, pelo que então elas seriam avaliadas, e pagas, para sanar seu “prejuízo”. Alguma coisa no forro da capela havia mudado significativamente, com esse novo risco do engenheiro, para determi- nar a inutilidade das madeiras cortadas conforme a primeira obrigação. Pombal faliu antes de terminar a obra, e por isso foi feito um ajuste entre ele, arrematante, e o mestre Antônio dos Santos Portugal, para que este levasse a obra até a “última perfeição”131. O ajuste entre Pom- bal e Portugal teve como objeto o que faltava da obra como um todo, e não apenas a capela- mor, pois dentre os vários recibos assinados por Portugal e os termos relatados pelo escrivão da Irmandade132, há referências a pequenas obras feitas, por exemplo, no consistório. O valor total dos recibos assinados por Portugal constitui a exata soma ajustada, 339 oitavas de ouro mais alguns quebrados em vinténs que não conferem, e que significavam pouco diante do va- lor total em oitavas. Outro detalhe importante de todo esse movimento fabril é que em nenhum momento, até aqui, se fala na construção do zimbório, arrematado que foi, como veremos, um pouco mais à frente, com as obras de talha e carpintaria fina da capela-mor. A hipótese mais provável, penso eu, obedece a uma razão de engenho construtivo. Previsto pelo risco a se erguer no meio da abóbada, a posição da boca do zimbório (nível e marcação) teria que concordar com o lançamento dos arcos e pendentes precisamente definidos pela construção do retábulo e do forro da capela integrados, obras ainda a se executar pelo entalhador arre- matante, numa precisão de detalhes, encaixes e medidas que teria que ser levada em conta
130 CECO-PILAR-Sm.º St.º, Filme 11, vol. 224, fl. 41. “Termo q’ Se fes em meza p.ª Seacrecentar a Ca-
pela mor pelo novo Risco q’ p.ª ella deu o Sarg.t° Mor novo emgenheyro”. Vila Rica, 02/08/1741.
131 CECO-PILAR-Sm.º St.º, Filme 11, vol. 224, fl. 75. “Termo de quitação e desobriga que da Antonio
Franc.° Pombal como aRematante da obra a que Se obrigou por huma escritura passada na nota e Cartorio que em que Servio de escrivaõ Bento de Ar.° Per.ª a Irmandade so Santissimo Sacramento da Irg.ª (sic) de N. Snr.ª do Pilar douro preto”, fl. 74v – 76. Vila Rica, 08/12/1744.
132 Os recibos foram situados às folhas 78 e 79v do mesmo volume 224 da Paróquia de Nossa Senhora
a fim da perfeição. Assim, ficava difícil, para Pombal, ou seu substituto, Portugal, deixar o zimbório, por assim dizer, pendurado, à espera do delicado arremate do forro com o elemento; ao passo que tudo seria mais simples para o arrematante da carpintaria e talha da capela (e construtivamente coerente), que correria as linhas e os prumos aptos a marcar a justa inter- secção das peças. Outra condição documental corrobora essa hipótese. Como veremos, no momento decisivo para a construção do zimbório, que ainda seria modificado por louvados, chegou a ser feito um “modelo” em madeira, uma maquete, em escala reduzida, para orientar a construção133. No documento que faz referência a esse modelo, se falou na estrutura de madeira que sustentaria ambos, a abóbada do forro e o zimbório – ou seja, eles estavam bem cientes da necessidade em se fazer tudo conjuntamente. Ademais, o zimbório foi feito mesmo em madeira, na continuidade material e aparente da superfície que forrava a abóbada do teto. O tal “sargento-mor novo engenheiro” do risco, como veremos, acredito ser José Fernandes Pinto Alpoim, mas chegaremos ainda a outros documentos igualmente competentes. Outro nome já foi sugerido. Na citação que fez a esse documento, Carlos Del Negro concluiu pelo nome de “Pedro Gomes Chaves”134. Del Negro concluiu por ele baseado, provavelmente, no fato deste nome aparecer no Registro de fatos notáveis escrito pelo vereador de Mariana, Joaquim José da Silva. Neste registro, o vereador aliás não afirmava, mas conjeturava “tal- vez” ser de Pedro Gomes Chaves o risco da Igreja (c. 1712), e não do bem posterior acres- centamento da capela-mor, de 1741135. A edição de Arquitetura religiosa barroca no Brasil, de Germain Bazin, chegou ao cúmulo de apresentar, literalmente, o nome “Pedro Gomes Chaves” entre as aspas da citação que fez do suposto documento. Assim está: “1741, 2 de agosto – Decidiu-se ampliar a capela-mor (isto é, demolir a antiga e construir outra maior), o que seria realizado ‘pelo novo risco que para ela deu o sargento-Mor novo, engenheiro Pedro
Gomes Chaves’”136. Costuma-se dizer que Bazin recebeu as transcrições dos documentos de Minas Gerais dos funcionários do SPHAN, que efetivamente os pesquisaram, mas não
133 Procurei por alguma parte remanescente do zimbório, e também desta maquete, na Igreja e também
no Museu da Inconfidência, Ouro Preto. Segundo informações do Padre Simões, Pároco de Pilar, foram levadas para o Museu, algumas décadas atrás, peças de madeira dos depósitos da Igreja. A busca não ofereceu nenhum sucesso.
134 Cf. DEL NEGRO, Carlos. Escultura ornamental barrôca no Brasil, p. 54.
135 Cf. o Registro de fatos notáveis, um sumário das fábricas artísticas e arquitetônicas da capitania
escrita em 1790 pelo vereador de Mariana, Joaquim José da Silva, conforme BRETAS, Rodrigo. “Tra- ços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa...”. In: VEIGA, Efemérides mineiras, “18 de novembro de 1814”, v. 3 e 4, p. 996 et seq.
136 Cf. BAZIN, Germain, Arquitetura religiosa barrôca no Brasil, p. 78-79. (grifo nosso). Como se lê pelo
encadeamento das palavras, Bazin inseriu o nome no título mesmo do documento, e cita para ele o mesmo fólio “41” do livro da Irmandade, onde efetivamente não se vê nome algum do engenheiro.
interessa agora o mérito. Para além da severa crítica a esta inserção de um nome na suposta citação do documento, há que se acrescentar que nele não há nenhuma denominação para o tal “novo engenheiro”. Terá em outro, como veremos adiante, para “Fernandes Pinto Al- poim”. Além do mais, era pouco provável o “novo engenheiro” ter sido Pedro Gomes Chaves, chegado que foi, a Minas Gerais, havia pelo menos 30 anos, ainda em 1711, conforme um documento em que foi dada ordem para que o dito engenheiro fizesse “um mappa de todas estas terras”137. Assim, é até verossímil supor que o risco da Igreja do Pilar tenha sido mesmo de Pedro Gomes Chaves, que estava em Vila Rica em 1711, mas não do “acrescentamento
da capela-mor”, documentado em agosto de 1741. Encontrei outros documentos da presença
do importante engenheiro Gomes Chaves em Minas Gerais até 1715, pois estava neste ano “repartindo terras” e “acomodando moradores”, na vila de Pitangui, procedimentos muito efi- cazes ao aumento e formação das povoações138. Seria muito estranho alcunhar ainda como “novo engenheiro” um oficial chegado ao país havia tanto tempo. Pedro Gomes Chaves foi