De acordo com o Cardeal Serafim Fernandes de Araújo,108 Dom João Batista da Mota e Albuquerque foi um homem inteiramente singular, pois era dono do tempo, da calma e da tranqüilidade. Sabia principalmente ser amigo, era capaz de chegar ao mais pobre e enchê-lo de esperança, era capaz de chegar ao mais rico tocando alguma ópera porque vivia cantando. Foi um homem verdadeiramente extraordinário. Ele sempre foi entusiasmado por tudo, um entusiasmado pelo Concílio, e ele transmitia isso. E não só! Ele brigava pelas idéias do Concílio, principalmente aquelas que agradavam a ele, e as outras idéias que não o agradavam ele deixava um pouquinho de lado, mas foi um homem que amou profundamente o ser humano.
Dom João nunca foi uma pessoa polêmica. Ele sabia defender esse amor que tinha pela pessoa, pelo pobre, mas era exigente no que propunha. Era esse o encantamento dele. Ele não era um homem de sair brigando por motivo de uma idéia ou outra, mas se tocassem na pessoa humana era o mesmo que agredi-lo, e ele colocou isso na sua pastoral. Ele era ansioso, preocupado, mas tinha as idéias muito claras, e acredito que o que lhe fazia sofrer era o fato de ter as idéias tão claras do que devia ser feito e nem sempre tinha os meios e a receptividade para fazer.
3.1.4 Dom João: um ser político e social pautado na bíblia – Irmão Roque Plínio Loss
De acordo com o Irmão Marista Roque Plínio Loss,109 biólogo e teólogo, pós-
graduado em farmacologia, e que conviveu com Dom João Batista na Arquidiocese de Vitória, ele era humilde, magro, rosto vermelho, cabelos já esbranquiçados, firme em suas afirmações, mesmo quando os leigos discordavam. Por exemplo, quando os leigos diziam que podiam celebrar a Eucaristia como qualquer outro sacerdote, postura essa com que Dom João não concordava.
108 Dados transmitidos em entrevista ao autor, em fevereiro de 2006 por ocasião do Seminário comemorativo dos 40 anos do Concílio Vaticano II realizado em Itaici, Indaiatuba/SP.
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Dados transmitidos em entrevista ao autor, em Outubro de 2006, no Colégio Marista São José no Rio de Janeiro.
Sua prática política e social baseava-se na Bíblia, nos documentos do Concílio Vaticano II e nos documentos da Doutrina Social da Igreja Católica. Seus opositores o chamavam de comunista porque ele apresentava o que era ser cristão e não explorar os pobres. Dom João, junto aos padres, religiosos e leigos comprometidos com o Reino, buscava pôr em prática os ensinamentos de Jesus. Fazia muitos encontros, avaliações, visitas às diversas áreas pastorais da Arquidiocese, utilizando o manual “Os conselhos que a gente quer”.
Ele costumava enviar padres e leigos para congressos das CEB’s em Belo Horizonte e São Paulo, e ainda para cursos de formação bíblica e pastoral. Irmão Roque lembra que Dom João inúmeras vezes enfrentou as realidades injustas no Espírito Santo, lançando candidatos a partir das CEB’s a cargos públicos, como por exemplo, vereadores que eram apoiados por padres, religiosos e leigos com doutrinação da Igreja em seus documentos a partir, sobretudo, dos Papas Pio IX, Pio XI, João XXIII e Paulo VI, baseados na Bíblia e na Declaração Universal dos Direitos Humanos, definidos pela ONU em 1948.
Dom João, os bispos comprometidos com os resultados do Concílio Vaticano II, os sindicatos combativos de São Paulo, já naquela época coordenados por Luis Inácio Lula da Silva, a CNBB e outros sofreram retaliações por parte do AI 5 – Ato Institucional nº 5, e da CIA que sustentava as ditaduras militares na América Latina e Central. Segundo Irmão Roque, tudo isso frustrava Dom João e outros bispos. Ver cristãos matando, ver como nossa sociedade, que, ao mesmo tempo em que clamava por paz, fornecia as armas e as drogas; ou ainda ver a destruição da natureza.
Durante a grande enchente no Espírito Santo, as CEB’s recolhiam mantimentos e os levavam para os desabrigados. Para Irmão Roque, foi um período de dor, mas o melhor período das CEB’s no Espírito Santo, com fortíssimo testemunho de comunidade, que chegava a lembrar as primeiras comunidades cristãs dedicadas ao serviço, à partilha, à solidariedade e à fraternidade.
Entre 1979 e 1984, havia milhares de CEB’s no Brasil, organizadas em paróquias, com seus conselhos de comunidades e representações das comunidades, das pastorais e das equipes de serviço, nos conselhos paroquiais. Juntos, realizavam uma espécie de planejamento participativo com forte transparência. Paulo Freire influenciou muito tal estrutura eclesial no Brasil e por onde viveu.
Para Irmão Roque, no Espírito Santo, ainda hoje, há remanescentes daquela época, dentre eles, o atual prefeito e vice-prefeito e o vereador Genivaldo Lievore e sua esposa, em Colatina; o Deputado Cláudio Vereza; o Presidente da Cáritas na Arquidiocese de Vitória, Renato Gama e ex-padres.
3.1.5 Dom João: uma autoridade respeitada – Tereza Côgo
De acordo com a pedagoga Tereza Côgo,110 pedagoga, membro de comunidade
eclesial de base e engajada em inúmeras lutas sociais, Dom João Batista da Mota e Albuquerque era simples, dinâmico, simpático e risonho. Agia no meio do povo, adorava cantar e, por isso, sempre corrigia os desafinados, e tinha um fusca inseparável. Exerceu um papel político no Espírito Santo como uma autoridade muito respeitada, e o que ele falava era sempre levado muito a sério. Quanto à relação entre sua trajetória política e a história das Comunidades Eclesiais de Base, era como uma porta aberta, de um para o outro, isso também pela grande sintonia com o fazer pastoral de Dom Luiz Fernandes.
Para Tereza, a trajetória política de Dom João incomodou o poder da polícia e os mais explícitos defensores da ditadura militar, e os burgueses que se incomodavam com o comunismo. Em contrapartida, a diferença exacerbada entre pobres e ricos, bem como o desrespeito aos direitos humanos eram as situações que mais frustravam o Arcebispo de Vitória. Durante as enchentes que aconteceram no Espírito Santo, ele foi o grande coordenador das ações, e mobilizador de grupos, usando de sua oratória, de seu discurso para chamar a atenção das autoridades e a participação do povo, sendo atribuído a ele a expressão “Só o povo salva o povo”. Nesse período das grandes enchentes viu-se claramente o novo jeito de ser Igreja, a reflexão da Bíblia na vida, nos fatos cotidianos, levando os cristãos a assumirem as
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lutas sociais como protagonistas. Foi um período em que se despertaram inúmeras lideranças. Entre 1979 e 1984, a vida na Igreja estimulava a participação social, então, os movimentos populares ganharam fôlego. Tudo era celebrado e refletido à luz da Bíblia. Os movimentos sociais eram bem atuantes e agiam firmes na reivindicação de melhores condições de vida. Nessa época, tínhamos lideranças eclesiais fortíssimas, dentre elas, os padres Alberto Fontana, Tarcísio Caliman,
Arnóbio Passos, Waldyr Ferreira de Almeida,Jair Coco, Maurício de Mattos Pereira,
Rubens Duque e Rômulo Balestrero. Dentre as lideranças leigas, tínhamos Cláudio
Vereza, Maria Clara da Silva, Jacinta Maria Dantas, Marlene Cararo, Teresa Côgo,
Rosa, Ana Rita Esgário, Geraldo Esperandio, Terezinha Cravo, Gilsa Barcelos,
Paulo Matedi, Dante Pola, Ângelo Pin, João Batista Gagno Intra, Zulei Bassi e
outros.