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Gramsci possibilita captar as possibilidades e limites da atuação dos cristãos ligados às lutas sociais em favor dos oprimidos, luta que hoje parece arrefecer, pelo menos por parte do organismo central da Igreja Católica. Entretanto, lendo Gramsci, percebe-se que nem mesmo o Vaticano é um bloco, mas que lá também há “jogo de

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HERKENHOFF In: COLBARI, Antônia et al PREFEITURA MUNICIPAL (Vitória). Secretaria de Cultura e Turismo. Escritos de Vitória: movimentos sociais. n.16, Vitória, 1996. .

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TEIXEIRA, Faustino Luiz Couto. A fé na vida – Um estudo teológico-pastoral sobre a experiência das Comunidades Eclesiais de Base no Brasil. Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, 1985.

forças”, embora no fim acabe sempre prevalecendo, segundo ele, o espírito corporativo. 99

A reflexão sobre o fenômeno religioso, especialmente sobre o catolicismo sempre esteve presente na vida de Gramsci, seja como homem político, seja como teórico marxista. Cabe ressaltar que a crítica gramsciana da religião está subordinada à apreciação da função histórica de cada ideologia religiosa. A religião será, pois, estudada como forma particular de ideologia100. Ao refletir sobre a religião e a Igreja, Gramsci abre os olhos em pontos fundamentais, dentre eles: sua análise atenta da capacidade de sobrevivência da Igreja, enquanto instituição centralizadora, vertical e autoritária e que em sua história enfrentou inúmeros tipos de contradições internas; sua visão de importância do elemento ideológico-motivacional na atuação política revolucionária; o papel do “intelectual” na reforma intelectual e moral, componente central da “nova” sociedade; e a atenção às contradições, bem como suas crises orgânicas e conjunturais na avaliação da atuação política.

Quanto ao tema ideologia, entendemos que se trata de um conjunto de idéias, convicções e sentimentos que se referem à organização e exercício do poder político em uma estrutura social historicamente determinada, que move pessoas à ação; sabemos também que são inúmeras as contribuições, leituras e interpretações. Todavia, tomamos a interpretação de Gramsci por Terry Eagleton (apud ZIZEK, 1996, p.199) “[...] As ideologias devem ser vistas como forças ativamente organizadoras e psicologicamente ‘válidas’, que moldam o terreno em

que os homens agem, lutam e se conscientizam de suas posições sociais [...]101”.

O método utilizado por Gramsci busca estudar como a religião cristã e a Igreja evoluíram, como, de ideologia e organização intelectual, saídas diretamente das classes subalternas, tornaram-se progressivamente exteriores a elas, acabando por se impor a essas classes.

Para Gramsci o Estado pode ser constituído de sociedade civil e sociedade política, atrelado a isso a função de dominação e a utilização de aparelhos repressivos; a

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BENEDETTI In PORTELLI, Hugues. p. 8, op. cit. p.31, nota 43

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Consideraremos a ideologia a partir de Antonio Gramsci, como uma concepção de mundo que se transforma em um movimento cultural, isto é, em um movimento que produz uma atividade prática e uma vontade geral, coletiva, mantendo assim a unidade de todo bloco social.

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EAGLETON, Terry. A ideologia e suas vicissitudes no Marxismo Ocidental. In: ZIZEK, Slavoj (org). Um mapa da ideologia. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. p.199.

Igreja pode ser definida como um aparelho ideológico do Estado, e consequentemente, a história dos partidos e correntes políticas está atrelada a grupos e tendências religiosas. Sendo assim, o sistema político e o sistema religioso são dependentes.

Em suas críticas categóricas e irônicas às formas conservadoras de religião, Gramsci dizia que a religião é a mais gigante utopia, quer dizer, a mais gigantesca “metafísica” que a história jamais conheceu, pois é a tentativa mais grandiosa de conciliar, sob forma mitológica, as verdadeiras contradições da vida histórica. Ela afirma, na verdade, que a humanidade tem a mesma “natureza” que o homem [...] na medida em que ele é criado por Deus, filho de Deus e, portanto, irmão de todos os homens, igual aos outros homens, e livre entre os outros homens e tanto quanto eles [...]. Toda religião [...] é em realidade uma multiplicidade de religiões diferentes e freqüentemente contraditórias: há um catolicismo dos camponeses, um catolicismo da pequena burguesia e dos trabalhadores urbanos, um catolicismo para mulheres, e um catolicismo para intelectuais [...].102

A questão religiosa e o poder, dentro da Arquidiocese de Vitória pode ser compreendida a partir de uma série de fatores, dentre eles a alocação de recursos, a capacidade para empregar tais recursos e um plano de emprego desses recursos, ou seja, a utilização, e a consciência das condições e consequências desse emprego. Dom João possuía condições favoráveis para a realização dos projetos propostos pelo Concílio Vaticano II, seja por sua capacidade de pensar e posicionar- se diante dos desafios da época, seja pela equipe de padres e leigos dispostos a construir um novo jeito de ser Igreja em Vitória, seja pela conjuntura política, social, econômica e cultural do Brasil, bem como pela postura assumida pela Igreja Católica na América Latina em favor dos pobres. Dom João aproveitou as condições favoráveis, trabalhou com os insatisfeitos, enfrentou desafios e conseguiu empregar corretamente os recursos que dispunha, conseguindo também elaborar planos de trabalho com os leigos, com os padres, com Dom Luís e posteriormente Dom Silvestre, buscando sempre ter e dar consciência das condições e das conseqüências do emprego dos recursos que dispunha e das ações que propunha.

Seja na Igreja de Vitória, ou em qualquer outra instituição, o exercício do poder está sujeito a algumas condições que visam limitar a ação daqueles que o exercem, e

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com Dom João não foi diferente. Mesmo tendo inúmeros recursos que proporcionavam o exercício de seu pastoreio, ele vivenciou diversas situações que limitavam sua ação, ora pela própria Igreja, ora pelo Estado, até por padres e leigos insatisfeitos com a caminhada da Igreja de Vitória.

Ainda assim, Dom João exerceu o poder buscando fazê-lo de maneira horizontal, pondo-se junto de sua Igreja, desejando que padres e leigos pudessem perceber que esta nova Igreja que estava acontecendo na Arquidiocese, seria uma possibilidade de levar o anúncio do Evangelho, mas também as denúncias contra ações e sistemas que agrediam o ser humano, que feriam a dignidade da pessoa humana, que geravam morte. Dom João convocava as lideranças para esta mesma prática pastoral, contudo, nem sempre isso era assumido, ou acontecia.

Na Igreja de Vitória, as CEB’s como possibilidade de contestação da hegemonia dominante foi um processo que se constituiu como força social contrária, que apontavam para uma nova direção intelectual e moral, apresentando outros valores, normas e princípios à sociedade civil e política.

Se analisarmos a Igreja de Vitória entre 1979 e 1984 à luz de Rousseau103, por conta das desigualdades sociais, das relações de força e da coercitividade, nos apropriaremos de sua idéia de que a ausência de coerção moral pode provocar o rompimento de compromissos, e então poderemos perceber que nas inúmeras relações vividas na Arquidiocese de Vitória, o que Dom João propunha não era a quebra daquilo que Rousseau chamou de contrato social, mas uma espécie de cooperação, que possibilitasse a promoção da vida humana.

De acordo com Foucault, o poder não se dá, não se troca, nem se retoma, mas se exerce, só existe em ação, e este exercício consiste em reprimir a natureza, os indivíduos, os instintos e uma classe. Esta compreensão pode ser observada dentre outras situações, quando nos remetemos à questão religiosa, e acompanhamos relações dentro do clero, dentre os leigos e entre clero e leigos, e dentro da hierarquia que existe nas Igrejas e nas religiões.

As relações entre o profano e o sagrado, entre o moral e o imoral, entre o bem e mal, entre verdadeiro e o falso, e entre o certo e o errado, passam muitas vezes pelo

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Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) ligado à sociologia moderna sobretudo pela questão das condições de legitimidade das instituições políticas.

exercício de poder que reprime, que impõe e que mantém uma prática ou pensamento. Da mesma forma, as relações entre as instituições Igreja e Estado estiveram e, estão envolvidas, por múltiplos interesses, muitas vezes opostos, que colocam-nas em embates acirrados, mas também em confrontos não declarados.

Essas relações históricas entre Estado e Igreja nos possibilitam observar que a estrutura de tomada de decisões eclesiais torna difícil o seu comprometimento numa luta pela transformação radical das estruturas sociais do país. Ainda que haja pessoas dentro dessa instituição que assumam tais lutas; a multiplicidade de cenários, valores, e maneiras de compreender a ação eclesial, assim como a estrutura monárquica da Igreja que resiste às iniciativas democráticas garantirão a manutenção do poder de Roma, do Clero, do Episcopado e do Papa, mesmo que esses não estejam atrelados ao Estado.

Benzer Belgeler