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Vergi varlık ve yükümlülükleri

O arrependimento é o momento em que se dá a aguda consciência de que a

contemplação e a ação jamais deveriam ser separadas. E é uma ferida que dificilmente se cura se não existir uma tentativa de restaurar a unidade da criatura. Assim, teremos que voltar ao passado para observarmos dois tipos de homens – os profetas hebreus e o spoudaios grego – que, apesar de distantes no tempo e no espaço, podem nos ajudar no nosso presente a resolver a aparente dualidade entre

87 Idem, pág. 73. 88 Ibidem, pág. 73-74.

contemplação e ação. Mas, antes de tudo, devemos analisar a experiência que os une – a experiência do attunement (harmonização)89.

O attunement é a faculdade que alguém tem ao deixar que sua alma fique aberta ao mistério da realidade e escute os sussurros do Espírito. A definição é poética, sem dúvida, mas é a única forma de resumir em poucas palavras um processo de conhecimento do real que se fundamenta sob a luz do belo. Esta beleza não é uma mera fruição estética; trata-se da luz que perturba quando tudo parece agradável e tranqüilo na normalidade da escuridão. É um acontecimento que transforma o homem em um ser consoante com os propósitos da ordem divina e que ocorre dentro do salto no ser; nele, o tempo e o espaço são fenômenos irrelevantes, assim como causa e efeito – e tudo isso acontece apenas em um instante, no momento em que o mundo como “criação permanentemente renovada” se mostra como um horizonte de várias ações. A luz do belo se abre dentro da consciência humana e mostra a harmonia que está por trás da aparente indiferença do universo; ela amplia e exige uma impressão na alma do sujeito que o possui pelo todo que ele é; rapta-o pela sua unidade e pela beleza oculta que essa unidade guardava. Dentro do salto no ser, a abertura para o Divino é, antes de tudo, uma abertura para o Outro individual – e é o attunement que diferencia uma experiência psíquica da espiritual, pois esta somente é possível se for compreendida como totalidade. Não estamos lidando com os “sentimentos” ou com a “sensação”, considerada como

“o terceiro ato que se encontra principalmente abaixo do nível espiritual e distinto dos atos espirituais do intelecto e da vontade (nos referimos aqui aos atos das emoções, da afetividade, da sensibilidade irracional: cobiça, ódio, alegria e medo), mas primariamente com o coração da completude humana, em que todas as faculdades do homem (potentiae) nos aparecem enraizadas na unidade de sua forma substancialis,

89 Attunement significa, aproximadamente, “harmonização”; contudo, usaremos o termo em inglês para

manter tanto o significado de uma harmonização visual como auditiva, seguindo os princípios de Von Balthazar de que o Belo e a sua Forma não é apenas uma fruição estética, mas uma conversão completa da alma (Cf. The Glory of the Lord - A Theological Aesthetics. Vol I: Seeing the Form, Ignatius Press, 2006, pág. iii).

independente se estas faculdades são do tipo espiritual, sensitivo ou vegetativo”90.

O importante em analisar o attunement é ver como a unidade da criatura não está descolada dos combates interiores da sua alma e do seu esforço em manter uma coerência nas metamorfoses que a vida impinge. Assim,

“distinguir as faculdades da alma, cada uma por si mesma ou a própria alma como um todo, não nos deve fazer esquecer a sua compenetração recíproca – e de um modo em que elas mesmas são penetradas pela alma que atua e sofre através delas. De fato, distinções dessa espécie, como as que foram feitas por S. Tomás de Aquino, devem sempre ser feitas apenas para um melhor entendimento da unidade sublinhada. O que se chama ‘sentimento’, em uma contra-distinção de intelecto e de vontade, não se encontra nem ‘abaixo’ nem ‘sob’ as faculdades espirituais. Isto é evidente pelo fato de que os animais não são homens que tiveram o seu intelecto e a sua vontade removidos; ao contrário, os animais exibem uma totalidade análoga ao homem, mas que ainda não foi alçada ao grau de reflexão espiritual atingida por este último (...). Por outro lado, podemos distinguir no homem atos sub-espirituais ou estados (seja os atos específicos dos órgãos sensoriais ou aqueles do sensus comunis, ou também os atos e os estados da disposição total da alma), além de atos que pertencem predominantemente à pessoa inteira e no qual expressões da esfera sensitiva-vegetativa são incorporadas sem clamarem por um monopólio do sentimento sobre todo o resto. De outra forma, o sentimento e a disposição seriam sub-humanas e não poderíamos mais entender porque a Sagrada Escritura caracteriza o ‘coração’ e até mesmo as ‘vísceras’ como o trono das reações mais pessoais do homem e da atitude mais profunda de Deus em relação ao mundo. Não é apenas através de uma faculdade isolada que o homem se abre, no conhecimento e no amor, para o Tu, para as coisas e para Deus: é como

um todo (através de todas as suas faculdades) que o homem se harmoniza (attune) com a realidade total”91.

Há todo um movimento no attunement que nos mostra como se dá, na consciência do homem, o evento do salto no ser em seus detalhes mais particulares. Balthazar continua a nos guiar:

“Esta harmonização entre o Ser e o sujeito que sente e experimenta dá- se, conseqüentemente, antes da distinção entre a experiência ativa e passiva: na reciprocidade em que é fundada a abertura à realidade está

90 VON BALTHAZAR, Hans Urs. The Glory of the Lord: A Theological Aesthetics. Vol I: Seeing the Form.

Ignatius Press, 2006, pág. 243.

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contida tanto a receptividade a uma im-pressão exterior e a ex-pressão do self no exterior. Assim, o ato fundamental do sentimento (‘o sentimento primeiro’) consiste no consenso (con-sensus) de sofrer impressões exteriores e de agir sobre o exterior – e ambos são igualmente causas da ‘alegria primeira’. Em comparação com esse nível mais profundo da realidade, a oposição entre desejo (alegre) e medo defensivo é, em si mesmo, secundário: pois ela tem a ver com existentes particulares, com proporções ou desproporções particulares entre sujeito e objeto; não toca diretamente o relacionamento com o Ser (em suas instâncias particulares). Mas Deus não é um existente particular; Ele se revela fora e dentro das profundezas do Ser que, em sua totalidade, aponta para Deus como seu fundamento. Por isso, tudo o que foi dito acima aplica-se, sempre e em primeiro lugar, a Deus, condicionado pela analogia do Ser entre Deus e a criatura: esta analogia é radicalmente ordenada para Deus, que não precisa da criatura para ser Ele próprio, e a criatura dá o seu acesso a Deus e a qualquer coisa que Deus, em sua liberdade, possa lhe fazer. A criatura é ontologicamente ressonante a Deus e para Deus: é em sua totalidade e antes de qualquer diferenciação de suas faculdades espirituais e sensoriais, ativas e passivas. Deus não pode ser considerado, em nenhum nível, como uma criatura e nem sequer possuí um Ser comum com as criaturas. Por isso que a harmonização primeira (primal attunement) não é uma intuição no sentido epistemológico, nem é uma inferência lógica do finito no infinito. A flexibilidade dessa experiência primeira é a reflexão noética da indeterminação ôntica do Ser em sua totalidade contra Deus. Sendo assim, tudo o que se forma nos dirige continuamente para a Fonte inacessível”92.

A luz do belo ilumina todo esse processo de conhecimento do real; é uma luz que permite o homem a reconhecer o que aguarda o seu futuro sem se preocupar com sua estreiteza de horizontes; e esta espera não será uma atitude incapaz de qualquer reflexão ou ação – ela indicará exatamente o que deve ser feito no instante exato, o instante em que o real exigirá uma escolha de escrúpulo em que o verdadeiro tribunal é o fundo da consciência moral. O belo é, antes de tudo, uma opção pela contínua perfeição do Bem neste mundo, como explica detalhadamente Von Balthazar:

“Diante do belo – não, não exatamente diante, mas dentro do belo – a pessoa inteira estremece. Não descobre apenas que o belo é comovente; além disso, experimenta em si mesma e que ele a move e a possuí. Quanto mais completa é essa experiência, menos uma pessoa procura e se aproveita apenas do prazer que vem dos sentidos ou até mesmo de qualquer ato de sua vontade; e menos ela reflete sobre seus próprios atos

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e sensações. Tal pessoa foi tomada completamente pela realidade do belo e agora está subordinada, determinada e animada por ela. Mesmo que tais experiências sejam momentos sublimes e elevações da existência e sejam experimentadas e avaliadas como tais; mesmo que o belo, como tal, exerça a função de integração total e possa ser inteligível somente dentro do edifício dos atributos transcendentais do Ser, ele tangencia o religioso, como a religião mítica prova em todos os seus níveis e como a revelação cristã nos demonstra de forma espantosa pelo fato de preencher e superar todos os mitos. Em contraste com todos os esquemas filosóficos e religiosos-míticos, o apelo aqui não é feito somente para a sensibilidade interior do homem. Vai além: essa sensibilidade é vista dentro do contexto do total élan humano – não apenas em conexão com a natureza espiritual do homem, mas também em conexão essencial com sua natureza orgânica e corporal – e isso não é uma ‘concessão’ a uma multidão que não pode almejar a experiências espirituais e sim deve ser visto como o aperfeiçoamento do trabalho divino da criação, que designou o homem para ser uma unidade indissolúvel de corpo e alma e que desejou trazer a perfeição para sua criatura”93.

A universalidade do attunement e do impacto da luz do belo na consciência humana leva-nos a encontrar semelhanças com a experiência do pathos nos profetas hebreus, como mostra Abraham Joshua Heschel94.

Benzer Belgeler