3. VERGİ KABAHATLERİ VE CEZALARI
3.1. VERGİ ZİYAI KABAHATİ
Qualquer atitude mais sentimental na relação entre homens já é encarada com desconfiança. Os espaços de sociabilidade entre os homens devem ser marcados pela competição, pela rivalidade, ou pelo total distanciamento. No entanto, sabemos que espaços estritamente masculinos também são caracterizados por uma forte tendência a despertar desejos homoeróticos, como ocorre nas forças armadas, na escola, nas equipes esportivas e mesmo nos bandos de meninos de rua. É esse conceito de homossociabilidade que abordaremos brevemente agora, e que é de grande importância para entender como se dão os processos de homoerotização em espaços dominados geralmente por seres masculinos.
O conceito de homossociabilidade foi cunhado por Eve Kosofsky Sedgwick, em
Between men: english literature and male homosocial desire (1985), para quem o desejo
homossocial configura-se um paradoxo, tendo em vista que, ao mesmo tempo em que os agrupamentos homossociais rejeitam manifestações de afeto e erotismo em seu interior, sendo caracterizados por uma forte homofobia, o desejo homoerótico pode ser considerado inerente a esses grupos. Sedgwick define:
‘Homossocial’ é uma palavra usada ocasionalmente na história e nas ciências sociais
que descreve os laços sociais entre pessoas do mesmo sexo, é um neologismo, obviamente, formado por analogia com "homossexual", e assim, obviamente, tem uma significação distinta de "homossexual". Na verdade, ela é aplicada a atividades que criam "vínculo masculino", o que pode, em nossa sociedade, ser caracterizado por homofobia intensa, medo e ódio da homossexualidade. Para desenhar o fundo "homossocial" dentro da órbita do "desejo", do potencial erótico, considera-se a hipótese da indivisibilidade potencial de um continuum entre homossocial e homossexual – continuum cuja visibilidade, para o homem, em nossa sociedade, é radicalmente interrompida (SEDGWICK, 1985, p. 1).40
O indivíduo homossocial estaria mais provavelmente sujeito à ocorrência de desejos homoeróticos, que, por sua vez, são fortemente negados e repudiados. Em
Epistemología del armario (1998), Sedgwick aborda a questão do “pânico homossexual”,
engendrado nesse contínuo dos vínculos homossociais masculinos, caracterizados por uma
40
Livre tradução de: “Homosocial is a word occasionaly used in history and the social sciences, where it describes social bonds between persons of the same sex; it is a neologism, obviously formed by analogy with "homosexual", and just as obviously meant to be distinguished from "homosexual". In fact, it is applied to such activities as "male bonding", which may, as in our society, be characterized by intense homophobia, fear and hatred of homosexuality. To draw the "homosocial" back into the orbit of "desire", of the potentially erotic, then, is to hypothesize the potential unbrokenness of a continuum between homosocial and homosexual - continuum whose visibility, for man, in our society, is radically disrupted”.
“secularizada e psicologizada” homofobia, que exclui certos segmentos desse contínuo
homossocial, como é o caso dos homossexuais. Essa exclusão chega ao ponto de que esses homens, para além de se definirem como não homossexuais, definem-se contra a homossexualidade. Vale destacar que esse pânico homossexual só se expressa, geralmente,
até o momento em que o indivíduo “sai do armário”41
, pois o desejo homossexual surge como
uma ameaça “às relações de caráter obrigatório entre os homens – relações de amizade,
tutelagem, identificação admirativa, subordinação burocrática e rivalidade heterossexual (...)” (SEDGWICK, 1998, p. 245).
Os vínculos homossociais são forjados desde a infância, como vemos nas narrativas literárias que aqui analisamos, bem como em outros textos ficcionais que já identificamos e que tratam de relações homoafetivas em idade ainda infantil. Esses vínculos são, desde cedo, caracterizados por uma forte rejeição ao desejo homoerótico, em especial ao que pressupõe uma passividade na relação, ao mesmo tempo em que as relações engendradas dentro destes grupos favorecem o aparecimento desse mesmo desejo. Podemos constatar bem esse paradoxo nas relações vividas por Sérgio, em O Ateneu, cujos sentimentos homoafetivos são, a todo o momento, negados com vistas às normas do internato. Também em Capitães da
areia, os meninos do bando estão submetidos a uma regra que os impede de se relacionarem
com outros garotos na posição de passivos.
Para Trevisan (1998), os vínculos homossociais são importantes para a expressão
da masculinidade, pois “(...) um homem precisa de outro homem para integrar a sua
masculinidade, o que não significa necessariamente prejudicar seu interesse erótico-sexual
pelas mulheres” (TREVISAN, 1998, p. 107). No entanto, o que se percebe é que o desejo homoerótico é inerente ao vínculo homossocial e, para ser despertado, “basta que haja
condições históricas e culturais mais favoráveis. (...) Em resumo, os homens tentam separar
algo que é inseparável” (TREVISAN, 1998, p. 151).
A literatura é um registro inegável de que esse corte entre desejo homossexual e vínculo homossocial praticamente não se configura na prática. João Carlos Barcellos, em
Literatura e homoerotismo em questão (2006), constata que, em obras literárias de meados do
século XVIII até as primeiras décadas do século XX, há uma continuidade entre a homossociabilidade masculina e o homoerotismo também na modernidade, contrapondo-se à
41
Para Georges Chauncey, em Gay New York: gender, urban culture, and the making of the gay male world, 1890-1940, a expressão “coming out” remonta ao vocabulário gay dos anos pré-guerra. Ele explica que a expressão era usada "did not speak of coming out of what we now call the 'gay closet' but rather of coming out into what they called 'homosexual society' or the 'gay world". A terminologia “sair do armário” teria sido tirada do vocabulário feminino, cuja expressão era usada para referir-se ao ritual de uma debutante, que seria oficialmente apresentada à sociedade.
visão de que essa continuidade só existia em sociedades antigas, como a greco-romana. Barcellos assinala como os conceitos de homossociabilidade e homoerotismo favorecem uma nova percepção sobre a amizade masculina e as relações homossexuais que, para além da homofobia institucionalizada, estão mais interligadas do que o discurso heteronormativo tenta transparecer.
Os vínculos homossociais podem ser claramente identificados nas narrativas analisadas nesta pesquisa, como aparece no internato só para meninos de O Ateneu; no colégio frequentado por José Maria, em Dona Sinhá e o filho padre, que pressupõe-se ser um estabelecimento também só para meninos; e no bando de garotos de rua, de Capitães da areia. Esses vínculos comportam claramente uma tendência homoerótica, logo repudiada, como
ocorre na narrativa de Jorge Amado: “Por assim dizer, Pedro Bala arrancou a pederastia de
entre os Capitães da areia como um médico arranca um apêndice doente do corpo de um
homem” (AMADO, 2000, p. 102). É uma clara demonstração do pânico homossexual que
geralmente vige nos espaços homossociais.
Por outro lado, a homossociabilidade pode existir para o indivíduo homossexual como possibilidade de escapar da violência e da injúria homofóbicas, como mostra Eribon (2008). Dissimulando seus desejos ou fugindo para locais mais amigáveis, onde poderá encontrar agrupamentos homossociais que o aceitem. Eribon assinala o fator amizade como um modo de vida de gays e lésbicas:
Por isso é que a sociabilidade gay – ou lésbica – funda-se, primeiramente e antes de
tudo, numa prática e numa “política da amizade: é preciso procurar estabelecer
contatos, encontrar pessoas que vão se tornar amigos e, aos poucos, constituir um círculo de relações escolhidas (ERIBON, 2008, p. 38).
Convém assinalar ainda a contribuição que, na opinião de Barcellos (2006), Sedgwick e sua teoria do desejo homossocial deram aos estudos sobre a cultura moderna. Os vínculos homossociais são considerados fundamentais para entendermos o contexto do sistema de gênero configurado pela dominação heterossexual e patriarcal das sociedades
ocidentais. O conceito de “armário”, também estudado pela teórica estadunidense, é
importante para que visualizemos a condição de aprisionamento e de silêncio que caracteriza os indivíduos homoafetivos. Escondendo e ao mesmo tempo expondo a condição
homoerótica, o “armário” reflete as “complexas configurações entre identidade, subjetividade,
verdade, conhecimento e linguagem que atravessam todo o tecido cultural da modernidade e têm profundas ressonâncias na vida social e pessoal” (BARCELLOS, 2006, p. 61).