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2. VERGİ İLİŞKİSİNİN TARAFLARI

2.1. VERGİ ALACAKLISI

Chegamos ao século XVI, época da ocupação do Brasil pelos portugueses. Com eles também vieram todas as suas convicções cristãs puritanas e proibicionistas com relação às sexualidades. Encontraram, na nova terra, habitantes nativos, que, como relata João Silvério Trevisan, em Devassos no paraíso: a homossexualidade no Brasil da colônia à

33Ariès (1986) resgata a visão de Dante (XI, 28) sobre os círculos dos lascivos no inferno. Existiriam três tipos

de violência nesse círculo: violência contra o próximo; violência contra si próprio e contra seus bens; e violência contra Deus. Esta última, considerada a mais grave, inclui os blasfemadores e os sodomitas (ARIÈS, 1986, p. 90).

atualidade (2011), citando o historiador Abelardo Romero, eram ao mesmo tempo libidinosos e cândidos. Ganharam o apelido que dá título ao livro e entre os costumes devassos que

chocaram os brancos colonizadores estava a prática do “pecado nefando”, da “sodomia” ou “sujidade” (TREVISAN, 2011, p. 65).

Àquela altura, já a partir do século XIV, a Europa civilizada tinha colocado a homossexualidade no panteão dos pecados e crimes mais horrendos da humanidade. Tal epíteto - mesmo que atualmente pareça inadmissível – pode ser considerado um dos responsáveis pelo profundo estigma que relações com pessoas do mesmo sexo ainda carregam em determinados espaços e grupos sociais, com destaque para as igrejas e as escolas. Luiz Mott, em Homossexualidade: mitos e verdades (2002), aponta a herança maldita do pecado nefando, como advinda de uma cultura cruel, a qual os homossexuais brasileiros tiveram que receber desde a época colonial:

Em seu antológico livro sobre as uniões entre homossexuais na Europa pré-moderna, o Dr. J. Boswell34 adverte-nos quão ilógica e cruel tem sido nossa cultura, notadamente após o século XIV, ao eleger a homossexualidade como o maior e mais horroroso de todos os tabus e crimes sexuais. O "pecado nefando", isto é, aquele cujo nome não pode ser mencionado - e muito menos praticado! - foi considerado pela moral judaico-cristã como mais grave do que os mais hediondos crimes anti- sociais, como por exemplo, o matricídio, a violência sexual contra crianças, o canibalismo, o genocídio e até o deicídio - todos pecados-crimes mencionáveis, enquanto só o abominável pecado nefando de sodomia foi rotulado e continua a ser tratado como abominável, intrinsecamente mau e nefandum (MOTT, 2002, s/p).

O imaginário do Brasil colonial no que diz respeito à homossexualidade foi habitado por uma mentalidade povoada de medos, tendo em vista a crueldade com que tais práticas eram tratadas nos países da Europa ocidental. Os condenados por sodomia podiam ser submetidos às mais diversas punições, que variavam de multas, prisão, confisco de bens, até a marcação com ferro, açoite público, castração, morte na forca e/ou na fogueira, empalamento e afogamento, conforme enumera Trevisan (2011). Tal mentalidade convivia com os costumes de uma terra onde reinava o paganismo e práticas ainda não doutrinadas pela moral cristã. Ao mesmo tempo em que se regalavam sexualmente com índios e índias, e posteriormente com escravos e escravas, os colonizadores implementaram uma verdadeira

cruzada moralista e religiosa no intuito de interditar o “pecado nefando”.

As cartas enviadas ao reino, que registraram as impressões dos portugueses sobre

os primeiros anos da colonização, de acordo com Marcia Amantino, em “E eram todos

pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”, situado em História

do corpo no Brasil (2011), mostram que um dos principais objetivos dos brancos recém- chegados era acabar com os “maus costumes” que reinavam entre os silvícolas, dentre eles a antropofagia, o seminomadismo e as condutas sexuais depravadas. Era tarefa obrigatória e dada por Deus aos portugueses converter os gentios em cristãos devotos.

A sexualidade indígena era considerada desregrada. Os habitantes da nova terra tinham uma postura completamente diferente em relação ao sexo. Praticá-lo era um exercício de liberdade inimaginável para o europeu puritano. Pero Vaz de Caminha já tinha alertado, em 1551, sobre a prática do “pecado contra a natureza”. “Tentando conhecer melhor suas ovelhas, nada cordatas, os religiosos trocaram entre si informações a respeito da sexualidade indígena e do homossexualismo, símbolo do poder do demônio sobre os grupos em questão

(...)” (AMANTINO, 2011, p. 18).

As tentações sexuais dos brancos cristãos que já eram grandes frente aos indígenas, segundo Mott (2002), ampliaram-se com a chegada dos primeiros escravos da

Guiné, “posto que, também na África, documentação fidedigna atesta que o ‘vício dos bugres’

era igualmente conhecido, praticado e, em certas etnias, socialmente aceito e até divinizado” (MOTT, 2002, s/p). Acrescente-se a isso o verdadeiro depósito de criminosos e contraventores, considerados a escória da sociedade portuguesa, em que se transformou o Brasil recém-ocupado. Entre eles, destacavam-se condenados por sodomia.

Mary Del Priore, em Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil (2011), assinala que, desafiando a Inquisição, manifestações de sodomia masculina podiam ser vistas nas ruas do Brasil colonial. “(...) amantes que ‘andavam ombro a ombro’, abraçavam-se, trocavam presentes e penteavam-se os cabelos mutuamente à vista de vizinhos

(...)” (DEL PRIORE, 2011, p. 40).

Para os europeus recém-chegados às novas colônias, conforme observação de Stearns (2010), os índios latino-americanos, por terem sido fáceis de derrotar militarmente, também eram vistos como efeminados. As práticas de certos grupos nativos de cultuarem figuras masculinas e femininas que exerciam papéis sociais e sexuais atribuídos ao sexo oposto também foram rapidamente atacadas. Implantou-se a cultura machista e patriarcal até hoje predominante em países latino-americanos como o Brasil, em que a virilidade masculina é altamente valorizada em detrimento de comportamentos atribuídos ao sexo feminino. Há que se ressaltar ainda que uma nova terra exigia pulso firme das autoridades masculinas para estabelecer a ordem, bem como estimulava-se a reprodução com vistas ao povoamento do território. Mott (2002) enfatiza:

Somente homens fortes, ultraviolentos, poderosos, conseguiram a proeza de manter sua hegemonia em face de 90% da população carente deste diferencial privilegiado: ser macho branco. Daí o machismo latino-americano apresentar-se muito mais virulento e institucionalizado do que o observado na península ibérica, pois, nas regiões plurirraciais dominadas pelo modo de produção escravista, ser super-homem foi condição sine qua non da manutenção do próprio projeto colonial. Um homem delicado, medroso, efeminado, sensível, jamais conseguiria manter o indispensável

clima de terror para conservar submissa a “gentalha”, todos os que não eram machos

brancos. Daí a repressão brutal contra qualquer efeminação e inversão sexual, por representarem perigosíssimo fator de instabilidade do projeto colonizador e hegemonia dos donos do poder (MOTT, 2002, s/p)

Mesmo diante de tamanha perseguição, as práticas homossexuais não deixavam de acontecer, sendo envoltas por um clima constante de pânico, culpa e silêncio. “Não seria absurdo imaginar que as inúmeras, reiteradas e violentas proibições à sexualidade desviante talvez tenham engastado no desejo homossexual um pânico arquetípico, quase no nível de

pulsão” (TREVISAN, 2011, p. 163).