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VERGİ VARLIK VE YÜKÜMLÜLÜKLERİ (ERTELENMİŞ VERGİ VARLIK VE YÜKÜMLÜLÜKLERİ DAHİL)

Diferentemente da apequenada importância que os sistemas gnósticos atribuíam

à ética, em Plotino esta assume grande relevo no contexto da salvação. De acordo com o

licopolitano, o ato de se pronunciar o nome Deus, quando ausente a verdadeira virtude,

não passa disso: a vocalização de um nome, e nada mais (Enéada II, 9, 15, 42-44). Dá-

se, in casu, a umbilical ligação entre saber e virtude: “só há bem em e pela progressão

existencial na direção do Bem” (HADOT, 1999, p. 236). Para conhecer Deus, é preciso,

antes de tudo, assemelhar-se a Ele, pois somente o semelhante pode conhecer o

semelhante.

Trata-se, porém, de uma ética toda centrada no retorno da alma à sua origem,

“uma ética voltada para o sábio da Antiguidade Tardia” (DILLON, 1996, p. 318), sábio,

este, cuja vida gravita em torno do espírito, pois, como nos diz Plotino, “o mundo

sensível existe para o Espírito e olha para o alto” (Enéada, II, 9, 9). Cumpre não olvidar

que, em Plotino, os valores do espírito se postam em primeiro plano, sendo, os outros,

instrumentais em relação àqueles (REALE, 1994c, p. 513). De fato, para Plotino, a ação

boa é, em última instância, aquela que nos faz compreender o verdadeiro Ser, ou que

nos propicia a comunhão com Ele. Portanto, toda ação deve ser valorada, ab initio, à luz

de sua capacidade de nos aproximar ou, ao contrário, afastar, da instância divina.

À ética plotiniana não basta o viver de forma proba, isenta de culpa; cabe, ao ser

humano, ser Deus (Enéada I, 2, 6). Em outros termos, não é suficiente, ao homem,

justiça, sabedoria, fortaleza e temperança; impõe-se-lhe assimilar-se a Deus, o que

implica em assemelhar-se a Ele para, efetivamente, despojando-se de tudo o que é

exterior à alma, tornar-se um com Ele, na vivência rara e majestosa do êxtase. Neste

contexto, “apenas a experiência moral ou mística pode dar conteúdo ao discurso

filosófico” (HADOT, 1999, p. 243).

De fato, se as aludidas virtudes civis servem para moderar as paixões (o que já é

algo importante), as virtudes catárticas, atuam como purificações, livrando, aquele que

as pratica e observa, das paixões do mundo e dos interesses materiais, possibilitando,

com isso, que a alma, desapegada do sensível e toda voltada para o mundo inteligível, se

una ao Espírito, que lhe é afim (Enéada I, 2). Ao contemplar o Espírito, as virtudes da

alma se transfiguram, à luz das virtudes do Espírito – as matrizes, os modelos ideais -

das quais derivam. Como anota Reale (1994c, p. 514):

(...) neste nível superior a sabedoria torna-se contato da alma com o Espírito, a justiça, o voltar-se do ato da alma para o Espírito, a temperança, o íntimo aderir da alma ao Espírito, e a fortaleza, o perseverar impassível da alma no Espírito impassível, sem sofrer qualquer paixão do corpo. Em resumo: nesse nível as virtudes-paradigma são, justamente, o modo de viver da alma que, desapegada das coisas sensíveis e tendoreentrado totalmente em si, vive em absoluta pureza a própria vida dos Deuses, ou seja, tornada semelhante ao Espírito, vive a mesma vida do Espírito.

Esta onipresente adequação do agir a um fim espiritual não se assemelha, porém,

ao antinominalismo gnóstico, de franco repúdio a quaisquer normas de convivência

vigentes fora dos muros da irmandade. Para Plotino, parece ter sido relevante, não a

afronta direta aos costumes sociais e às leis – desde que decentes - mas a submissão,

destes regramentos, a um princípio maior, de natureza transcendental. Trata-se, ainda

uma vez, de balizar a vida em função das coisas do Alto, de molde a que, cada ato fosse

Por este diapasão, é possível, também, conciliar a figura de Plotino descrita por

Porfírio – a de um zeloso tutor de órfãos, afável, amoroso e preocupado com as demais

pessoas - com sua ética, marcadamente autocentrada, voltada para a salvação individual

e o além-mundo. Com efeito, segundo John M. Dillon (1996, p. 319), o cuidado, que

Plotino tinha com os outros, era, de fato, exemplar; nada obstante, a sua mente

remanescia sempre direcionada para o reino espiritual, no esforço de assimilar-se ao

Uno, objetivo maior da vida do ser humano. Isto se liga ao fato de que, para Plotino,

diferentemente de que para os gnósticos, todos os seres humanos eram, igualmente,

capazes de alcançar a salvação, sendo, pois, merecedores de idêntico respeito. Além

disso, se para assimilar-se ao Uno, era necessário assemelhar-se a Ele, e Ele era o puro

Bem, nada mais natural do que cultivar a bondade na vida cotidiana. Segundo o

licopolitano, quanto melhor alguém é, tanto mais gentil é com todas as coisas e toda a

humanidade (Enéada II, 9, 9, 44-45). Neste sentido, anota, Pierre Hadot (1993, p. 96),

que a vida inteira de Plotino consistiu na exteriorização desta gentileza, que nada mais

era do que a explicitação do Bem na vida cotidiana. Como asseverava o licopolitano, “o

Bem é gentil, suave, muito delicado e sempre à disposição de todo aquele que por ele

anseie” (Enéada V, 12, 33-35).

Salvação e ética, em Plotino, se auto-implicam, já que é pelo desenvolvimento

progressivo do espírito que o ser humano galga os primeiros degraus do corpóreo ao

incorpóreo. Enfim, como assevera Reinholdo Ulmann (2002, p. 134), “para desprender-

se do mundo dos sentidos, é mister uma constante purificação, a fim de que o homem se

unifique sempre mais”, até o inteligível puro, o Uno. E o ser humano se torna bom, na

medida em que age conforme a razão e busca a simplificação (hénosis) interior. Esta

reconhecimento do estado originário de sua alma e, ato contínuo, à união, do seu ser,

com o Uno.

Em suma:

Pelas virtudes, o homem conquista a liberdade interior, a qual o resguarda das inclinações, desejos e paixões que buscam a satisfação corporal. Subjuga-se, assim, o mal pela aretê43, a fim de praticar um permanente exercício da presença de Deus. A virtude plotiniana tem por fito a união com o divino (ULMANN, 2002, p. 142).

Por derradeiro, certo é que, segundo Plotino, o homem virtuoso, embora padeça

sofrimentos, não é, no nível da alma, afetado por eles: “A pobreza e a enfermidade nada

são para as pessoas de bem...[Tais coisas] são uma desgraça apenas para os malvados”

(Enéada III, 2, 5). Isto porque o homem virtuoso e cultivado sabe que sua melhor parte é

imortal e imune às desventuras terrenas.

A prática da virtude, destarte, como que preserva, o homem virtuoso, de ser

afetado pelas vicissitudes da existência corpórea, preparando-o, outrossim, para a via da

dialética, a arte seguinte no caminho ascensional. De fato, se, através da purificação

proporcionada pela ética, o ser humano parte do material e alcança o inteligível, será por

meio da dialética, a ciência de conhecer os princípios que o permitam mover-se pelas

alturas (Enéada I, 3, 3), que o homem elevar-se-á ainda mais. Entretanto, a ciência é

discursiva e, como tal, implica em multiplicidade; daí porque o coroamento do sistema é

o êxtase supra-intelectivo, a simplificação do ser para assimilar-se ao Ser.

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4.8 Síntese Conclusiva do Capítulo

A obtenção do estado salvífico, entendida como o cume da existência humana,

mostra-se como a maior preocupação de Plotino nas Enéadas. De igual modo, o

problema soteriológico é onipresente na gnose, uma doutrina de salvação por

excelência.

A salvação liga-se à vivência de um estado de plenitude, propiciada pelo resgate

de uma condição originária imaculada e perfeita, que, por razões diversas e em um

determinado momento, foi perdida ou olvidada, pelo ser humano, desde então refém da

carência e da incompletude.

Neste capítulo, buscou-se examinar o tema da salvação, em Plotino e entre os

gnósticos em geral, e sethianos em particular, sob três vieses: o

cosmogônico/cosmológico; o antropogônico/antropológico e o ético. Isto porque a

soteriologia, tanto na visão plotiniana, quanto gnóstica, perpassa os problemas atinentes

ao surgimento do cosmos e do ser humano, repercutindo, outrossim, de forma mais ou

menos pronunciada, no viver e no conviver humanos.

Assim, se, segundo os gnósticos, o mundo é produto de uma falha e moldado

pela atuação de um artesão perverso, sendo, por conseguinte, mau, para Plotino ele é

resultado de um bem articulado processo de irradiação do Uno, cujo nível mais baixo é

a matéria, negativa porque sinônimo de insuficiência, mas, também, positiva, no sentido

de que é dela que a alma parte para empreender o caminho de volta, o epistrophê, ou

conversão.

De outra banda, enquanto a antropogonia gnóstica advoga a existência de três

para Plotino a salvação é algo ao alcance do ser humano em geral, desde que observadas

condições de purificação interior que propiciem o êxtase e a união com o Uno.

Por último, tratou-se da importância que Plotino, de um lado, e os gnósticos, de

outro, atribuíam à ética: elevada, para o primeiro, e nenhuma, para os últimos. Isto

porque, se para Plotino, o cultivo das virtudes pavimentava a senda salvífica, para os

gnósticos - que no rol das três espécies de homens, seriam os pneumáticos ou espirituais

- a salvação já estava assegurada por natureza, independentemente do seu agir no

5. O CAMINHO PARA A SALVAÇÃO, EM PLOTINO E ENTRE OS