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Argumenta Émile Bréhier (1998, p. 23), que são reconhecidas, pelos estudiosos,

duas ordens principais de questionamentos no pensamento de Plotino. O primeiro deles

é o denominado problema religioso, relativo ao destino da alma e ao modo de restaurá-

la ao seu estado original; já o segundo problema, qualificado de problema filosófico,

radica na necessidade de se conferir uma explicação racional à realidade. Plotino busca

demonstrar a identidade destas duas representações, de modo a afirmar o valor religioso

do racionalismo. A existência do Universo, nesta perspectiva, remonta não a um mito,

como no caso da gnose, mas a uma explicação elaborada pelo logos; daí porque se

afigure mais adequado falar-se em uma cosmologia – e não em uma cosmogonia –

plotiniana.

Conforme assinala José Alsina Clota (1989, p.53), Plotino foi o primeiro

pensador grego que tratou, de forma incisiva, do problema da “criação”, superando,

neste particular, os esforços empreendidos por Platão, no Timeu, bem como por

Aristóteles e pelos estóicos. Parece crível supor que Plotino tenha aproveitado, de Filo,

o judeu, a idéia de que Deus, em sua absoluta transcendência, engendra o universo a

partir da superabundância de sua perfeição. Este processo, que alguns denominam

emanação, sofrerá uma reelaboração completamente distinta em Plotino, recebendo o

nome de próodos, modernamente traduzido por “processão”.

Por conseguinte, a explicação racional da realidade, do cosmos, realizada pela

cosmogonia e a cosmologia plotinianas, se assentam na engenhosa teoria da processão

das hipóstases37. A realidade, segundo Bréhier (1998, p. 35) conhece, em Plotino, uma

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Hipóstase (em latim, subsistentia) é aquilo que permanece infenso à mudança e às modificações de toda ordem; são os níveis ontológicos da Realidade. No âmbito da dialética plotiniana da processão, é uma

dupla representação: por um lado, é uma representação assemelhada ao mito da alma,

segundo o qual o universo é dividido em instâncias ocupadas, pela alma, segundo a sua

pureza, e de acordo com o seu processo descensional ou ascensional; por outro, o

universo aparece como uma série de formas, sendo que, cada qual depende, hierárquica

e racionalmente, da precedente.

A processão é o processo, constituído de três momentos logicamente distintos,

segundo o qual toda a realidade é derivada do Uno. Estes momentos são: a manência

(do grego ménein, permanência), que diz respeito à atividade própria do Uno – que

engendra sem mudar e nem se diminuir; a processão em sentido estrito, ou saída; e o

retorno, indissociável da contemplação. Para bem compreender tal processo, é preciso

não olvidar que Plotino distingue duas formas de atividade, quais sejam, aquela que é

própria de um ente (e que coincide com a própria natureza deste) e aquela outra que

provém daquele ente (do mesmo lhe é derivada). Ora, no caso específico do Uno, a sua

primeira atividade coincide com o seu ser que é, a sua causa sui38; já a sua segunda

atividade se mostra como conseqüência necessária da primeira. A processão é, enfim,

uma necessidade que se segue a um ato de liberdade (o do Uno que se põe e se cria a si

mesmo); é, ademais, uma atividade que não se esgota e nem, tampouco, apequena a

substância que deriva de outra substância. Inobstante inferior com relação àquela da qual derivou, cada hipóstase é capaz de gerar outras substâncias, porque, ela própria, é a mesma substância da qual derivou.

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“Causa de si”, no vernáculo. A noção remonta a Aristóteles (Ética a Nicômaco, III, I, 110, a), e designa a liberdade como autodeterminação. Veja-se, por exemplo, a Enéada VI, 8, 16, na qual Plotino define a Inteligência como obra de sua própria atividade, enquanto “tem o ser de si mesma e por si mesma”. O conceito chegou a Espinosa através do Neoplatonismo árabe (para o qual a causa sui era uma das muitas expressões da natureza divina, segundo o conceito de Deus) e pela filosofia judaica. Segundo Espinosa, a “causa de si” era ‘aquilo cuja essência implica a existência ou aquilo cuja natureza só pode ser concebida como existente’ (Ética, I, def. 1). Hegel retomou, a partir de Espinosa, a expressão, acrescentando que toda causa “ é em si e por si causa sui, na medida em que se reduz à Causa Infinita, que é a substância racional do mundo (Enciclopédia Filosófica, § 153) (ABBAGNANO, 2000, p. 130). Acresça-se que, para Plotino e Proclo, é a causa de si mesmo, o aition heatou; para Nicolau de Cusa, o movimento absoluto, que é o repouso absoluto; segundo Fichte, é o Eu que se põe como Eu; já para Schelling, é o processo dinâmico de autoprodução da natureza. O conceito transbordou para outras áreas do saber, como o mostram a Teoria dos Sistemas, publicada em 1945, por Ludwig von Bertalanffy, que, por sua vez, repercutiu entre biólogos (Humberto Maturana), etólogos, bioquímicos, neurofisiologistas, psicólogos, sociólogos e mesmo juristas (Niklas Luhmann).

hipóstase da qual deriva, embora, enquanto atividade, degenere, progressivamente, de

sorte que as hipóstases produzidas são, hierarquicamente, inferiores uma à outra

(REALE, 1995, p. 213).

A processão, no dizer de Jean Brun (1991, p. 43) “não é nem criação, nem o

fabrico, nem a evolução, nem a história. Ela dá conta da maneira como as diferentes

formas da realidade estão em estado de mútua dependência”. A processão é, assim, o

modo pelo qual as três hipóstases (Enéada II, 9, 1-33) – o Uno (Hen), A Inteligência

(Nous) e a Alma (Psyché) – engendram, uma a outra, do mais “alto” até o mais “baixo”.

Nas palavras de Plotino (Enéada V, 1, 6):

Nada vem do Uno senão aquilo que há de maior depois dele. Mas o que há de maior depois dele é a Inteligência, que é o segundo termo. Com efeito, a Inteligência vê o Uno e não tem necessidade senão dele; mas ele não precisa dela; o que nasce do termo superior à Inteligência, é a Inteligência; e a Inteligência é superior a todas as coisas porque as outras coisas vêm depois dela; por exemplo, a Alma é o verbo e o ato da Inteligência, como ela própria é o verbo e o ato do Uno.

O Uno é o Primeiro Princípio e, enquanto tal, ocupa o ponto mais alto no

escalonamento hierárquico das hipóstases. Ele é uma condição necessária, uma vez que,

se há multiplicidade, é preciso que, em primeiro lugar, haja a unidade (Enéada VI, 1,

13). O Uno é a absoluta simplicidade, a plena auto-suficiência; carecendo de partes e de

forma, é infinito e inteiramente só. Está além do intelecto e, em razão de sua

superabundância, assim como de sua suprema faculdade de engendrar – não de sua

deliberada vontade, como no Deus cristão - tudo dele “brota” (Enéada VI, 8, 16). É ele a

fonte que flui, sem jamais se esgotar, a raiz da árvore imensa, a esfera luminosa que

projeta a sua luz sem nada perder de sua luminosidade originária e sem, tampouco,

A segunda hipóstase, no sistema plotiniano, é o Intelecto, ou Nous, a “morada”

dos inteligíveis, das coisas imortais. É, o intelecto, uma luz que deriva da luz originária;

é como uma imagem do Uno. É Deus, mas não o Deus supremo (Enéada V, 5, 3). É um

ser orgânico e vivo, sendo, ademais, auto-suficiente, por abrigar, em seu âmago todo o

imortal, todo o intelecto, toda a divindade e toda a alma (Enéada V, 1, 4). Por fim, é

idêntico ao seu objeto (Enéada V, 4, 2).

A terceira hipóstase é a Alma, ou Psyché. Tanto a Alma Universal, quanto as

incontáveis almas particulares que aquela contém, são constituídas pelos inteligíveis

(idéias) que ingressam no âmbito da temporalidade. Como nos diz Plotino, a alma é

verbo e ato do Intelecto, como o Intelecto o é do Uno (Enéada V, 1, 6). A Alma tem

uma dupla natureza, inteligível e sensível (Enéada IV, 8, 7), postando-se, a um só

tempo, nos limites do inteligível e muito próxima da natureza sensível. Nas palavras de

Plotino (Enéada IV, 8, 7), é melhor, para a Alma, viver no inteligível; nada obstante, por

ter, também, uma natureza sensível, lhe é própria a necessidade de estar, igualmente, no

mundo material. A Alma produz o Cosmos, o mundo sensível, a partir da imitação dos

modelos contidos no Intelecto (Enéada III, 7, 10). Há, segundo Plotino, uma Alma

Universal, mais próxima do Intelecto, e uma Alma do Mundo, mais distante deste

último, e que se constitui na parte inferior daquela. Via de conseqüência, também, no

ser humano, há uma parte superior e outra inferior, cabendo salientar, todavia, que nossa

alma particular não é uma parte da Alma-Mundo, porquanto não possa, esta última,

estar em contato direto com as coisas mundanas, tal como o fazem as almas particulares

(Enéada IV, 8, 7).

Observa Bréhier (1998, p. 35) que a descrição do universo, levada a efeito por

Plotino, parte do modelo astronômico geocêntrico, proposto por Eudoxo, que, no século

por várias esferas concêntricas, sendo que a mais exterior delas seria ocupada pelas

estrelas fixas e, as mais interiores, cada qual por um planeta. Esta representação é

portadora de uma forte conotação simbólica: a regularidade e a periodicidade do

movimento das esferas é sintomática de que a existência do mundo liga-se não a forças

caóticas, mas à razão, podendo, destarte, ser apreendida pelo conhecimento racional. O

mundo é eterno, submetido a períodos que se sucedem, sem fim, reproduzindo-se, uns

aos outros.

Plotino se detém, longamente, no problema cosmológico, dedicando-lhe,

inclusive, um tratado especial, qual seja o primeiro tratado da segunda Enéada. Tanto

ele, quanto os neoplatônicos em geral, cuidam de defender esta visão do universo contra

as dos estóicos, dos cristãos e, especialmente, dos gnósticos. Em síntese, para Plotino, o

mundo sensível constitui-se de uma determinada ordem, realizada no espaço e no

âmbito da matéria. O princípio deste mundo não pode ser senão uma ordem intelectual

absolutamente fixa, contendo, sob uma forma eterna e acessível à inteligência pura, o

produto e as harmonias manifestadas no mundo sensível. A matéria, neste cenário, serve

de degrau necessário para a elevação da alma até o Uno, uma vez que, por força da

processão das hipóstases, o mundo sensível é inteiramente deduzido do supra-sensível.

Esta constatação mostra-se repleta de conteúdo salvífico, posto que, se as três

hipóstases estão, também, na natureza das coisas – por extensão, em cada ser humano -

é possível encontrar o divino dentro de si e, a partir dele, empreender o caminho de

volta ao Uno. De fato “há em primeiro lugar o Uno, que está para lá do Ser; [...] depois,

a seguir a ele, o Ser e a Inteligência e, em terceiro lugar, a natureza da Alma” (Enéada

VI, 1, 10). E “como estas três realidades estão na natureza das coisas, é preciso pensar

É de se observar, desde logo, que Plotino condenava a concepção gnóstica das

hipóstases como intermediários (emanações, potências) que criavam embaraços ao ser

humano, no caminho da salvação (BRUN, 1991, p. 46). Ao invés de considerar as

hipóstases como cidadelas a serem tomadas, de guardiões tirânicos, rumo à redenção,

ele nos incentiva, a um só tempo, à interiorização e à elevação a Deus: “Ele não está

longe e tu vais conseguir” (Enéada V, 1, 3). Isto porque, no êxtase de coloração

plotiniana, o caminho ascensional da alma é, ao mesmo tempo, um mergulho em si

mesmo, já que, por conta dos processos da processão e da conversão, o Uno está em

tudo, e, por conseguinte, também nas profundezas daquele que busca a salvação. Não se

trata, assim, de atravessar reinos governados por potestades maléficas, pois, entre o ser

humano e o Uno não há distâncias e nem mesmo diferenças substanciais. A odisséia

espiritual, para Plotino, não é, portanto, espacial, mas interior.