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O casamento de Alfonso com Violante de Aragão é um dos pontos mais obscuros da vida do monarca. Francisco de Moxó y Montoliu, em seu trabalho investigativo realizado em 1989, observa que

[...] no deja de ser sorpreendente que un enlace que había de ser fecundo en prole – recordemos que serían diez los hijos de Alfonso – como en consecuencias políticas para los respecivos reinos de Castilla y de Aragón, haya dejado tan escasa huella en la documentación y en los testimonios de los contemporáneos153.

As informações recolhidas por esse autor, dão conta de que durante o cerco a Sevilha em 1248 Fernando III havia recebido a visita do bispo de Huesca, que trazia uma mensagem de Jaime I, na qual o monarca aragonês lembrava ao rei de Castela o compromisso firmado em 1240, em que fora acertado o casamento de Alfonso com sua filha Violante154.

Em resposta ao quase ultimato de Jaime I, Fernando III argumentou que naquele momento não podia suspender o cerco a Sevilha, e sugeriu que o casamento fosse realizado tão logo ocorresse a capitulação da cidade155.

O monarca chegou a propor como possível data 24 de junho, dia de festejos de São João Batista, para a realização da cerimônia. Fernando III expressava, desse

153 MOXÓ Y MONTOLIU, F. El enlace de Alfonso de Castilla con Violante de Aragón: marco político y precisiones cronologicas. Hispania, Madrid: CSIC, p.69, 1989.

154 MOXÓ Y MONTOLIU (1989, p.102). 155

modo, sua intenção de participar dela, ou, em último caso, de garantir a participação do maior número possível de seus nobres.

Alfonso, por sua vez, também manifestou interesse em honrrar o compromisso de seu pai, e em carta enviada a Jaime I declarou: “[...] el casamiento

de mí y de vuestra hija nos place mucho y lo queremos y siempre lo quisimos, lo uno por el gran amor y por la deuda que tenenos con vosotros y lo otro porque creemos que lo debemos hacer y que es derecho”156.

Segundo Salvador Martínez, as bodas foram realizadas “[...] en Valladolid el 1

de diciembre de 1249, al parecer, sin mucha pompa, cuando Alfonso tenía ya 28 años y Violante 15; no pudo asistir don Fernando, pero sí estuvo presente su esposa, doña Juana de Ponthieu”157.

Alfonso não permaneceu muito tempo em Valladolid. No início de 1250, atendendo ao chamado de Fernando III, retornou a Sevilha. O monarca, cuja saúde havia sido abalada pelos esforços da última conquista, encarregou o príncipe herdeiro do governo do reino.

Também no início desse ano Alfonso participou das primeiras e únicas

Cortes158 celebradas por Fernando III em Sevilha. Apesar das poucas informações

sobre os assuntos tratados nessas Cortes, sabe-se que alguns deles se referiram à cobrança de impostos sobre o comércio de gado, à dissolução de algumas confrarias gremiais, à violência praticada pela nobreza contra os habitantes de suas novas possessões em Sevilha e à adoção de medidas para diminuir o gasto

156 Apud PÉREZ ALGAR (1997, p.118). 157 SALVADOR MARTÍNEZ (2003, p.110).

158 Reuniões ou assembléias dos representantes dos diferentes estamentos para decidir sobre assuntos do reino (NIEVES SÁNCHEZ, 2000, p.100).

suntuário; aliás, medidas que seriam retomadas nas Cortes de Valladolid, reunidas por Alfonso X em 1258159.

Entre março e abril de 1252, Alfonso ausentou-se brevemente de Sevilha para cuidar de alguns assuntos que pretendia resolver antes do falecimento de Fernando III. Ele estava preocupado com a extensão dos domínios territoriais que seu pai havia outorgado à rainha Juana e ao seu irmão, o infante Enrique.

Todavia, antes que Alfonso pudesse tomar alguma medida, o infante Enrique e a rainha colocaram sob a custódia de Dom Fernán Ordoñez, mestre da Ordem de Calatrava, as propriedades que Fernando III lhes havia concedido160.

Em março de 1252, após uma breve passagem por Cuenca, Alfonso regressou a Sevilha para acompanhar o rei em seus últimos meses de vida. Fernando III, que pretendia organizar uma campanha para invadir o Marrocos e eliminar de vez o perigo muçulmano, teve seus planos interrompidos pela doença que em breve lhe ceifaria a vida.

A Primera Crónica General de España relata, em seu capítulo 1132, os últimos dias de vida de Fernando III. Segundo essa fonte, assim que pressentiu que a morte estava próxima, o monarca reuniu todos os seus familiares e expôs seus últimos desejos e suas últimas recomendações, especialmente a Alfonso, seu herdeiro:

159 De fato, essas medidas revelam o intervencionismo praticado por Fernando III nos negócios do reino, parte do processo de centralização do poder levado a cabo durante o seu reinado. Sob Alfonso X as intervenções seriam ainda maiores, um dos motivos que provocaria a reação da nobreza. Sobre esse tema, veja-se: MARTÍN, J. L. Economia y sociedad de la época alfonsina. Revista de Ocidente, v.43, p.29-41, 1984.

160 Veremos mais adiante que, logo após a sua ascensão ao trono de Catela, Alfonso X reivindicaria junto ao mestre de Calatrava a devolução das propriedades do infante Enrique. Capítulo 5, item

Et desque estos todos sus fijos que y estauan, derredor de sy vio, et todos sus ricos omnes con ellos, et la reyna su mujer çerca de sy muy triste et muy quebrantada, et non menos todos quanto otros y estauan, lugo primeramiente fizo açercar a si don Alfonso su fijo, et alço la mano contra el, e santiguolo et diol su bendiçion, et desi a todos los otros sus fijos. Et rogo a don Alfonso que llegase sus hermanos a sy, et los criase et los mantouiese bien, et los leuase adelante quanto podiese, et rogol por la reyna que la touiese por madre et que la onrrase et la mantouise sienpre en su onrra commo a reyna conuiene, et rogol por su hermano don Alfonso de Molina, et por las otras hermanas que el auie, et por todos los ricos omnes de los sus regnos, et por los caualleros que los onrrasse et les fizese sienpre algo et merçed et se touiese bien con ellos et les guardase bien sus fueros et sus franquezas et sus libertades todas, a ellos et a todos sus pueblos161.

Fernando III finalizou suas recomendações a Alfonso advertindo-o da grandeza de seu reino e da responsabilidade que pesava sobre ele:

Ssennor te dexo de toda la tierra de la mar aca, que los moros del rey Rodrigo de Espanna ganado ouieron; et en tu sennorio finca toda: la vna conquerida, la otra tributada162. Sy la en este estado en que te la yo dexo la sopieres guardar, eres tan buen rey commo yo; et sy ganares por ti mas, eres meior que yo; et si desto menguas, non eres tan bueno commo yo163.

Segundo a Primeira Crónica General de España, dito isso, o monarca pediu que lhe entregassem uma vela acesa, símbolo de fé que todo cristão deve ter à mão na hora da morte. Segurou-a com ambas as mãos, levantou-a ao céu e pronunciou suas últimas palavras: “Sennor, desnudo sali del vientre de mi madre que era la

tierra, et desnuyo me ofresco a ella. Et, Sennor, reçibe la mi alma entre companna de los tus sieruos”164.

161 PCG (1955, p.772, Tomo II).

162 Referência ao reino de Granada, cujo emir Ibn al-Ahmar havia prestado vassalagem ao monarca castelhano.

163 PCG (1955, p.772-773, Tomo II).

164 PCG (1955, p.773, Tomo II). Para uma visão das atitutes do homem medieval perante a morte, veja-se: ARIÈS, Ph. História da morte no Ocidente desde a Idade Média. Lisboa: Teorema, 1989.

Ainda segundo essa fonte alfonsina, os clérigos presentes rezaram a ladainha e cantaram Te Deum laudamus em voz alta. “Esto fue en treynta dias del mes de

mayo, quando andaua la era [...] de la Encarnaçion del Sennor en mill et dozientos et çinquanta et dos annos”165.

ALFONSO X, MONARCA: A RETOMADA DA POLÍTICA DE

CONSOLIDAÇÃO TERRITORIAL DA MONARQUIA CASTELHANA