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Os funerais de Fernando III aconteceram no dia primeiro de junho de 1252, quando seu corpo foi trasladado do Alcácer de Sevilha para a Igreja de Santa Maria, onde foi sepultado.

A Primera Crónica General fala que a morte do monarca foi lamentada por todos do reino, inclusive por Muhammad I, rei de Granada e seu vassalo. Mas em Sevilha é que a comoção se fez mais dramática. Há relatos de pessoas de todas as categorias sociais que, aos prantos, arracavam os cabelos e arranhavam o rosto em sinal de dor166.

Na hora do enterro, uma multidão se concentrou na catedral para ouvir o sermão de Dom Remondo, bispo de Segóvia, que fez o elogio fúnebre.

166 “¿Qui podrie dezir nin contar la marauilla de los grandes llantos que por este sancto et nobre et bienauenturado rey don Fernando fueron fechos por Seuilla, o el su finamiento fue et do el su sancto cuerpo yaze, et por todos los reynos de Castiella et de Leon? ¿Et quien uio tanta duenna de alta guisa et tanta donzella andar descabennadas et rascadas rompiendo las fazes et tornandolas en sangre et en la carne biua? ¿Quien vio tanto infante, tanto rico omne, tanto infançon, tanto cauallero, tanto omne de prestar andando baladrando, dando bozes, mesando sus cabellos et rompiendo las fruentes et faziendo en si fuertes cruezas? Las marauillas de los llantos que las gentes de la çipdat fazien, non es omne que lo podiese contar” (PCG, 1955, p.773, Tomo II).

Logo após o sepultamento, Alfonso X foi proclamado rei de Castela e Leão, sobre a tumba de seu pai, numa cerimônia simples, segundo informa Jofre de Loyasa, aio da rainha Violante, em carta escrita ao rei de Aragão, Jaime I:

Sennor: Fago vos saber quel rey de Castilla finó postrimero día del mes de mayo, et fue soterrado lo primero día de Junio. E foron hi todos sus fijos, si non l’arçobispo de Toledo. Et fue soterrado dellant l’altar de Santa María de Sevilla. E tan aína cuemo fue soterrado, estando sobre la fuesa, levantaron a don Alfonso. E fue cavallero lo primero día de junio. Et el rey envió por todos sus omnes quel vinieren a Sevilla167.

A Crónica de Alfonso X não apresenta informações detalhadas sobre a cerimônia de ascensão do monarca. O cronista limita-se a dizer que “[...] después

que fue finado el santo rey don Ferrando168, que alçaron rey de Castilla e de León, en la muy noble çibdat de Seuilla donde él finó, el infante don Alfonso, su fijo primero heredero”169.

Os historiadores têm discutido o significado das expressões levantaron e

alçaron. Dom Gaspar Ibáñez de Segóvia, marquês de Mondejar, considerado o

primeiro biógrafo de Alfonso X, interpretou-as literalmente e imaginou o jovem monarca castelhano sendo erguido, como os antigos reis germânicos, sobre um escudo170.

Ballesteros Beretta, autor da monumental biografia de Alfonso X, publicada na década de 1960, compartilha a mesma opinião do marquês de Mondejar e afirma

167 Apud GONZÁLEZ JIMÉNEZ (2004, p.44, grifo nosso).

168 Em Castela, Fernando III foi venerado como santo desde a primeira metade do século XIV, mas a sua santidade só foi reconhecida quatro séculos depois, em 1671; ao contrário de seu primo, Luis IX, da França, que foi proclamado santo pela Igreja em 1297, poucos anos depois de sua morte. Sobre Luis IX, conferir: LE GOFF, J. São Luis. Rio de Janeiro: Record, 1999.

169 CAX (1999, p.4, grifo nosso). 170

que o monarca foi alçado sobre um escudo pelos magnates do reino, com toda a pompa e circunstância, ou seja, ao clarinar das trombetas171.

Para González Jiménez, a cerimônia de alçamento deve ser entendida como uma simples aclamação de Alfonso X, sobre a sepultura em que havia acabado de ser enterrado Fernando III, sob o grito de “Real, Real, Real”, seguida pela autocoroação do monarca. É isso o que quer dizer Jofre de Loyasa, em sua carta a Jaime I172.

Joseph O’Callaghan, baseando-se em uma lei do Espéculo, uma das obras jurídicas alfonsinas, argumenta que o alçamento de Alfonso X deve ser entendido como um ato simbólico. São palavras do autor: “Pienso que fue elevado

simbólicamente al más alto nível por la aclamación de la asamblea y que, ascendiendo al trono, fue literalmente situado por encima del resto del pueblo. Pero no creo que fuese en realidad alzado sobre un escudo”173.

Salvador Martínez aceita, sem ressalvas, o suposto ato de alçamento do príncipe herdeiro sobre a tumba de seu pai. Baseando-se no relato do marquês de Mondejar e de outros cronistas contemporâneos, o autor preocupa-se em sublinhar o caráter laico da cerimônia de coroação, ou, melhor dizendo, da autocoroação de Alfonso X:

Al acto de reconocimiento por parte de sus súbditos más poderosos siguió la coronación, si así se puede llamar, ya que Alfonso, con un gesto muy característico suyo [...] no quiso que fuese llevada a cabo por la autoridad eclesiástica, obispo o abad, en una gran ceremonia religiosa, sino que él mismo tomó con sus propias manos la corona

171 BALLESTEROS BERETTA (1984. p.54). 172 GONZÁLEZ JIMÉNEZ (2004, p.45).

173 O’CALLAGHAN, J. El Rey Sabio. El reinado de Alfonso X de Castilla. Sevilla: Universidad de Sevilla, 1999. p.26.

que había llevado su padre y que estaba sobre el altar, y se la puso en la cabeza174.

O mesmo ocorreu no dia seguinte, na cerimônia em que Alfonso X foi armado cavaleiro. O monarca armou a si próprio cavaleiro, é o que diz o Marquês de Mondejar em seu relato: “Et porque se entienda que nunca ningún Rei terrenal non

haya poderío sobre éll, cíngase éll mismo con su espada, que es a semblant de cruz, et sea assí cavaillero: et non deve ser feito otro cavaillero”175.

Não houve, portanto, nenhuma unção régia como as que ocorriam nas cerimônias de coroação dos monarcas ingleses e franceses. Segundo González Jiménez, a monarquia castelhana fundamenta-se

[...] sobre fuentes de legitimidad y de poder bastante laicas, al menos en sus manifestaciones externas y ceremoniales. El poder de los reyes derivaba de los derechos sucesorios transmitidos de padre a hijo – y de ahí el impresionante simbolismo de la proclamación del nuevo monarca sobre la tumba recién sellada del rey difunto – y de la aclamación del rey-caudillo por sus vasallos y súbditos, entre el flamear de los pendones y las aclamaciones del pueblo. La misma autorrecepción de la caballería, aplazada en su ceremonial, que no en su ejercicio176, hasta el momento solemne de la proclamación

como rey, se nos presenta desacralizada y desvinculada de todo protagonismo e intervención de la Iglesia, en una ceremonia de corte absolutamente laico y feudal177.

174 SALVADOR MARTÍNEZ (2003, p.114).

175 Apud SALVADOR MARTÍNEZ (2003, p.114-115).

176 Referência ao fato de Alfonso X ter sido armado cavaleiro aos 31 anos, quando havia muito já exercia a cavalaria. Como vimos no capítulo anterior, Alfonso possuía uma vasta experiência militar, adquirida desde os anos infantis, e, sobretudo, a partir de 1240, quando participou efetivamente da Reconquista, levada a cabo por seu pai.

177 González Jiménez (2004, p.46). Esse tema tem provocado acalorados debates entre os historiadores. Teófilo Ruiz e Peter Linehan afirmam que a monarquia castelhana é desprovida de caráter sacro. Nieto Soria defende a idéia de uma monarquia sacralizada. Sobre essa temática, veja-se: RUIZ, T. Une royauté sans sacre: la monarchie castillane du Bas Moyen Age. Annales Économies Sociétés Civilizations, Paris: Armand Colin, n.34, p.429-453, 1984; LINEHAN, P. History and historians of medieval Spain. Oxford: Clarendon Press, 1993; NIETO SORIA, J. M. Fundamentos ideologicos del poder real en Castilla (siglos XIII – XVI). Madrid: Eudema, 1998. Este autor tem respondido à tese de Linehan reafirmando o caráter sacro da monarquia castelhana. Conferir: NIETO SORIA, J. M. Origen divino, espíritu laico y poder real en la Castilla

Desse modo austero e ao mesmo tempo simples, inicia-se o reinado de Alfonso X, o Sábio. Nas páginas seguintes daremos continuidade à discussão que vínhamos travando no primeiro capítulo. Mostraremos a atuação de Alfonso X na condução da política de expansão e consolidação do território herdado de Fernando III.