O primeiro número da Habitat é praticamente dedicado à apresentação do MASP. O texto de Lina Bo Bardi “O Museu de Arte de São Paulo: Função Social dos Museus”204 apresenta os
propósitos do projeto do MASP, das escolhas que nortearam a composição do seu acervo, a importância do museu com um caráter formador, reafirmando os pontos já traçados por Pietro M. Bardi em seu texto inaugural “Museu fora dos limites”, sobre o distanciamento do MASP em relação à ideia de museu como “mausoléu intelectual”. O problema didático é reafirmado no texto como função necessária aos museus, além das questões que visam à conservação de obras de arte, e essa nova base estabelecida deverá alcançar a população não informada “nem intelectual, nem preparada”. Passados três anos de sua inauguração, Lina faz um balanço das atividades realizadas pelo museu até então, descrevendo as instalações projetadas, os cursos oferecidos, as exposições e a proposta que busca criar um “ambiente propício para a compreensão da arte”, compreendida de forma abrangente:
“Não é um Museu de Arte Antiga nem um Museu de Arte Moderna – é um Museu de Arte, e busca formar uma ‘mentalidade para a compreensão da arte’, uma atmosfera, e se com grande escândalo de algum ‘iniciado’ se acham ali expostos os ‘pompier’, a explicação se encontra na respectiva descrição, que define que aquilo era qualquer coisa que nada tinha a ver com a arte. Por que também o critério de ignorar o que o grosso público tem por arte já deve ser considerado superado; e como explicar que uma coisa nada vale se não se a coloca em evidência, paralela àquilo que tem valor?”205
“Sinopse do Museu de Arte”206 ilustra essa apresentação do laboratório que se tornou o museu: a Pinacoteca, que reúne obras-primas de grandes mestres, os painéis ilustrados de História da Arte da Sessão Didática, museografia moderna elaborada por Lina e Giancarlo Palanti, exposição de Le Corbusier apresentando arquitetura, pintura e escultura do mestre suíço, instalações dos cursos e oficinas, laboratórios de fotografia e cinema, dança, orquestra, mobiliário moderno.
No número seguinte, um artigo de Pietro Maria Bardi, intitulado “Para uma nova cultura do homem”, reafirma a posição tomada pelo MASP, que busca a aproximação entre o museu e o público através de um plano didático, questões essas que já havia apresentado no congresso do ICOM na cidade do México em 1947: “Precisa transformar o homem dedicado à cultura. (...) O cientista deverá perder a atitude e o hábito dos sacerdotes, guarda de um patrimônio
204 BO BARDI, Lina. “Função Social dos Museus”. Habitat n. 1, out.- dez. São Paulo, 1950. p. 17. 205 Idem, p. 17.
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misterioso e privativo. Deverá resignar-se a perder as prerrogativas de ermitão em meio às tebaldas, nas quais somente a fascinação abstrata dos materiais e o sentimento cristalizado em peças seriam a expressão de um orgulho privilegiado e desumano. O público, por outro lado, será conduzido passo a passo à rica e versátil condição na qual os grupos sociais não se comprimem como massas acéfalas à espera do maná dos oráculos, mas como um organismo vivo, composto por organismos vivos”.
A revista divulga as exposições organizadas pelo museu, sendo as montagens realizadas por Lina Bo Bardi reproduzidas e analisadas, especialidade que representa uma novidade no meio. Entre as exposições que mereceram destaque na revista no período em que Lina e Bardi estiveram à frente da revista, estão a mostra dedicada ao conjunto da obra de Le Corbusier, que reinaugurou o museu em 1950 e foi publicada no número de lançamento da revista, as exposições de Max Bill, Roberto Burle Marx, Saul Steinberg, Cartazes Suíços, entre outras. Geralmente, as exposições realizadas anteriormente à criação da revista são retomadas ao terem seus temas abordados, como é o caso da exposição “Cerâmica Nordestina”, realizada em 1948 e que comparece nos artigos que abordam a arte popular.207
Ainda sem um catalogo da coleção208, nos seus primeiros números a Habitat assume a tarefa de apresentar o acervo da Pinacoteca, e também anuncia em suas edições cada nova obra adquirida pelo museu. Na primeira Habitat, em texto provavelmente de Bardi, a coleção é apresentada seguindo-se a mesma concepção elaborada para a Pinacoteca, situando na mesma página um Léger ao lado de um Velásquez.209 No número seguinte, o professor e
207 “ Cerâmica do Nordeste”. Habitat n. 2, 1951, pp. 72-75. 208 O primeiro catálogo do MASP foi lançado em 1965. 209 “O Acervo da Pinacoteca”. Habitat n. 1, 1950, p.44.
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historiador Wolfgang Pfeiffer, que colabora com o museu nos cursos de história da arte, apresenta as novas aquisições.210 A mesma atenção é dada pela revista às mostras que integram a sessão didática de História da Arte do museu, que terão suas pranchas e sua programação reproduzidas à medida que novos temas de estudos são programados.211
Entre 1953 e 1957, a revista cobrirá as exposições do acervo realizadas na Europa e Estados Unidos, reproduzindo a repercussão das mostras pelas matérias publicadas nas revistas e jornais estrangeiros, como a revista Domus, de Gio Ponti212 e um artigo de Lionello Venturi, no
qual o historiador italiano elogia a alta qualidade das obras que compõem a coleção e a habilidade de Bardi em suas escolhas. Para Lionello Venturi, com o MASP “surgia em cinco anos o primeiro grande museu de arte ocidental da América Latina”, e destaca o caráter educativo idealizado para o museu em São Paulo e sua atuação na “promoção dos problemas estéticos no cotidiano da cidade”, afirmando que essa iniciativa deveria servir como exemplo para os museus italianos.213