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A essência da religião está na polaridade entre dois domínios: do sagrado e do profano. Durkheim se posiciona, focando na natureza da religião para assim defini-la:

(...) ela é um todo formado de partes; é um sistema mais ou menos complexo de mitos, de dogmas, de ritos, de cerimônias. Ora, um todo não pode ser definido senão em relação às partes que o formam (2000, p. 18).

Assim, ele chega finalmente aos dois termos distintos do “profano” e do “sagrado” também utilizado pelos autores estudados anteriormente, ao abordar o caráter comum das crenças religiosas conhecidas:

Todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas, apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens concebem, em duas classes, em dois gêneros opostos, designadas geralmente por dois termos distintos que as palavras

“profano” e “sagrado” traduzem bastante bem. A divisão do mundo em dois

domínios que compreendem, um, tudo o que é sagrado, outro, tudo o que é profano, tal é o traço distintivo do pensamento religioso: as crenças, os mitos, os gnomos, as lendas, são representações que exprimem a natureza das coisas sagradas, as virtudes e os poderes que lhe são atribuídos, sua história, suas relações mútuas e com as coisas profanas (DURKHEIM, 2000, p. 19-20).

As coisas sagradas diferem em natureza das coisas profanas, elas são de outra essência. Durkheim constata que há um profundo antagonismo entre os dois mundos,

pois, além de separados, se apresentam como hostis e rivais um do outro. O ser humano é como que exortado a retirar-se do profano para viver religiosamente. O sagrado tem os seus interditos, as suas proibições, aquelas coisas que o profano não pode tocar impunemente. A comunicação entre os dois mundos existe, mas por se tratar de uma operação delicada, requer precauções e iniciações complexas. O sociólogo da religião identifica um primeiro critério de crenças religiosas:

(...) o característico do fenômeno religioso é que ele supõe uma divisão bipartida do universo conhecido e conhecível em dois gêneros que compreendem tudo o que existe, mas que se excluem radicalmente. As coisas sagradas são aquelas que as proibições protegem e isolam; as coisas profanas, aquelas a que se aplicam essas proibições e que devem permanecer à distância das primeiras. As crenças religiosas são representações que exprimem a natureza das coisas sagradas e as relações que elas mantêm, seja entre si, seja com as coisas profanas. Enfim, os ritos são regras de conduta que prescrevem como o homem deve comportar-se com as coisas sagradas (DURKHEIM, 2000, p. 24).

Finalmente, Durkheim conclui o que entende por religião e esta sua definição nos ajuda compreender a força do sagrado, na sua perspectiva, valor criado pela cultura, pela sociedade: “Uma religião é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos aqueles que a ela aderem” (2000, p. 32).

Para o sociólogo não existe religião sem os seguintes elementos: comunidade, igreja, solidariedade social, valores éticos, separação entre o que é considerado sagrado e o que é considerado profano, sem distinção entre o permitido e o proibido, o aceito e o rechaçado. Não existe religião sem um conjunto de crenças com suas práticas consequentes, levadas a termo por fiéis que a elas aderiram. Deste modo, podemos concluir que:

“Durkheim, em seu maior tratado sobre a religião, ‘As formas elementares da vida religiosa’, torna o sagrado cúmplice da vida e dinâmicas sociais. O seu interesse pela religião faz com que ele se volte, não para Deus, mas para a sociedade. Ele se interessa pelo culto, pelas formas de organização social dos atos religiosos, pela instituição e seu papel no fortalecimento da coesão social, ou seja, pelos aspectos visíveis e sociológicos da crença e esse é o seu limite” (ABUMANSSUR, 2001, p. 189).

Na sociologia da religião durkheiminiana, nota-se a essência da religião, a distinção entre o sagrado e o profano, a questão da dualidade tão radical presente em todas as coisas. Reflexo da cultura arcaica que herdamos, que é dicotomizante. A lógica classificatória, o princípio codificador da cultura é baseado na divisão, na separação, no

binômio, na base de dois, disso e daquilo. Somos pensados e pensamos dicotomicamente, sobretudo, nas situações limítrofes da existência.

Bystrina6 ao falar dos textos da cultura, originados a partir dos códigos terciários ou hiperlinguísticos nos apresenta a sua estrutura básica, composta de três elementos: a binariedade, a polaridade e a assimetria, estrutura que nos ajuda a compreender a relação entre o sagrado e o profano. Vejamos primeiramente a binariedade e a polaridade.

A binariedade - sobre a binariedade, o semioticista recorda que a estrutura dos códigos terciários geralmente é binária ou dual, pois esta é uma concepção que se baseia na troca, no intercâmbio que se processa no mundo material ou físico denominado por ele de “primeira realidade”. A esse respeito, diz que:

“No início da cultura humana a oposição mais importante era vida-morte. E toda a estrutura dos códigos terciários ou culturais se desenvolveu a partir dessa oposição básica: saúde/doença, prazer/desprazer, céu/terra, espírito/matéria, movimento/repouso, homem/mulher, amigo/inimigo, direita, esquerda, sagrado/profano, paz/guerra, revolução/contra revolução, liberdade/prisão, igualdade/desigualdade, justiça/injustiça (justo/injusto) e dominação/ausência de dominação – que em última análise significa

anarquia, conceito conotado como negativo; muito embora possa ser revertido. Tais oposições binárias dominam com enorme força o pensamento da nossa cultura particular e o desenvolvimento da cultura em geral” (BYSTRINA, 1995, p. 7).

A vida/morte, portanto era a oposição mais importante nos primórdios da cultura humana. A partir dela, se desenvolveram todas as demais binariedades no mundo da cultura a partir dessa oposição básica elencada acima, que continuam impactando na vida, tanto das culturas particulares quanto da cultura geral.

O outro elemento é a polaridade – a estrutura binária dos códigos culturais terciários é organizada em polaridades. Desde sua gênese o binarismo é valorado polarmente, pelo fato de que a necessidade de dar valor aparece em primeiro lugar, seguida da tomada de decisão. A polaridade existe para favorecer a tomada de decisão, a atitude, o comportamento, a ação, que brotam das situações práticas da vida, sendo que cada polo recebe uma valoração. Bystrina diz que as polaridades podem se evidenciar

6 Ivan Bystrina (1924-2004) era natural de Praga, República Tcheca. Foi jurista, matemático e politólogo.

Foi criador da Semiótica da Cultura e editou um livro sobre Semiótica da Cultura em 1989, esgotado, única bibliografia fundamentadora e sistematizadora desta disciplina. Foi professor da Universidade Livre de Berlim. Esteve em São Paulo em 1990 e em 1995, a convite do CISC – Centro Interdisciplinar de Semiótica da Cultura e da Mídia, e com o apoio do CNPq, da Secretaria da Cultura do Município de São Paulo, da Folha de São Paulo e do Instituto Goethe. Em 1990 participou do Seminário “A imprensa perdeu o pé da história?” Em 1995 ministrou o curso de Semiótica da Cultura no CISC/PUC-SP.

nas situações limites da vida, como de começo e de fim, como é o caso da oposição entre vida e morte. Um polo sempre respondendo ao outro. No caso dos seres vivos, estes carregam intrinsicamente uma tendência potencializada para a luta pela sua sobrevivência, para sua própria preservação e permanência, lutando e enfrentando os perigos que se tornam ameaças concretas para a concretização destes objetivos.

“O homem, portanto, começa a demarcar os polos binários desde o início da sua existência. E ele o inicia nas situações de desprazer, como por exemplo, quando há uma pedra no caminho, uma situação de perigo. Onde não existe perigo não há sinal, não há desafio. Isso significa que os conceitos, ideias ou objetos que não possuem seu correspondente polo negativo não podem ser sinalizados, não podem ser demarcados. Essa é a segunda característica dos códigos terciários” (BYSTRINA, 2005, p. 8).

A binariedade existe desde o início da nossa vida e geralmente se principia nas situações desconfortáveis da vida, de ameaças, de perigos, fazendo emergir o polo negativo destas circunstâncias desfavoráveis. O polo negativo serve de sinal, de demarcação.

Será que não existe um terceiro elemento? Sim, existe, é o “entre”, é o regime crepuscular, que é o momento da passagem de um para outro. Dietmar Kamper já dizia que a vida começa no três. Mas ao trabalharmos questões ligadas ao imaginário só chegamos aos dois. Mas o ser humano não começa nem na luz, nem na escuridão, mas no crepúsculo. Como superar o princípio da dualidade existencial? O único caminho possível, segundo Bystrina, é o da assimetria, pois a estrutura binária e polar é explicitamente assimétrica.

Benzer Belgeler