3. BÖLÜM
3.4. VEBLEN VE ESERLERİ
O primeiro contato que estabeleci com os líderes comunitários ocorreu três anos depois que conclui o Curso de Licenciatura em Pedagogia em 2005; fui trabalhar com um projeto dentro do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), no município de Limeira, chamado Formatos Brasil, um Programa de Desenvolvimento Comunitário, cujo objetivo é formar atores sociais para o desenvolvimento comunitário. A idéia central desse projeto é que o participante construa sua formação, interagindo em Redes Sociais com seus pares, adequando os conhecimentos adquiridos à sua organização e comunidade.
É importante ressaltar que as comunidades citadas nesse estudo, e que integraram o Programa de Desenvolvimento Comunitário, sempre foram comunidades ativas e com lideranças ativas em suas localidades. O intuito do programa, na realidade, foi capacitar esses líderes, com objetivos de organização e gestão de seus projetos sociais, maior esclarecimento na busca de futuros parceiros éticos e responsáveis socialmente, além de torná-los aptos na negociação para captação de recursos físicos, humanos e financeiros, tão necessários ao bom andamento e manutenção dos projetos, uma vez que, o trabalho de todas as lideranças é voluntário. Entretanto, para que os projetos se mantenham, existem muitas necessidades materiais.
Partindo desse programa, colocamos em prática a Rede Social em janeiro de 2006, a fim de fortalecer os atores sociais na defesa de suas causas, na implantação de projetos e na
promoção de suas comunidades, visando construir novos compromissos alicerçados no interesse da coletividade. Iniciou-se, então, o trabalho com essas lideranças, por meio de reuniões mensais, nas quais sempre foram discutidos os mais diversos assuntos relativos às melhorias para o bairro, cidade e região, cujas quais eram (e ainda são) coordenadas pelas próprias lideranças.
A minha participação nesse projeto, enquanto pedagoga, colocou-me, portanto, em contato com os líderes comunitários, que recebem essa denominação não só por participarem de associações de moradores ou demais organizações de base mas, principalmente, pela representatividade deles na comunidade. O líder comunitário traz consigo a pluralidade cultural, as ricas experiências vividas no cotidiano das comunidades, bem como a escolha de representantes nas associações de bairro, nos conselhos de saúde ou de segurança da cidade, a participação nos projetos culturais, a geração de renda, a reivindicação de melhorias nas praças públicas (da escola que deveria ser construída em determinada região, do asfalto que não foi feito ou a criação de uma biblioteca no bairro). A ação do líder comunitário contempla, também, as atividades de incentivo à pesquisa e a divulgação de serviços públicos, os quais, muitas vezes, a população não tem acesso.
O fator que chamou minha atenção foi o fato de que líderes comunitários, em sua maioria, exercem uma atividade desvinculada de ações partidárias. Por pertencerem a classes sociais menos privilegiadas economicamente; diante de tantas desigualdades sociais, tornam- se ativos e motivados a agir pelo interesse de todos; pessoas que conversam, discutem e buscam estratégias, por meio do dialogo, para resolver o problema da comunidade na qual estão inseridos. O diálogo, ou dialogicidade, como dizia Freire (1982), é o princípio que rege as ações desses atores sociais. Esse diálogo que propicia à reflexão, o questionamento, a crítica e possibilita a mudança e/ou a transformação da comunidade.
Considerando essas reflexões, cabe observar que o líder comunitário exerce o papel de educador popular dentro de um contexto social marcado por injustiças e desigualdades, demonstrando, por meio das conquistas, das lutas, do engajamento social e político, que a existência de barreiras não é empecilho para que se faça a diferença no espaço de convivência.
Dessa forma, essa educação informal ou comunitária se apresenta enquanto um caminho para formação do sujeito ético, autônomo e livre para pensar, ou seja, na relação entre a educação popular e a comunidade é possível encontrar espaços em que a democracia se constitua enquanto um modo de vida e não apenas como um conceito formal.
Em uma sociedade em que “o apelo para a vida individualista é visto como o ideal de bem estar em nossa sociedade” (MILITÃO, 2003, p.6) e, por essa razão, prevalece o interesse particular e o lucro como objetivo principal, o trabalho coletivo é algo que foge dos padrões comportamentais. Entretanto, deparamo-nos com um grupo que tem algo em comum: a participação efetiva nos problemas da comunidade, partindo do princípio, ao que parece, de que a participação de todos é condição essencial para a melhoria da qualidade de vida e, de acordo com o autor: “a vida em comunidade […] não suprime a pessoa em favor do grupo, mas respeita a contínua tensão entre o eu e o nós e, com isso, instaura, necessariamente o diálogo e o respeito como forma de convivência” (MILITÃO, 2003, p.6).
O fator intrigante é que a falta de oportunidade, de condições adequadas de vida, moradia, saúde e educação não os fazem desistir. Pelo contrário, servem para impulsioná-los à luta diária por melhores condições. Em outras palavras, eles organizam ações coletivas em prol do bem comum, submetendo, muitas vezes, os seus interesses particulares em função do interesse do coletivo, sem receberem nenhum tipo de remuneração. Essa inquietação despertou a necessidade de compreender não a ação em si, mas, o que move a ação dessas pessoas simples que, mesmo com pouca ou nenhuma escolaridade, são pessoas que doam o seu tempo para lutar pelo interesse da coletividade e transformar a realidade em que vivem; pessoas que conversam, discutem e buscam estratégias para resolver o problema da comunidade na qual estão inseridos.
Dessa forma, as questões de pesquisa propostas nessa dissertação são: O que move a ação do líder comunitário em prol do bem comum? Quais os princípios éticos subjacentes a sua ação?
Os objetivos que permearam a realização desse estudo foram, respectivamente:
a. Desvelar as motivações que permeiam a ação dessas pessoas em prol da coletividade;
b. Evidenciar, no discurso do colaborador, os princípios éticos subjacentes às ações do líder comunitário.
CAPÍTULO II