A partir da relevância descrita na literatura das práticas colaborativas frente às demandas atuais da educação inclusiva o GP-FOREESP tem desenvolvido várias pesquisas que visam propor e avaliar a efetividade de programas de intervenção baseados nos modelos de ensino colaborativo e consultoria colaborativa como um dos caminhos para favorecer a escolarização de alunos com deficiências, assim como o impacto dessas práticas na formação docente.
Neste contexto há o estudo de Zanata (2004) que implementou e avaliou um programa de formação continuada baseado no modelo de ensino colaborativo. O programa foi realizado em três etapas, com o pesquisador-colaborador e três professores que tinham aluno surdo inserido em suas turmas do primeiro ciclo do ensino fundamental. A etapa preliminar consistiu no planejamento, através de encontros, nos quais foram analisados o estilo de aprendizagem dos alunos surdos e objetivos e estratégias que seriam utilizadas. A segunda etapa denominada de intervenção colaborativa consistiu na análise pelos participantes, em um ambiente colaborativo, de 64 aulas aleatórias filmadas previamente pelo pesquisador com a finalidade de, se necessário re-planejá-las para responder também às necessidades dos alunos surdos para serem novamente implementadas. Foram coletados dados através dos encontros, das modificações das estratégias e medidas de opinião dos professores sobre o processo vivenciado. Os resultados mostraram que a intervenção das estratégias desenvolvidas em colaboração com o professor do ensino comum e especial além de beneficiar os alunos surdos melhorando a qualidade do ensino, beneficiaram todos os outros alunos, e proporcionaram uma oportunidade de formação para os professores. Os resultados apontaram ainda que o ensino colaborativo não é suficiente para solucionar todos os problemas de comunicação entre o professor do ensino comum e o aluno surdo.
Com o objetivo de verificar as implicações do “ensino colaborativo” entre professores do ensino comum e especial, Capellini (2004) desenvolveu um estudo em duas escolas de ensino fundamental, de 1ª a 4ª série, no qual estavam inseridos seis alunos com deficiência intelectual. A intervenção foi baseada no apoio sistemático de professor do ensino especial dentro da classe comum, além de atividades de estudos extraclasse, planejamento, reflexão sobre a prática, e reuniões com familiares e coletivo da escola. Foram coletadas medidas de desempenho acadêmico dos alunos antes e depois da intervenção e, medidas de validade social baseadas nas opiniões das professoras e famílias sobre o ensino colaborativo.
Os resultados mostraram que o ensino colaborativo proporcionou evolução no desempenho acadêmico dos alunos, desenvolvimento pessoal e profissional dos professores e maior segurança por parte dos pais quanto ao ensino dos seus filhos com deficiência intelectual em classes comuns.
Na abordagem da consultoria colaborativa o estudo de Pereira (2009) investigou práticas psicológicas que pudessem favorecer a inclusão escolar. Participaram do estudo seis professoras de três classes comuns dos primeiros anos do Ensino Fundamental de uma escola pública, que tinham seis alunos surdos. Participaram, com indicação das professoras, seis outros alunos com indicativos de comportamento socialmente aceito e outros seis com problemas de comportamento, identificados a partir de duas escalas comportamentais. Foram obtidas ainda medidas de desempenho escolar de todos os alunos. O alvo da consultoria colaborativa foi o desempenho acadêmico e comportamental dos alunos O pesquisador realizou observações quinzenais das aulas, através de registro de campo e filmagens, intercaladas com atividade de consultoria para avaliação e planejamento das práticas inclusivas. Os resultados da avaliação da atividade de consultoria mostrou que esta é uma possibilidade de formação tanto para o consultor como para os docentes envolvidos.
Silva (2010) abordou o papel do psicólogo no ambiente escolar inclusivo, na perspectiva da consultoria colaborativa, atuando em parceria com professores e familiares. O estudo avaliou um programa de intervenção preventiva em problemas comportamentais seguindo o modelo da Consultoria Colaborativa Escolar e Suporte Comportamental Positivo. O estudo foi realizado em uma escola pública do interior do Estado de São Paulo. Participaram três professoras, 55 alunos e 18 familiares. Os instrumentos aplicados no pré e pós-teste foram o Inventário de Estilos Parentais e o Inventário de Comportamentos de Crianças e Adolescentes de 6 a 18 anos. O programa desenvolvido constou de encontros de formação teórica e supervisão prática com os professores; grupos de formação para os pais e intervenção direta com os alunos na sala de aula. Os dados qualitativos foram obtidos através de vídeos de grupos focais realizados com os professores e familiares. Como resultados do programa foram obtidas melhorias no estilo parental; mudanças positivas relacionados aos comportamentos dos alunos na escola e na qualidade de vida; e estabelecimento das parcerias colaborativas.
Na abordagem da consultoria colaborativa foi ainda realizado o estudo de Lourenço (2012), que, através de um delineamento baseado na pesquisa colaborativa avaliou os efeitos de um programa de formação para implementação de recursos de alta tecnologia
assistiva, desenvolvido com uma equipe de profissionais de uma escola especial do interior de São Paulo, de maneira a favorecer o processo de escolarização de alunos com paralisia cerebral. Participaram do estudo nove professores de educação especial, cinco profissionais da equipe interdisciplinar e nove alunos com paralisia cerebral. Os dados foram coletados através de entrevistas em grupo, diários de campo, questionários abertos e filmagens. Os resultados indicaram a efetividade do programa de formação, que teve como aspecto mais valorizado pelos participantes a colaboração entre profissionais e a pesquisadora. O desafio que a autora coloca diz respeito à manutenção das práticas estabelecidas com o afastamento do profissional consultor.
Rabelo (2012) abordou as possibilidades e limites de contribuições do ensino colaborativo na formação continuada de professores para a inclusão escolar de alunos com autismo. Fizeram parte de sua pesquisa dois professores do ensino regular, e cinco das salas multifuncionais, uma estagiária e três alunos com autismo que estavam matriculados no 1º e 2º ano de escolas públicas do interior do Pará. Foram realizados encontros para discussão do tema, planejamento, intervenção e avaliação, além de sessões de colaboração em sala de aula com professores e alunos. O trabalho mostrou que, o ensino colaborativo, apesar dos seus limites no que se refere à totalidade da demanda de formação continuada para o ensino comum e especial, contribuiu na formação continuada das professoras participantes para que desenvolvessem práticas pedagógicas inclusivas para seus alunos com autismo. A autora conclui que o ensino colaborativo deva ser reconhecido como uma das diversas alternativas que pode compor as políticas de formação de professores e assim contribuir com a construção de sistemas de ensino inclusivos.
Destacam-se ainda na área da consultoria colaborativa outros estudos realizados no próprio Programa de Educação Especial da UFSCar. Entre eles, a tese de Alpino (2008) sobre consultoria escolar do fisioterapeuta. A partir da caracterização das dificuldades posturais, de locomoção e do uso das mãos de alunos com paralisia cerebral que comprometem a escolarização desses alunos a autora investigou os efeitos de uma proposta de consultoria colaborativa junto aos professores de cinco alunos do ensino regular, das primeiras séries do ensino fundamental que apresentavam comprometimento funcional de moderado a grave. A proposta constou de um planejamento colaborativo de intervenção a partir do conhecimento das necessidades dos alunos e dos professores. As ações realizadas foram desde orientações especializadas até o desenvolvimento e implementação de adaptações de baixo custo, como do material escolar e de tecnologia assistiva, e de
capacitação dos professores. Os resultados da avaliação da proposta mostraram melhora no alinhamento postural dos alunos; indicação por parte dos pais de melhora na postura, alimentação, higiene e atividades acadêmicas; relato de melhora pelos professores quanto à participação acadêmica quanto a sua segurança no atendimento educacional e assistência dos alunos. A autora concluiu que o fisioterapeuta através de consultoria colaborativa pode contribuir para o processo de inclusão escolar dos alunos com paralisia cerebral e destaca a importância da abordagem ser fundamentada nas necessidades dos alunos e nas dificuldades dos educadores no contexto escolar.
Gebrael (2009) realizou estudo de delineamento experimental com grupo controle, com objetivo de elaborar, implementar e avaliar um programa individualizado de consultoria colaborativa em terapia ocupacional junto a professores do ensino infantil, a fim de aumentar o repertório desses professores quanto à estratégias e recursos para promover a independência de alunos pré-escolares com baixa visão nas atividades de vida diária de higiene e alimentação. Participaram 10 professoras e 10 alunos com baixa visão entre quatro e seis anos. A elaboração do programa de capacitação constou do estudo das habilidades da criança nas tarefas de autocuidado, da sua capacidade visual, do repertório inicial das professoras, e da dinâmica da díade professora-aluno na realização de atividades de vida diária. A implementação se deu através de seis encontros de consultoria colaborativa entre o pesquisador e a professora. Os resultados positivos do programa ao alcançar as metas foram atribuídos a utilização de métodos e abordagens didáticas, atividades práticas e feedback.
Em conjunto esses estudos têm demonstrado que práticas colaborativas, como ensino colaborativo e consultoria colaborativa podem contribuir para melhoria do ensino oferecido ao aluno com deficiências, assim como na formação continuada dos professores dos profissionais que atuam com essa população.
Um dos atores considerados essenciais nessas parcerias colaborativas, tendo em vista favorecer a educação de crianças com deficiências, tem sido o professor de educação especial, que deve compartilhar seus saberes com os demais membros da equipe. E como têm sido formados os professores de educação especial no Brasil? Esta é a questão a ser analisada no tópico a seguir, levando-se em consideração especificamente a área de deficiência visual que é o foco do presente trabalho.
1.6 FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA ÁREA DA DEFICIÊNCIA VISUAL NO