Embora o ato de beber seja comum em diversas épocas e culturas da humanidade, a abordagem da dependência de álcool como doença só ocorreu recentemente. Os alcoolistas existem desde as épocas mais remotas, conseqüentemente, ao longo do tempo foram elaborados vários modelos explicativos para o alcoolismo, modelos esses que estão inteiramente associados ao contexto sócio-histórico da época em que foram formulados.
A expressão embriaguez também tem origens muito remotas. Por vezes, foi associada a experiências religiosas e da esfera do sagrado, em outros momentos, estava ligada a experiências hedonistas praticadas pela humanidade através de diversas substâncias psicoativas (CARNEIRO, 2005; PEÑA-ALFARO, 1993).
2.2.1 O modelo moral
Esse modelo foi uma das primeiras tentativas para explicar o uso e a dependência do álcool. A visão moralista, inspirada em modelos religiosos, postulava que a dependência do álcool era um vício que se devia a um desvio de caráter. No século XIX, o alcoolismo foi visto como defeito moral, proveniente da fraqueza da personalidade ou do espírito da pessoa que não conseguia controlar seus impulsos.
Os elementos que embasam esta idéia foram construídos nos séculos anteriores. A literatura norte-americana sobre dependência de álcool nos séculos XVII e XVIII acreditava que as
pessoas bebiam apenas por sua vontade e que não havia nelas propriamente uma patologia ou uma compulsão pela bebida. Durante este período, o conceito de dependência do álcool foi visto como uma alteração da vontade e não como uma doença. As pessoas que abusavam do álcool seriam aquelas que não conseguiriam controlar suas ações, cedendo às tentações (MASUR, 1991; PACHECO, 1998; NASSIF, 2002).
2.2.2 O modelo médico
O termo alcoolismo crônico foi usado pela primeira vez pelo médico sueco Magnus Huss, em 1854, para designar o uso abusivo de bebidas alcoólicas e suas conseqüências sociais, assim como os sintomas e os sinais patológicos físicos e psíquicos apresentados pelo alcoolista. Huss dedicou-se a entender a etiologia do alcoolismo e devotou grande parte dos seus estudos a considerações psicológicas sobre a gênese do alcoolismo (SILVEIRA, 1980).
Somente no século XX, com o maior envolvimento da comunidade científica nas questões relativas ao alcoolismo, impulsionado especialmente pela classe médica da Europa e dos Estados Unidos da América, observou-se o desenvolvimento de novas pesquisas científicas que deram início a um novo modelo explicativo, que foi denominado de modelo médico. Este foi apresentado por Jellinek e seus colaboradores no final da década de 1940, nos Estados Unidos da América. Para Jellinek, o alcoolismo é considerado uma doença crônica e potencialmente fatal, estando subordinado aos mecanismos organicistas, onde os fatores fisiológicos relacionados ao consumo do álcool seriam geneticamente transmitidos (SILVA, 2003).
Ainda de acordo com Silva (2003), tal mudança foi decisiva para a elaboração de um conceito de adição ao álcool como entendemos hoje em dia. A mudança do enfoque moral do alcoolismo para uma concepção de doença propiciou ao dependente do álcool novas possibilidades de tratamento e suporte especializado, como requer qualquer outro adoecimento.
Por meio da evolução dos sistemas de classificação psiquiátrica, percebemos que a dependência de álcool sempre foi descrita ora como sintoma, ora como doença. No ano de 1952, com a primeira edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da
Associação Norte -Americana de Psiquiatria (DSM-I), o alcoolismo passou a ser tratado como doença. Já no ano de 1967, essa concepção de doença foi incorporada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na oitava revisão da Classificação Internacional das Doenças (CID-8). Na nona revisão, em 1977, a OMS passa a adotar o termo “síndrome de dependência do álcool”, incluindo não apenas as manifestações orgânicas como também as psíquicas.
Na atual Classificação Internacional das Doenças (CID-10), a OMS classifica o alcoolismo crônico entre os transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool. O quadro de Síndrome de Dependência Alcoólica (F 10.2) é descrito como um:
Conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após repetido consumo de uma substância psicoativa, tipicamente associado ao desejo poderoso de tomar a droga, à dificuldade de controlar o consumo, à utilização persistente apesar das suas conseqüências nefastas, a uma maior prioridade dada ao uso da droga em detrimento de outras atividades e obrigações, a um aumento da tolerância pela droga e por vezes, a um estado de abstinência física. (OMS, 2007b)
A mesma classificação propôs seis critérios de inclusão para que se possa diagnosticar alguém como portador da síndrome de dependência do álcool. Três ou mais dos seguintes critérios devem estar presentes na história do paciente durante algum tempo no último ano: a) uso persistente do álcool, mesmo que o usuário saiba dos danos hepáticos, neurológicos, físicos causados por esse uso; b) abandono progressivo de interesse e dedicação a atividades de lazer devido ao uso de álcool, aumento do tempo gasto para obter e consumir bebidas alcoólicas ou para recuperar-se de seus efeitos; c) presença de tolerância, sendo necessária uma dose muito alta de álcool para obter efeitos antes produzidos por doses pequenas; d) sinais e sintomas de abstinência quando o uso do álcool é interrompido ou diminuído; e) dificuldades para controlar o consumo de álcool quanto ao reinício, parada ou quantidade consumida; f) desejo intenso ou percepção de compulsão para beber (OMS, 2007b).
Existe também outro modelo explicativo para o uso e a dependência do álcool, chamado de modelo psicológico, que se subdivide em diferentes linhas teóricas dentro da Psicologia. Detalharemos, mais a frente, algumas dessas explicações psicológicas para o surgimento e manutenção do alcoolismo.