1. BİLGİ VE VARLIK BAHİSLERİ
1.2. Varlık
O local encontrado para a continuidade da pesquisa trata-se de uma instituição filantrópica, mais especificamente de uma Comunidade da Igreja Católica, que atua na cidade de João Pessoa-PB, nos dias de terça a sexta-feira e, em um sábado por mês, com atividades de distribuição de comida e de higienização11 junto aos moradores de rua, em alguns pontos de movimentação da cidade. Vale destacar que esse trabalho se dá somente no turno da noite, o que dava agora a oportunidade de ver quem realmente tem a rua como seu abrigo, até mesmo durante a noite.
Para a realização das atividades, a referida instituição dispõe de um carro tipo Kombi, de uma equipe específica para se dedicar a essas atividades e recebe doações de sopa e de refeições (as quais são recebidas diariamente de um dos principais restaurantes da cidade), para que sejam feitas marmitas, além de doação de pães e de suco. Toda essa comida é distribuída para cada pessoa abordada. A instituição recebe também doações de material de higiene pessoal e de produtos para que seja realizada a higienização.
O trabalho é feito da seguinte forma: a partir do horário das 21 horas, após a preparação das marmitas e organização dos demais alimentos no veículo, inicia-se a chamada rota, para a distribuição da comida: por onde o veículo passa, a equipe permanece atenta observando os locais, até encontrar alguém que esteja dormindo ou abrigado pelas ruas da cidade. Existe um esquema prévio de locais a serem visitados, os quais, segundo informações dos membros que realizam a atividade, foram escolhidos por concentrarem pessoas que moram nas ruas, de acordo com a experiência de atuação.
11 O termo “higienização” é utilizado pelos membros da instituição para designar as atividades de corte de
cabelo, corte de unhas e de barba dos moradores de rua. Esse atendimento é realizado no próprio espaço onde se encontram as pessoas abordadas, onde se organiza um espaço com os materiais para o atendimento à população.
Ao abordar uma pessoa ou um grupo, é distribuída a comida, ao mesmo tempo em que os voluntários conversam um pouco para saber da situação da pessoa abordada, fazem um breve momento de oração e seguem a rota à procura de outras pessoas.
Assim, a primeira participação na rota com a instituição para observações foi permeada de novidades acerca da realidade da moradia de rua: primeiramente, porque era um dia chuvoso, e por isso era esperado que a equipe não saísse para realizar as abordagens, pelo fato de que, com a chuva, não iríamos encontrar pessoas nas ruas. Porém, hoje se percebe que tal reflexão contrariava a própria realidade pesquisada, pois, para onde iriam os moradores de rua durante a chuva, já que a rua é o seu local de moradia? No máximo, procurariam se abrigar debaixo de lojas, de prédios, já que não teriam acesso a espaços privados.
E assim aconteceu: durante o percurso, encontramos os moradores de rua abrigados em diversos locais, visíveis às abordagens. Geralmente estavam sob as portas de lojas, em pequenos grupos ou isolados, alguns com uma pequena sacola onde deviam portar algumas roupas e objetos pessoais; dormiam em papelões, mas, muitas vezes, estavam no chão mesmo, cena presenciada várias vezes. Pode-se até afirmar que essa forma de abrigo era característica de todas as abordagens realizadas.
Nesse primeiro encontro, só a perplexidade de encontrar os moradores de rua “mesmo em um dia de chuva” já serviu como ponto importante da observação. Acrescenta-se a isso à emoção de, em cada ponto em que parávamos, ter-se a oportunidade de estar bem perto do morador de rua – apesar de refletir posteriormente que essa “emoção”, considerada positiva, só foi possível pelo fato de que havia o aparato nas abordagens por intermédio da instituição. Mas naquele instante, não importava se aquele encontro estava acontecendo apenas por causa da instituição (porque não houve “coragem” para buscá-lo individualmente); importava que aquela instituição estava conduzindo exatamente para o encontro com os moradores de rua, que pareciam “escondidos” pela cidade de João Pessoa-PB.
Esse momento, portanto, caracterizou-se como uma primeira aproximação através da intermediação e teve o intuito apenas da observação do espaço; os moradores de rua ainda não tinham sido abordados para a pesquisa. Tal aproximação foi marcada pela descoberta dos locais, pela surpresa de encontrar os moradores de rua, mesmo em um dia chuvoso, e de levar para casa a reflexão de que, durante o dia, os moradores de rua não estão naqueles “abrigos” que são as portas de lojas, calçadas de avenidas: são os
comerciantes, os consumidores que saem do seu ambiente privado que ocupam tais lugares. E o morador de rua, ao que parece, perde-se no espaço de todos e de ninguém.
O segundo dia de acompanhamento das abordagens junto com a instituição se deu por ocasião do dia da higienização. Foi feita uma breve explicação sobre o desenvolvimento dessa atividade, a qual já deixou a impressão de que seria uma oportunidade de estar por mais tempo com as pessoas abordadas. E de fato, as visitas nesse dia deram a oportunidade de finalmente encontrar/abordar as pessoas moradoras de rua. Para desenvolver as atividades de higienização, inicialmente a equipe da instituição organiza o local onde será feito o atendimento (que se dá exatamente no lugar onde estão os moradores de rua na noite); em seguida, enquanto alguns dos membros fazem o corte de cabelo ou fazem as unhas/barba, daqueles que desejam, outros permanecem conversando com os demais moradores que estão aguardando o atendimento. Na chegada ao local onde seria feito o atendimento, em uma das praças centrais da cidade – a Praça da Independência12 –, tal cenário já estava formado, visto que parte da equipe já havia chegado antes e dado início às atividades. As observações iniciais se deram no sentido de buscar uma forma de “inserção” na dinâmica daquela atividade: se seria auxiliando na higienização, tentando conversar com os moradores de rua, como os demais voluntários, ou somente observando de fora aquele movimento. A ansiedade por aquela oportunidade e o medo de não ter uma boa aceitação por parte daquele segmento no primeiro contato eram evidentes, por reconhecer que se estava adentrando no “território do outro” e que qualquer ação contrária à rotina daquela atuação, com perguntas demasiadas, observações insistentes, ocasionariam na perda daquela oportunidade, talvez única, que abriria as portas para todas as outras, junto aos moradores de rua.
E assim, a ida até o local onde os membros da equipe estavam conversando com alguns moradores de rua foi o início da aproximação. A primeira tentativa, feita com um jovem que estava aguardando o atendimento, era a de iniciar uma conversa informal a partir de um assunto diverso e acabou se transformando em um momento de relato, por parte do morador de rua, sobre sua trajetória de vida, o que o levou até as ruas, e sobre
12 Praça localizada no bairro de Tambiá, um dos mais tradicionais da cidade. Do logradouro sai a
sua rotina diária nesse local13. A conversa finalizou porque ele saiu para ser atendido pela equipe.
A partir desse primeiro contato, considerado como bem-sucedido, especialmente pelo fato de ter havido interação, passou-se a buscar outra pessoa para fazer o mesmo percurso. E assim aconteceu com outro jovem, apesar de ele demonstrar uma timidez inicial, que parecia um desinteresse pelo assunto iniciado; porém, assim como o primeiro, foi feito um verdadeiro relato de sua vida, naquele momento de abordagem.
A utilização desse modo de aproximação (através das conversas informais) foi importante e eficaz para alcançar as primeiras respostas das inquietações trazidas até aqui, para começar a encontrar o morador de rua da cidade de João Pessoa-PB, ao conhecer um pouco sobre sua trajetória e formas de sobrevivência nesse espaço.