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Entre os desafios para a gestão do processo de trabalho na Saúde do Trabalhador no SUS relatados pelos profissionais está o reduzido quantitativo de profissionais na área. Para os entrevistados, existe uma grande quantidade de ações a serem feitas e uma capacidade

limitada de profissionais para fazê-las: “Então nossas ações também vão ser limitadas, o que é possível fazer” (Profissional ST 8). Esse número limitado é explicado pela dificuldade de encontrar pessoas dispostas e que gostem de trabalhar na ST: “Talvez por causa do conflito mesmo. Então nós estamos envelhecendo, eu sou a mais velha, mas a nossa caçula está com 46 anos, a médica. E a gente queria sangue novo” (Profissional ST 11). Conforme assinala Vasconscellos (2007) o campo ST é também militância, ideologia e luta contínua contra a iniquidade e injustiças nos ambientes de trabalho. Por isso, o autor considera o técnico da ST marginal, contra-hegemônico e subversivo.

A escassez de profissionais no campo ST nos revela o problema da capacitação e qualificação dos profissionais de saúde, que na sua maioria tem formação para a atuação na clínica individual no setor privado: “A formação que tivemos na universidade foi para trabalhar em setores privados, clínica, é verdade, mas a pessoa não está no setor privado, ela está no setor público. Então, minimamente, ela tem que entender como funciona o sistema único de saúde” (Profissional ST 8). Mesmo entre os profissionais com experiência na Saúde Pública há dificuldade de apreender e incorporar em suas práticas as relações entre trabalho, saúde e ambiente ou de se assumirem como co-responsáveis pela atenção à saúde dos trabalhadores, de acordo com os preceitos do SUS:

Mesmo aquelas que estão inseridas na saúde pública, que tem um olhar mais sanitarista, uma visão de saúde e social interessante e legal, mesmo assim, o olhar da saúde do trabalhador ainda é muito precário, muito o que está estabelecido, com muito preconceito com o trabalhador, muito, muito difícil (Profissional CRST 8).

Sendo assim, uma dificuldade decorrente é estabelecer um fluxo contínuo de diagnóstico e notificação de agravos à ST na rede do SUS de Campinas e da regional do CRST. Atualmente os profissionais do CRST estão elencando algumas unidades sentinelas para fazer a notificação no Sinan, conforme estabelecido na Portaria da Renast. Entretanto, conforme revela uma das entrevistadas: “A política de saúde do trabalhador é uma coisa que fica sempre fora das prioridades” (Profissional ST 11). Nesse sentido, são relatadas dificuldades em levar a ST como prioridade para outros níveis do SUS: “É complicado, porque você vai disputar com outras prioridades, que de fato, a população encara como sendo problema” (Profissional ST 8). Questão esta também levantada pelos profissionais entrevistados de Amparo, assim como o problema de ser referência regional, sem interferência sobre a política de ST nos municípios de sua área de abrangência.

4.7. Algumas Considerações sobre a experiência

No que tange a experiência de Campinas, a rede de saúde municipal possui fundamental papel histórico no movimento de Reforma Sanitária Brasileira, sendo precursores da proposta de organização do Sistema Único de Saúde (Nascimento, Correa e Nozawa, 2007). O CRST também carrega uma trajetória no movimento de ST, constituido-se como importante referência para outros Centros no Estado de São Paulo e no País. Ao longo dessa história o CRST passou por sucessivos processos de descentralização das ações voltadas para a saúde dos trabalhadores para a rede de saúde, primeiramente no atendimento dos trabalhadores acidentados no trabalho, depois no atendimento a trabalhadores com LER e finalmente a descentralização da vigilância para as VISAs do município. Nesse processo de descentralização, a formação dos profissionais de rede do SUS teve papel central no fomento de ações de ST nessas instâncias, embora não tenha ocorrido sem conflitos ou de modo pleno, conforme relatam os entrevistados.

As atividades de avaliação e planejamento das ações do CRST pautaram essa trajetória, construindo uma experiência marcada pela aproximação com a rede SUS e pela priorização de ações capazes de articular vigilância, educação e assistência, assim como de agregar outros atores institucionais para a busca de respostas mais efetivas.

O envolvimento dos profissionais do CRST/ Campinas nos casos do bairro Mansões Santo Antonio e Shell/Cyanamid/ Basf, de Paulínia, propiciou um processo de formação concomitantemente à ação de vigilância. Tal situação ofereceu aos envolvidos no CRST maior experiência para lidar com a relação trabalho, saúde e ambiente, especialmente aquela implicada com os riscos químicos sobre a saúde dos trabalhadores, da população do entorno e do ambiente, numa perspectiva participativa e integrada.

O conjunto desses elementos, aliado à formação da CRBz de Campinas, propicia condições adequadas para o nascimento do Projeto de Vigilância dos Postos de Combustível. O projeto em si é recente e estava na fase de coleta das amostras piloto quando realizamos a pesquisa de campo, com algumas alterações no seu desenvolvimento e ganhando maior amplitude com a entrada de atores da VISA, entre os quais, da Vigilância Ambiental. Um aspecto fundamental é que o processo de formação, seja através de cursos oferecidos pelas Comissões do benzeno,

seja dos cursos de especialização em ST organizados pelo próprio CRST, em parceria com a SES/SP e a Unicamp, sensibilizaram e agregaram os profissionais de saúde da rede, que passaram a participar das sucessivas reuniões de planejamento da ação nos Postos. Este processo participativo leva a uma maior envolvimento dos profissionais com a questão, na medida em que passam a se sentir integrantes de um projeto que auxiliaram a construir (Campos e Amaral, 2007). A formação também permitiu a formulação e ajustes dos instrumentos de inspeção nos Postos e de Acolhimento dos trabalhadores no CRST, essenciais para a orientação das ações práticas de vigilância e assistência em saúde, respectivamente.

À medida que ocorre a pactuação das ações do projeto de Vigilância nos Postos de Combustível no âmbito do SUS, nos níveis nacional, estadual e municipal, elas parecem ter se convergido em uma ação transversal e necessária (Machado, 2005b), visto que tornou-se uma demanda de trabalho dos diferentes atores, fortalecendo seu compromisso com a produção de conhecimento e com a ação, propriamente dita. Para os atores entrevistados, assim desenhada a proposta apresenta a possibilidade de ampliação do olhar sobre o risco químico, no que tange à possibilidade de construção de indicadores ambientais e de saúde, de melhoria das condições de trabalho nos Postos, ao lado de possibilitar o aumento do controle social e regulamentar processos relacionados à produção, distribuição e consumo dos combustíveis, além de tratar do problema do uso do Benzeno na gasolina. Abrindo novas janelas para o campo ST.

As dificuldades até então observadas pelos entrevistados consistem naquelas inerentes ao trabalho em grupo de pessoas, com diferentes formações, saberes, vínculos institucionais, ao que se alia à sobrecarga de trabalho. Soma-se a isso o trabalho em torno de um objeto ainda pouco conhecido pelos profissionais de saúde, a relação entre trabalho, saúde e ambiente. Para os entrevistados, os maiores conflitos ainda estão por vir, à medida em que as ações começarem efetivamente a interferir no trabalho dos postos.

No que diz respeito aos desafios da gestão do trabalho em ST, os atores entrevistados acreditam que o maior deles seja a escassez de formação e de profissionais no campo ST, mesmo entre aqueles com formação em Saúde Pública. Além disso, ampliar a abrangência das ações do nível municipal para o regional também é apontado como dificuldade no cenário atual.

Capítulo 5. Assistência em Saúde do Trabalhador em grupos: do adoecimento à

Benzer Belgeler