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Vadesi geçmiş ancak değer düşüklüğüne uğramamış varlıkların

Belgede 2021 FAALİYET RAPORU (sayfa 182-188)

BAĞIMSIZ DENETÇİ RAPORU

TFRS 17 ile TFRS 9’un İlk Uygulaması - Karşılaştırmalı Bilgiler (’ye İlişkin Değişiklikler)

C. Vadesi geçmiş ancak değer düşüklüğüne uğramamış varlıkların

Segundo Paul Virilio a domesticação como violência dromocrática não pode ser vista apenas como sistema de enclausuramento, mas também como parte de:

toda uma economia clássica que é a do refém, do rapto, co deslocamento [...] da massa imensa de corpos domesticados, de corpos desconhecidos e irreconhecíveis [...] uma categoria de corpos inteiramente domesticados, classe ao mesmo tempo prolífica e tracionando engenhos, presença fantasmagórica no relato histórico da população flutuante ligada à sofisticação das exigências da logística 26.

O processo de domesticação dos corpos colonizados não difere muito da domesticação dos corpos animais – ainda mais em se tratando do corpo do índio que quase sempre fora considerado animal como testemunhou o padre J.Daniel:

[...] houve europeus que chegaram a proferir que os índios não eram verdadeiros homens, mas só um arremedo de gente, e uma semelhança de racionais; ou uma espécie de monstros, e na realidade geração de macacos com visos de natureza humana27.

25 P. Virilio, Guerra pura, 1984, p. 110. 26 P. Virilio, Velocidade e política, pp. 80-1.

Primeiro eram aprisionados pelo uso abusivo da força e, em seguida, sofreram o processo de domesticação sob coerção – eufemisticamente denominado assimilação, civilização, cristianização etc. – por meio do aprendizado dos hábitos de subordinação ao senhor. Para o colonizador quaisquer técnicas coercitivas eram válidas para domesticar o colonizado, pois eram justificadas com “atributos de legitimidade magistral numa cultura tradicional onde não se arriscam a trair a vaidade objectiva duma AP de que são o modo de imposição legítimo”28. Neste processo de domesticação, os rituais sagrados ou profanos são também de grande valia, pois através deles é que o colonizador acreditava abrandar a coerção e “canalizar o bárbaro, para domesticar o que é estranho”29.

No processo de domesticação dos nossos índios, José Bonifácio não esqueceu de incluir os rituais cristãos, como forma de abrandamento da barbaridade que ele julgava estar contida nas ações dos índios. Vejamos o que escreveu Virilio sobre a domesticação do estranho:

Começa-se por exercer coações por meio da força. Veja só o que se fez com os animais de estimação. Primeiro aprisionam os animais, em seguida os domesticam, no sentido de que lhes foram ensinados alguns truques e hábitos. Eles, então, foram levados a uma mutação biológica. [...] A repressão externa, o controle de forças externas sobre a população são progressivamente substituídos por uma ‘mediatização’ desta repressão e, finalmente, por uma auto-repressão muito clara, muito banal30.

Os métodos sugeridos por José Bonifácio para domesticar os índios estão espalhados em todos os textos em que ele fez menção a eles. Especificamente no que diz respeito às técnicas a serem utilizadas para atraí-los aos aldeamentos, as propostas de José Bonifácio não são

28 P. Bourdieu & J-C. Passeron, A reprodução, p. 37. 29 M. Maffesoli, Sobre o nomadismo, p. 102.

muito diferentes daquelas utilizadas pelos jesuítas. Segundo ele, “O melhor método de amansar os índios é casar com as índias os nossos, a quem elas preferem aos seus”31. No ”Avulsos”, ele sugere que os missionários encarregados da catequização e civilização dos índios bravos iniciem pelo estudo da “sua língua e costumes, o seu caráter e inclinações naturais [...] ganhem sua confiança e vontade; e então farão deles o que quiserem”32. Entretanto, ele sugere outros meios menos democráticos admitindo mesmo a escravidão como forma de assujeitamento das crianças indígenas aos valores portugueses, afirmando que “Seria útil admitir que os pais dos índios bravos que quiserem reconhecer o domínio português possam sujeitar os filhos a uma espécie de domesticidade ou escravidão temporária que não deve exceder a cinco anos [...]”33.

José Bonifácio fala da introdução de utensílios europeus para a domesticação do índio, um processo ideológico de aculturação com o objetivo de transformá-los em animais dóceis e úteis aos interesses do mercado colonial. Segundo o padre João Daniel, esses instrumentos foram até mesmo desejados pelos índios “pela razão, que por vezes temos dado, de não terem uso, nem instrumentos de ferro [...] fazem dela muita estimação”34.

Clastres diz que na utilização dos equipamentos da metrópole, os europeus os justificavam pela “incapacidade das sociedades primitivas de sair da estagnação de viver o dia-a-dia, dessa alienação permanente na busca de alimentos, invocam-se o subequipamento técnico, a inferioridade tecnológica”35.

As conseqüências da introdução dos equipamentos europeus nas sociedades indígenas foram nefastas, porque:

31 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 137. 32 Ibid., p.145.

33 Ibid., p.133.

34 Pe. J. Daniel, Tesouro descoberto no máximo Rio Amazonas, p. 383. Vol. 2. 35 P. Clastres, A sociedade contra o Estado, p. 133

[...] ao descobrirem a superioridade produtiva dos machados dos homens brancos, os índios os desejaram, não para produzirem mais no mesmo tempo, mas para produzirem a mesma coisa num tempo dez vezes mais curto. Mas foi exatamente o contrário que se verificou, pois, com os machados metálicos, irromperam no mundo primitivo dos índios a violência, a força, o poder, impostos aos selvagens pelos civilizados recém-chegados”36.

A domesticação, como sugere Virilio, sendo uma violência dromocrática não pode ser vista apenas como métodos de enclausuramento, mas também como parte de “toda uma economia clássica que é a do refém, do rapto, do deslocamento”37.

Nos “Apontamentos...”, José Bonifácio cita os instrumentos que deveriam ser introduzidos na cultura indígena como forma de domesticar, amansar, atrair os índios aos interesses dos projetos de aldeamentos. Neste documento, ele trata destes instrumentos nos Arts. 3º, 14º, 15º, 25º e 29º. A abertura do comércio com os índios seria o primeiro passo para o início da troca de produtos indígenas com instrumentos europeus, em forma de “quinquilharias de ferro e latão, espelhos, miçangas, facas, machados, tesouras, prego, anzóis, tabaco, vinhos doces e brandos, açúcar, carapuças, e barretes vermelhos, galões falsos, fitas, lenços de cores subidas ou listradas, mantas, cães de caça etc”38. A estas

quinquilharias somam-se outros utensílios e manhas, citados nos demais artigos dos “Apontamentos...”, quais sejam: presentes, promessas, arados, enxadas, machados e foices.

José Bonifácio conferiu aos missionários o poder de estabelecer comércio com os índios, como também, o de cobrar-lhes os devidos tributos na forma de dízimos.

Segundo Virilio, essa prática de cobrança por parte dos religiosos vem de longo tempo:

36 P. Clastres, A sociedade contra o Estado, p. 137. 37 P. Virilio, Velocidade e política, p. 80.

A importância do padre (do mago), do patriarca, deve-se à sua capacidade de estabelecer e realizar esse comércio de troca com os deuses/natureza, de atenuar-lhes os caprichos, as violências. É ele quem, graças ao seu empirismo científico, sabe fazer com que o sacrifício e o aluguel da terra sejam aceitos (ele coleta, fixa e recebe os impostos; o dízimo, hoje em dia, o óbolo, são remanescências disso)”39.

Com relação ao dízimo, no texto “Avulsos”, José Bonifácio critica o Art. 27º do Diretório que determinava aos índios o pagamento do dízimo aos diretores. Ele argumentava que “[...] é risível o deverem pagar o dízimo e o sexto do que fossem apanhar no mato!”40. Entretanto, nos “Apontamentos...”, no Art. 28º, ele propõe o pagamento do “dízimo da produção das terras, depois de passados seis anos livres, e o dízimo o único tributo que paguem durante os doze anos que se seguirem”41.

O clero e o Estado estavam de tal forma imbricados no projeto de José Bonifácio, que as suas funções se confundam. A construção de quartéis na área demarcada para os aldeamentos, obedecia a uma estratégia específica. Vejamos como este fenômeno pode encontrar uma explicação em Virilio:

Alem de sua função militar, a muralha dessa praça forte assume uma função de classe; é sua concepção poliorcética que a capacita a prolongar indefinidamente o enfrentamento social.[...] O poder burguês é militar antes de ser econômico, mas ele se relaciona mais precisamente à permanência oculta do estado de sítio, ao surgimento das praças fortes, ‘essas imensas máquinas imóveis diferentemente fabricadas’42.

E o mesmo Virilio acrescenta:

39 P. Virilio, Velocidade e política, p. 92.

40 J.B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 147, numa referência aos Arts. 56 e 57 do Diretório. 41 Ibid., p. 112.

[...] os quartéis-generais das forças policiais instalados nas proximidades, todo esse aparato é tão-somente a reconstituição das diversas peças do motor da fortaleza, com seus flancos, [...] a admissão e o escapamento de suas portas, todo esse controle primordial da massa pelos órgãos da defesa urbana 43.

Nos Arts. 10º e 11º, José Bonifácio sugere a construção de presídios militares com a capacidade de atender de 20 a 60 homens visando à manutenção da ordem nos aldeamentos. No Art. 20º que trata da instrução das artes e ofícios nos aldeamentos, ele diz que os índios, apos instruídos no “ler, escrever, e contar, e catecismo”44, seriam “distribuídos pelos lugares em que houver falta de oficiais concedendo-lhes a isenção de servir na tropa paga”45. Isto leva-nos a entender que na composição das tropas militares os índios aldeados e em formação de ofício eram presença obrigatória nas tropas pagas. Entretanto, no Art. 5º ele deixa claro que na composição dos postos civis e militares do aldeamento “haja pelo menos igualdade entre ambas as raças”, confirmando assim a utilização do índio no serviço militar das aldeias.

No que se refere ao poder de polícia, este cargo ele reservou ao pároco, conforme consta no Art. 8º “[...] párocos para as novas aldeias, que terão não só toda a jurisdição eclesiástica, mas a de polícia civil [...]46.

Esta escolha obedecia a uma lógica de comando e obediência, que José Bonifácio sabia que poderia ser exercida pelos membros do clero

O poder político do Estado só é, secundariamente, ‘o poder organizado de uma classe para a opressão da outra’. Num plano mais material, ele é

polis, polícia, isto é, serviço de manutenção do sistema viário [...] retomada mais ou menos consciente de uma série de bandeiras da velha

43 P. Virilio, Velocidade e política, p. 29.

44 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 109. 45 Ibid., p. 109.

poliorcética comunal, confundindo a ordem social com o controle da circulação (das pessoas, das mercadorias), e a revolução, o levante, com o engarrafamento, o estacionamento ilícito, o engavetamento, a colisão47.

O poder de controle no sentido de coação sobre o outro está em vários textos, de José Bonifácio, manifestando-se na forma de coação direta, com a introdução do índio nas tropas militares, ou indiretamente, na construção de fortificações, presídios militares e manutenção das estradas que fariam a ligação entre os aldeamentos.

O poder do Estado no plano material, de conformidade com Virilio –“polis, polícia,

manutenção do sistema viário” – está implícito no Art. 24º dos “Apontamentos...”, em que José Bonifácio reserva algumas tarefas consideradas mais propícias aos índios, uma vez que ele achava que os índios não eram “[...] muito próprios para os trabalhos aturados da agricultura”48. Dentre outros, ele sugeriu “[...] transportar madeiras dos montes aos rios e estradas, e abrir picadas pelo sertão, para o que são muito próprios [...]”49.

No texto “Nas aldeias novas, cada família deve ter terra precisa para se

sustentar”, José Bonifácio tratou das questões indígenas, propondo uma série de afazeres que seriam distribuídos nas novas aldeias, em função da idade e sexo: “[...] as raparigas serão a limpar o algodão, a afugentar os pássaros das roças etc., os rapazes a limpar os caminhos, de noite treco para ambos, e nos domingos doutrina e catecismo”50. No texto “Apontamentos sobre as sesmarias do Brasil”, ele previa a existência de uma caixa que seria mantida pela venda dos produtos colhidos nas sesmarias e que tinha como finalidade custear “[...] as despesas de estradas, canais e estabelecimentos de colonização de europeus, índios, e mulatos e negros forros”51.

47 P. Virilio, Velocidade e política, p. 28.

48 J.B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 111. 49 Ibid., p. 111.

50 J.B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 139. 51 Ibid., p.153.

No texto em que José Bonifácio trata da “Colônia de pretos”, no 28º item, ele previa o estabelecimento de pensões [...] nas estradas de Santos para São Paulo e Rio de Janeiro”52.

No que se refere ao poder de polícia e serviço militar, José Bonifácio não se descuidou, valendo-se de sua experiência em Portugal, quando se aliou à resistência portuguesa a partir de 30 de novembro de 1806. Inicialmente, fabricando munições de guerra e, posteriormente, como militar quando criou o Corpo Militar Acadêmico em Coimbra – tendo sido promovido a Major, Ten. Coronel e Coronel, além de Intendente da Polícia do Porto e Superintendente da Alfândega e da Marinha - chegando a lutar na tropa de resistência à invasão francesa comandada pelo General Junot.

Ainda no mesmo documento, no Art. 44º que trata da composição e dos deveres do Tribunal Conservador dos Índios, ele disse no item 8º “Para extirpar a apatia habitual dos índios, e influir-lhes novos brios, mandará formar companhias cívicas com fardamento [...] e se vão assim acostumando à subordinação militar, e sirvam para polícia das mesmas aldeias e distritos”53.

No texto “Os índios devem gozar dos privilégios da raça branca”, José Bonifácio disse que “Enquanto não houver boas estradas para carros, os índios podem empregar-se em tropeiros e condutores [...] e ainda mesmo o de soldados, conquanto que não os matem à fome, sobretudo para pedestres e caçadores”54.

Nos Arts. 10º e 11º dos “Apontamentos...”, José Bonifácio previa a construção de presídios militares tendo como fim “[...] coibir prontamente os tumultos e desordens que estes fizerem depois de aldeados”55.

52 J.B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 161. 53 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p.120. 54 Ibid., p. 127.

Estes presídios teriam na sua composição entre “vinte até sessenta homens de guarnição, com duas ou três peças de pequeno calibre, e se o exigirem as circunstâncias locais, poderão também estes destacamentos ter alguns soldados de cavalo56.

José Bonifácio fala do caráter geral do brasileiro no texto “Avulso”, expondo a questão militar que para ele era um problema sério a ser resolvido pelo governo. O autor disse textualmente que: “as ordens militares que poderiam, dadas só a serviços relevantes, ser uma grande força consolidante do governo, são objeto de risadas e desprezo”57.

As fortificações são objetos de representações referenciais de um espaço estriado que precisam ser vistos como zonas demarcadas para o exercício da guerra.

7. Guerra justa

Virilio trata a guerra justa como um processo ideológico que tem como justificativa o apoio teológico – conforme já tratado no capítulo II, da primeira parte - firmado pela cúpula religiosa quer cristã, judaica ou islâmica. A invocação da “guerra justa” partindo das religiões tem o seu fundamento na autoridade, credibilidade e infalibilidade das instituições que as pregam. Esta guerra, segundo ele, ao fugir ao controle do poder político acaba tornando-se numa ‘guerra completa’, em que sendo desenvolvida pelos recursos tecnológicos, incorpora à violência dromológica e, finalmente, deságua na ‘descarga completa’ ou, o aniquilamento total da ética e do ser – levando inclusive à morte. Para Virilio:

A morte só existe enquanto fundamento da religião porque há intercessores – [...] – mediadores da questão da morte ao nível individual:

56 J. B. de Andrada e Silva, Projetos para o Brasil, p. 105. 57 Ibid., p. 188.

aqueles que vêm apertar a sua mão quando você está morrendo, aqueles que fazem um sinal da cruz sobre o condenado, aqueles que dão a absolvição, etc58.

As guerras de extermínio levadas avante por Tomé de Souza, segundo Vainfas, foram amparadas por ordens régias que ordenavam os “ataques contra os tupinambá aliados dos franceses, de que resultaram escravizações ‘lícitas’, uma vez que efetuadas em ‘guerra justa’, como rezava a legislação da época”59. As “guerras justas” travadas no nordeste contra os potiguares tinham como objetivo a preação de índios para ‘despojos dos soldados, e ainda o soldo [da tropa]’60, segundo Alencastro.

8. Velocidade e tecnologia

Virilio diz que a velocidade e a tecnologia têm um lado negativo que o positivismo se encarregou de eliminar usando como recurso a censura ao afirmar que tecnologia e velocidade são progressos, criando assim uma verdadeira tecnofilia na massa consumidora. Entretanto, ao imprimir a velocidade ao objeto, as ciências criaram a tecnofilia e preencheram o nosso universo de acidentes. “No fim do século dezenove, os museus exibiram máquinas; no fim do século vinte acho que, num novo museu, deveremos conferir à dimensão formadora do acidente o seu lugar de direito”61.

Paul Virilio diz que a política tem um lado pouco conhecido que é o vetor velocidade, a despeito de ter sido estudada sempre pela ótica de um de seus aspectos, a riqueza. Entretanto, esta é tão somente conseqüência da velocidade expressa nos processos de decisões que envolvem questões que vão da produção à distribuição de bens das

58 P. Virilio, Guerra pura, p. 54

59 R. Vainfas, A heresia dos índios, p. 47.

60 L. F. de Alencastro, O trato dos viventes, p. 192.

estruturas de materiais às “subestruturas matematizadas”62. Desta forma, todas as sociedades em maior ou menor grau são, em essência, dromocráticas.

No confronto de dois povos de diferentes graus de dromocracia – os europeus e os indígenas – os primeiros fizeram valer os seus direitos impondo-se por meio do vetor velocidade: na produção, na distribuição, no poder de aniquilamento do outro e na sua capacidade hegemônica enquanto poder volitivo.

Paul Virilio afirma que “Em geral, até o século XIX, não havia produção de velocidade. Podia-se produzir freios por meios de muralhas, da lei, das normas, das interdições, etc. Podia-se frear usando todo tipo de obstáculos”63. Entretanto, mesmo considerando os obstáculos impostos pela metrópole – normas, leis, interdições, alvarás, cartas régias, provisões, portarias, regimentos, diretório, etc. – não podemos desconsiderar que o uso das armas de fogo, dos cavalos, dos paquetes, das caravelas etc., antes que freio, não tenham representado ganhos enormes em termos de velocidade de conquista sobre os povos autóctones em toda a América Latina.

Segundo Costa Marques, os portugueses foram os primeiros povos a utilizar a desmaterialização, o que lhes possibilitou o controle do comércio e suas respectivas rotas, além do domínio de centenas de povos de que se serviram para a manutenção da hegemonia lusitana, mesmo que tudo isso tenha custado o desaparecimento de dezenas de povos e culturas, através da repressão que o colonialismo impôs às tribos gerando assim um “desaparecimento trágico de pessoas mortas ou diminuídas, degradadas a ponto de não conhecerem mais suas próprias identidades”64.

62 Expressão de Edmund Husserl. Sobre este assunto veja-se Ivan da Costa Marques, O Brasil e a abertura

dos mercados: o trabalho em questão, p. 21.

63 P. Virilio, Guerra pura, p. 50. 64 Ibid., p. 85.

Este desaparecimento, segundo Virilio, foi traduzido no processo colonial pela “recusa da cidadania, de direitos, de habeas corpus, etc.”65, num processo em que foram desaparecidos – aniquilados – milhões de índios.

Virilio sustenta que este desaparecimento está ligado ao espaço tecnológico ou, espaço estriado, de que a Europa se utilizou para testar as suas tecnologias gerando assim um desinvestimento dromocrático e demográfico nos povos que foram suas vítimas.

65 P. Virilio, Guerra pura, p. 129.

CAPÍTULO IV

No quarto e último Capítulo de nossos estudos, analisaremos os conceitos de errância, território flutuante, profetismo e nomadismo, desenvolvido por Michel Maffesoli, e os aplicaremos para reler o discurso de José Bonifácio no contexto histórico de seu pensamento.

Assim como Deleuze, Maffesoli também trabalhou com o nomadismo. Entretanto, Deleuze usou do conceito para explicar o senso religioso nomádico, porque em seu pensamento o trajeto de deslocamento do nômade não comporta fronteira ou delimitação. O nômade não tem um ponto como fim – o que caracteriza o migrante – mas apenas alternância. Maffesoli o utiliza o conceito de nomadismo para justificar o senso de deslocamento bárbaro sobre um determinado espaço territorial, e esse bárbaro nômade apresenta-se à sociedade de várias formas: pela riqueza identitária, pelo desprezo, pela virtude, pela integração, pelo sedentarismo, etc.

1. Nomadismo

Um problema que sempre preocupou a coroa portuguesa e também os missionários foi o fato de os índios brasileiros serem nômades, pois isso estava prejudicando sobremaneira o projeto de ação catequizadora, como também dificultava a formação de mão-de-obra necessária ao desenvolvimento da produção colonial.

Para Maffesoli, o nomadismo tem sua origem na circulação dos bárbaros ou estrangeiros, dos errantes, ou ainda na dispersão de conglomerados humanos em um espaço territorial indefinido. Como

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