A Política Nacional de Mobilidade Urbana de 2012 e os Protestos de Junho de 2013 trouxeram à tona a importância de instâncias participativas nesta área, por um lado, ao questionar a qualidade e tarifas do transporte, e por outro, ao exigir a participação popular na elaboração do Plano de Mobilidade, condicionante para o repasse de verbas federais aos municípios. Conforme será mostrado a seguir, estes elementos aparecem no decreto de criação do CMTT.
Com o Decreto nº 54.058 de 2013, determina-se, no art. 2º, que o Conselho50 é um “órgão
50 Há uma controvérsia quanto à nomenclatura correta do órgão. Na lei fundadora e nos primeiros documentos produzidos está “Conselho Municipal de Trânsito e Transporte”, mas em outros arquivos disponíveis no site da Secretaria de Transportes e no próprio link do órgão está “Conselho Municipal de Transporte e Trânsito”.
colegiado de caráter consultivo, propositivo e participativo em questões relacionadas às ações de mobilidade urbana executadas pela Secretaria Municipal de Transportes, diretamente ou por intermédio da São Paulo Transporte S/A – SPTrans e da Companhia de Engenharia de Tráfego – CET” (SÃO PAULO, 2013a). O terceiro artigo do decreto criador do Conselho aponta suas atribuições, sendo que a primeira delas diz respeito à gestão democrática e a participação popular para melhoria da mobilidade urbana.
É importante lembrar que uma das questões mais gerais levantadas nos Protestos de Junho de 2013 era o fato da população não se sentir representada nos políticos eleitos, reivindicando mecanismos de participação, transparência e prestação de contas das ações adotadas pelo poder público. Quando o Conselho é criado apenas com um caráter consultivo, gera descontentamento em alguns grupos sociais, que esperavam um órgão com capacidade decisória, como um meio de ouvir as vozes das ruas e dividir o poder, democratizando de fato o órgão gerando confiabilidade e legitimidade às discussões realizadas pelo colegiado.
Ainda no art. 3º, fica evidente o impacto da Política Nacional de Mobilidade Urbana, pois o Conselho teria as funções de “subsidiar a formulação de políticas públicas” ligadas a ela e também “acompanhar a elaboração e implementação do Plano Municipal de Mobilidade Urbana” (SÃO PAULO, 2013a). A lei que cria a Política Nacional de Mobilidade Urbana prevê o Plano como seu instrumento de efetivação, sendo obrigatória sua elaboração em municípios com mais de 20.000 habitantes, devendo ser integrado ao Plano Diretor em até três anos a partir de 2012 (vigência da Lei 12.587/2012), sob pena do município não receber recursos orçamentários federais destinados à mobilidade urbana enquanto não for feito.
A criação do CMTT se fazia urgente para realizar o debate do Plano de Mobilidade, visto que a Política Nacional de Mobilidade Urbana tem como exigência a participação popular por meio de órgãos colegiados, conforme já discutido. Segundo Josias Lech, na entrevista realizada para esta pesquisa, o Conselho é a “espinha dorsal da participação popular” na elaboração do Plano Municipal de Mobilidade. Para ele, é necessário realizar uma verdadeira “reforma agrária” nas ruas de São Paulo, democratizando os espaços de deslocamentos, monopolizados pelos carros. Ao CMTT também é atribuída a função de participar da revisão do Plano Diretor e de suas normas complementares, uma extensão da atividade anterior no que diz respeito às questões sobre mobilidade.
Das catorze atribuições do Conselho, descritas no art. 3º, três tratam do coletivo público, sendo responsável por propor a normatização, fiscalização e avaliação do serviço urbano de transporte de passageiros, acompanhar sua gestão financeira e apreciar a proposta de alteração
tarifária. Além disso, ainda neste artigo do Decreto, a Secretaria Municipal de Transportes se compromete a encaminhar ao CMTT os elementos técnicos relativos à alteração tarifária, incluindo as planilhas de custos.
Essa ênfase na justificação do reajuste do preço das passagens de ônibus é claramente uma resposta às manifestações de rua, possivelmente para amortecer possíveis repercussões de aumentos futuros. A proposta não é uma discussão coletiva sobre o preço ideal da passagem e muito menos como concretizar o ideal e Tarifa Zero, como pretendia o MPL, mas tão somente a exposição dos números, sem maiores espaços para contestações.
No que diz respeito à questão da tarifa, o CMTT se mostra com uma função meramente figurativa, que não ultrapassa a linha decisória do poder público sobre esse tema. Embora o esforço para expor os números deva ser considerado, uma vez que algo semelhante não fora feito anteriormente no município, as ruas pediam por mais prestação de contas acompanhada de mais possibilidades de participação nas decisões tomadas.
As outras atribuições do Conselho que constam no art. 3º são: propor normatização e sugerir alterações em questões de trânsito, propor a normatização da circulação de carga e serviços, opinar sobre a acessibilidade e mobilidade urbana de pedestres, fazer sugestões para alocação de recursos, convocar audiências públicas para discutir tais sugestões, acompanhar a aplicação de recursos, avaliar a eficácia de programas e, por fim, elaborar seu próprio regimento. Todas as atividades consistem numa extensão das funções da Secretaria Municipal de Transportes.
Inicialmente, foi determinada a composição do Conselho com 39 membros, sendo 13 representantes de Órgãos Municipais, 13 da Sociedade Civil e 13 representantes dos Operadores51,
que devem exercer a representação de forma não remunerada. Mais do que no modelo de paridade, uma composição institucional tripartite favorece a pluralidade de interesses (MANSBRIDGE, 1980 apud FLORIDIA, 2013).
Essa estrutura é derivada da Política Nacional de Mobilidade Urbana, que prevê em seu art.15 a participação da sociedade civil em órgãos colegiados de composição tripartite: Poder Executivo, Sociedade Civil e Operadores de serviços. Mais uma vez, a Lei 12.587/2012 determinou o modo de estruturação do CMTT. Tanto os representantes dos Órgãos Municipais quanto dos Operadores de serviços são vagas ocupadas por indicação dos respectivos segmentos. Já as cadeiras da Sociedade Civil são eletivas, em votação direta pela população local. Não há especificação para quais entidades sociais devem estar representadas, o que causou polêmica com coletivos e
51 A categoria dos Operadores engloba os representantes provenientes de sindicatos de trabalhadores com carteira assinada e autônomos e de associações de empresários, os seja, todos os envolvidos na operação dos serviços de transporte, seja ele público ou privado, individual ou coletivo, como ônibus, fretados, táxis, etc.
associações de ciclistas e de mobilidade a pé.
O Decreto flexibiliza a composição do Conselho ao permitir a criação de comissões temáticas ou regionais52, podendo agregar interesses e grupos excluídos da formação inicial53. Além
dos representantes permanentes, há também os órgãos convidados: Ministério Público do Estado de São Paulo, a Câmara Municipal54, o Tribunal de Contas do Município e a Controladoria Geral do
Município. Outras entidades, técnicos e especialistas podem ser convidados a dar informações e esclarecimentos relativos aos temas tratados no Conselho.
A presidência cabe ao Secretário de Transporte, e a justificativa dada por Josias Lech na entrevista concedida é a manutenção da legitimidade do órgão, evitando divergências entre grupos, caso houvesse uma rotatividade no cargo. Por outro lado, isso faz com que a liderança do Conselho fique concentrada no Poder Executivo Municipal.
Até que fossem realizadas eleições para os membros da sociedade civil, cuja responsabilidade era da Secretaria Municipal de Transportes, o Decreto previu que esses integrantes seriam indicados pelo Conselho da Cidade de São Paulo. O órgão ainda possui um Secretário Executivo, designado pelo Secretário de Transportes, cuja função é dar suporte às reuniões do colegiado, função essa que não possui tempo de duração. Esse cargo foi ocupado por Josias Lech (PT), membro entrevistado que foi fundamental para o funcionamento do Conselho, conforme notamos nas observações das reuniões, e em seguida por João Manoel Scudeler de Barros (PSDB).
O Decreto, por fim, garante o registro e a publicidade dos atos do Conselho através do Diário Oficial da Cidade e do Portal da Prefeitura55. Assim, o CMTT começa apenas no papel, sem
definições mais específicas quanto à sua composição ou à estrutura das reuniões. Isso confirma a fala de Josias Lech na entrevista concedida por ele: sua criação foi acelerada pelos Protestos, sendo
52 A proposta de discussão do transporte nos bairros é do governo Marta: “A proposta é muito simples. Tomando como referência a questão do transporte, é possível chegar-se a um acordo razoável se discutirmos com a população de cada subprefeitura a problemática do transporte naquela região e incluirmos essas demandas na política municipal de transporte. A proposta que estou levantando não colide com a política global do município. Certamente, a política municipal na área de transporte só pode ser decidida em nível do município como um todo, mas esta deve se sustentar nos problemas reais que existem no plano regional; para tanto é fundamental incorporar as demandas dos conselhos comunitários no sistema central” (COLASUONNO, 2002, p.32).
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Isso ocorrerá com os representantes da mobilidade a pé: primeiro, constituíram uma câmara temática, e depois ganharam uma cadeira de representação no CMTT em 2016.
54 Essa medida não ameniza o distanciamento do Poder Legislativo, típico dos conselhos gestores e orçamentos participativos, visto que a Câmara é apenas um órgão convidado, sem envolvimento intrínseco às atividades do CMTT. Nas reuniões observadas para esta pesquisa, apenas uma única vez um assessor de um vereador da oposição esteve presente, e com a intenção de questionar uma medida da Secretaria de Transporte, relativa ao credenciamento das vans escolares. Os outros presentes apontaram que o pano de fundo era uma “briga política”, o que levou ao envolvimento deste vereador e principalmente de seu assessor na questão.
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O documento que tivemos mais dificuldade para acessar foi o Regimento Interno. Ao notificar Josias Lech e seus assessores que ele não estava disponível na página do Conselho, logo providenciaram sua colocação. Todavia, o documento não parecia oficial, pois em seu cabeçalho estava escrito “Proposta – Regimento Interno” e, no final, não havia data ou assinaturas. Todas as atas e outros arquivos apresentados em reuniões atualmente estão no site, para consulta de qualquer cidadão.
mais importante, naquele momento, adotar uma medida em resposta às ruas do que abrir a estruturação do Conselho para debate público, o que evitaria algumas polêmicas com movimentos sociais.
Diferentemente do que Josias Lech havia comentado em relação à demora para criação do Conselho, para elaboração de uma proposta diferenciada do órgão anterior, o CMTT tem uma estrutura muito parecida com a do Conselho de Transporte de 2000. Na gestão de Marta, também possuía caráter consultivo e com a presidência ocupada pelo Secretário de Transporte – cargo assumido por Jilmar Tatto nas duas últimas gestões do PT em São Paulo. Era composto por 54 membros, com super-representação societária, ou seja, mais membros da sociedade em relação ao governo. Adotava o modelo tripartite – Governo, Operadores e Usuários, tal como o CMTT. Funcionava de forma descentralizada, com fóruns regionais nas subprefeituras, e havia representatividade do morador eleito por região no Conselho. O maior problema era a assimetria entre as organizações patronais (16) e de trabalhadores (2).